Vicente Sitoe abre um novo ciclo de reflexão sobre o papel do capital humano no País. O autor defende a urgência de humanizar práticas organizacionais, actualizar a formação dos jovens e revisitar ideias esquecidas do pensamento pan-africanista. O autor moçambicano Vicente Sitoe, director executivo da recrutadora SDO Mozambique (empresa de recursos humanos), confessa que a dimensão emocional esteve presente no processo de escrita de um dos seus mais recentes livros, “RH Com H de Humano”. A obra inclui o relato de um jovem que presenciou várias tentativas de suicídio do pai, uma história dolorosa que decidiu transformar em livro (com a devida autorização e sem identificação). O objectivo é lançar luz sobre problemáticas frequentemente ignoradas no contexto organizacional e familiar, particularmente as relacionadas com o bem-estar mental. “As nossas pessoas carregam histórias que influenciam a sua forma de estar e de trabalhar. Humanizar é também reconhecer estas realidades”, sublinhou. A conversa com o autor revela igualmente uma análise sobre os desafios que os jovens nacionais enfrentam no acesso ao emprego e na construção de competências relevantes. Vicente Sitoe identifica a polarização política como um dos fenómenos mais nocivos do momento, por impedir o diálogo entre jovens. “Se não és A, és B. Este tipo de separação não ajuda o País. Os jovens precisam de voltar a sentar-se juntos para criar e pensar”, afirmou. A formação académica é outro ponto crítico. Para o autor, os currículos continuam desajustados face às exigências do mundo actual, o que compromete a capacidade competitiva dos jovens moçambicanos em comparação com estudantes de outras regiões. “Houve tempos em que os nossos jovens competiam de igual para igual com europeus. Hoje, isso já não é evidente. Precisamos de uma reforma séria e realista no sector da educação”, revelou. O género continua a ser um problema A desigualdade de género permanece como uma ferida aberta no mercado de trabalho. As mulheres continuam, segundo Sitoe, “a ocupar maioritariamente o sector informal”, o que reflecte a falta de oportunidades no sector formal e a relutância de pequenas e médias empresas (PME) em contratar jovens mulheres, especialmente em idade reprodutiva. “Ainda vemos mulheres a ganhar menos pelo mesmo trabalho. Mesmo sem estatísticas detalhadas, os sinais são claros e repetidos”, apontou. As mulheres continuam “a ocupar maioritariamente o sector informal”, o que reflecte a falta de oportunidades no sector formal e a relutância de pequenas e médias empresas Outro elemento que distingue Moçambique dos restantes países da África Austral, na análise do escritor, é a indefinição do modelo económico nacional. Sitoe considera que o País oscila entre práticas socialistas e capitalistas, sem assumir claramente uma direcção, o que cria incerteza para investidores e empregadores. “Quem chega não pode trabalhar com indefinição. Isto afecta a forma como se gere, como se investe e até como se recruta”, realça. Humanização, IA e um debate por fazer O princípio da humanização ocupa um lugar central no livro dedicado aos recursos humanos. O autor destaca que “humanizar” não é “paternalismo nem favoritismo, mas sim respeito, transparência e dignidade nos processos organizacionais — do recrutamento à reforma.” Recorda que muitos trabalhadores são informados da passagem à reforma apenas no último momento, num gesto que considera “penoso” e contrário a qualquer prática responsável. “É possível humanizar sem transformar a organização numa Santa Casa da Misericórdia. Trata-se apenas de respeitar quem trabalhou uma vida inteira”, destacou. A Inteligência Artificial surge como um tema incontornável nas obras e nas preocupações do autor. Para Sitoe, a questão central não é apenas saber se a IA substituirá determinadas funções, mas sim como cada profissional poderá continuar útil num cenário em transformação acelerada: “A IA vai substituir quem não encontrar resposta para a pergunta: onde é que ainda sou necessário? Enquanto conseguirmos encontrar espaços de utilidade, continuaremos relevantes.” O livro “RH Com H de Humano” inclui artigos escritos e publicados ao longo dos últimos anos em diversas plataformas, desde jornais a redes sociais. A obra teve direito a lançamento, em Novembro, no auditório do edifício-sede do Banco Comercial e de Investimentos (BCI), perante uma plateia de cerca de 200 pessoas, a maioria pertencente à área de gestão de recursos humanos. Na ocasião, Vicente Sitoe apelou à reflexão colectiva sobre identidade, responsabilidade social e futuro. “Hoje lançámos esta conversa. Agora precisamos de pensar juntos sobre quem somos, o que queremos e que país pretendemos construir”, concluiu. Texto Nário Sixpene • Fotografia DRa dvertisement

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