a d v e r t i s e m e n tO secretário-geral das Nações Unidas (ONU), António Guterres, lançou um apelo firme a reformas económicas profundas e a uma justiça climática urgente na abertura da 39.ª Cimeira da União Africana (UA), realizada no fim-de-semana, alertando que o sistema financeiro global continua “totalmente injusto” para as nações em desenvolvimento e, em particular, para África.
Dirigindo-se aos chefes de Estado e de Governo, Guterres afirmou que os países em desenvolvimento enfrentam um défice anual de financiamento de 4 biliões de dólares para cumprir os Objectivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).
Ao mesmo tempo, observou que os países africanos perdem, todos os anos, mais recursos no serviço da dívida e em fluxos financeiros ilícitos do que recebem em ajuda externa.
“É simplesmente inconcebível que África tenha de lidar com um sistema económico e financeiro que permanece totalmente injusto”, declarou Guterres numa conferência de imprensa após o seu discurso.
No centro da sua mensagem económica esteve a exigência de triplicar a capacidade de financiamento dos bancos multilaterais de desenvolvimento (BMD), a fim de desbloquear capital acessível para as economias de rendimento médio e baixo.
Segundo o secretário-geral da ONU, as nações africanas pagam até oito vezes mais em custos de financiamento do que os países mais ricos, o que limita severamente a sua capacidade de investir em infra-estruturas, saúde, educação e resiliência climática.
“Devemos triplicar o poder de financiamento dos bancos multilaterais de desenvolvimento, mobilizar mais capital privado, reduzir custos e riscos de endividamento e apoiar os países em situação de crise da dívida”, afirmou.
Guterres apelou ainda a uma reforma estrutural da arquitectura financeira internacional, para garantir que os países em desenvolvimento — em particular os Estados africanos — tenham “uma voz real e uma participação significativa” nas instituições financeiras internacionais e na tomada de decisões económicas.
O representante das Nações Unidas sublinhou que o combate ao branqueamento de capitais, à evasão fiscal e aos fluxos financeiros ilícitos deve tornar-se uma prioridade global.
É simplesmente inconcebível que África tenha de lidar com um sistema económico e financeiro que permanece totalmente injustoAntónio Guterres – secretário-geral da ONU
“A comunidade internacional deve assumir plenamente as suas responsabilidades”, declarou, frisando que os recursos de África já não devem ser desviados através de sistemas financeiros opacos.
Guterres enfatizou que os países africanos devem beneficiar directamente da sua vasta riqueza natural, incluindo minerais críticos essenciais para a transição energética global.
“Chega de exploração. Chega de pilhagem”, afirmou. “O povo de África deve beneficiar dos recursos de África”, defendeu.
Advogou, também, a criação de cadeias de valor justas e sustentáveis que permitam aos países africanos ultrapassar a exportação de matérias-primas e avançar para o processamento e a manufactura local, em linha com as recomendações do Painel das Nações Unidas sobre Minerais Críticos para a Transição Energética.
Com África a deter 60% do melhor potencial solar do mundo, Guterres afirmou que o continente pode tornar-se uma potência global de energia limpa. Contudo, recebe actualmente apenas 2% do investimento mundial em energia limpa, um desequilíbrio que considerou inaceitável.
No que respeita à acção climática, Guterres advertiu que o planeta está no caminho para ultrapassar o limite de 1,5°C de aquecimento consagrado no Acordo de Paris. Embora essa ultrapassagem possa já ser inevitável, afirmou que a tarefa global é assegurar que seja “a mais pequena, mais curta e mais segura possível”.
O Grupo dos Vinte (G20), responsável por quase 80% das emissões globais, deve concretizar cortes profundos nesta década, insistiu.
“África quase nada contribuiu para esta crise. No entanto, enfrenta um aquecimento acima da média, secas, cheias e ondas de calor mortíferas. Isto é injustiça climática, pura e simples”, afirmou.
Apelou aos países desenvolvidos para que tripliquem o financiamento da adaptação, mobilizem 1,3 biliões de dólares por ano para os países em desenvolvimento até 2035 e reforcem o Fundo para Perdas e Danos, de modo a ajudar as nações vulneráveis a enfrentar impactos climáticos irreversíveis.
ONU alerta que o planeta está no caminho para ultrapassar o limite de 1,5°C de aquecimento consagrado no Acordo de Paris
A expansão dos sistemas de alerta precoce e a aceleração de uma transição justa e equitativa dos combustíveis fósseis para energias renováveis foram igualmente apontadas como prioridades urgentes.
Para além das questões económicas e climáticas, Guterres reiterou o seu apoio de longa data à reforma das instituições de governação global. A ausência de representação africana permanente no Conselho de Segurança da ONU, afirmou, é “indefensável”.
“Isto é 2026 — não 1946”, declarou. “Sempre que decisões sobre África e o mundo estiverem em cima da mesa, África deve estar à mesa.”
Guterres elogiou ainda a parceria entre as Nações Unidas e a União Africana ao longo da última década, destacando o trabalho conjunto nas áreas da paz e segurança, desenvolvimento sustentável e direitos humanos, bem como a adopção da Resolução 2719 do Conselho de Segurança, que apoia operações de paz lideradas pela União Africana.
Fonte: African News Agency
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