As energias renováveis podem ser a chave para independência energética? Que papel é que desempenharam no apagão ibérico que ocorreu em abril na Península Ibérica? Em que pé estão as energias renováveis em Portugal?
Estas foram algumas das questões abordadas por Pedro Amaral Jorge, presidente da direção da Associação Portuguesa de Energias Renováveis (APREN), em entrevista ao Notícias ao Minuto, na qual defendeu também que a incorporação das energias renováveis tem impacto positivo na fatura final da eletricidade que é paga pelos consumidores.
Numa profundidade em que o quadro geopolítico é multíplice, Pedro Amaral Jorge sublinha as metas e o projecto da Percentagem Europeia para a robustez e considera que a eletrificação é necessária e precípuo, num contexto em que a Europa precisa de assumir a sua independência energética.
Porquê é que Portugal está em termos de energias renováveis?
Do ponto de vista da incorporação de robustez renovável na produção de eletricidade, estamos muito. No ano pretérito tivemos um amontoado de 80% de produção de eletricidade a partir de fontes renováveis em Portugal. Levante ano, até maio, tivemos murado de 81% e portanto na incorporação de renováveis na produção e consumo estamos muito.
No consumo final de robustez ainda temos algumas coisas para trabalhar, mas estamos na direção e rumo certos.
Os consumos de robustez que hoje são a partir de manadeira fóssil terão de passar a ser de manadeira renovável
Relembro que nos comprometemos a ter 51% de robustez renovável no consumo final de robustez até 2030 e mais de 85% de eletricidade renovável também até 2030. Na eletricidade é factível que vamos chegar, temos que fazer um trabalho conjunto para conseguirmos chegar à segmento da robustez também.
Quando fala em algumas coisas que ainda são necessárias trabalhar, a que melhorias se refere?
Os consumos de robustez que hoje são a partir de manadeira fóssil terão de passar a ser de manadeira renovável. Temos de ter uma abrangência na eletrificação direta dos consumos de manadeira renovável e, depois, perceber que outras fontes de robustez renovável é que poderemos ter – neste caso, os combustíveis renováveis de origem não biológica para a aviação e para o transporte marítimo é uma solução que tem que ser pensada, a introdução de hidrogénio verdejante para a produção de amónia também de manadeira renovável… Portanto, temos de aumentar o valor da incorporação não só na eletricidade diretamente nos consumos, mas também nos consumos de eletrificação indireta.
Para isso, conhecemos todos os problemas: temos de implementar medidas de contratos a prazo para a produção de eletricidade, que são fundamentais, quer os CFD’s [Contract for Difference] quer os PPA’s [Power Purchase Agreement], precisamos de aligeirar o tema dos licenciamentos para as instalações de produção de eletricidade, mas também para o consumo de eletricidade a partir de manadeira renovável, temos que ter uma lógica de gestão do território agregadora mas sem descurar da agenda com que nos comprometemos com a Percentagem Europeia, temos que ter atenção redobrada às comunidades e ao seu envolvimento na questão da transição energética. Estes pontos que me parecem fundamentais são os que temos de açodar a sua implementação até 2030, porque esta transição energética não acaba em 2030, a Percentagem Europeia já está a traçar os objetivos para 2040 e isto vai ter que ter uma traço de ininterrupção.
Quanto mais [energia] renovável eu tiver no mercado grossista, mais barato será o preço da eletricidade para o consumidor final
Considera que os pontos que referiu estão alinhados com as prioridades do atual Governo?
Esta questão da agenda da robustez é um tema que Portugal se vincula enquanto Estado-membro e não enquanto Governo. Comprometemo-nos com as metas no anterior governo ainda do Partido Socialista, já reforçámos as metas com o anterior governo da Federação Democrática. Tendo em conta que a constituição do Governo [atual] na pasta é a mesma que estava antes, parece-me que vamos ter que fazer todo o trabalho para honrar o compromisso com que nos submetemos a Bruxelas, à Percentagem Europeia, ao Parlamento Europeu e ao Recomendação Europeu.
Voltando um bocadinho detrás, à ‘fatia’ da produção e do consumo que as renováveis representam: em termos práticos, que impacto é que as renováveis têm nas faturas dos clientes, dos consumidores finais?
Temos quatro parcelas na tarifa ao consumidor final: componente da robustez, componente das redes, a segmento dos impostos e do dispêndio internacional poupado e os custos de comercialização. As renováveis têm impacto fundamental ao reduzir a componente da robustez da tarifa da eletricidade. Ou seja, quanto mais renovável eu tiver no mercado grossista, mais barato será o preço da eletricidade para o consumidor final.
Se pensarmos que vamos depender de combustíveis fósseis, com a instabilidade totalidade quer no Médio Oriente quer na governo [do presidente dos EUA, Donald] Trump, isso será um erro crasso
Isto tem tendência a evoluir, porque temos a urgência de ter estes contratos a prazo e não no quotidiano e intradiário. Isto vai aumentar a previsibilidade do preço e a redução desta componente da robustez aos consumidores.
Obviamente que os produtores de eletricidade renovável otimizam e todos os dias trabalham para minimizar os custos da produção de eletricidade, mas não têm influência nos outros componentes.
Há uma questão relevante na componente da robustez que tem a ver não só com temas de dispêndio e ambientais, mas também com temas de soberania energética, uma vez que todos já percebemos com o enquadramento geopolítico que temos. Se pensarmos que vamos depender de combustíveis fósseis, com a instabilidade totalidade quer no Médio Oriente quer na governo [do presidente dos EUA, Donald] Trump, isso será um erro crasso quer para Portugal, quer para a Europa.
Vamos precisamente a esse tema. De que forma é que as renováveis podem ajudar a minimizar o impacto dessa volatilidade no preço, tendo em conta que assistimos a uma situação geopolítica tão complicada até com os desenvolvimentos mais recentes entre o Irão e Israel?
Tudo o que tem a ver com a produção de eletricidade a partir de fontes renováveis e também com os restantes energéticos que vamos utilizar de fontes renováveis, têm uma vantagem muito grande: não dependem da importação de combustíveis fósseis. São ‘produzidos’ a partir de eletrocutores que vamos localizar em espaço europeu.
Não é provável a independência energética europeia sem renováveis
A partir do momento em que a Europa tenha soberania e controlo sobre os seus energéticos, pode definir políticas de preço e estratégias de dispêndio. Isto faz com que em 10 ou 20 anos, tenhamos uma trajetória de previsibilidade de quanto é que vão ser os custos da eletricidade.
A Europa, ao investir no controlo desses energéticos dentro das fronteiras da União Europeia ou de uma Europa mais alargada, vai conseguir ter previsibilidade de custos e controlar e não está sujeita a que os países da OPEP [Organização dos Países Exportadores de Petróleo] aproveitem todo e qualquer fator geopolítico para cartelizar, para reduzir a oferta e aumentar os preços.
Ou seja, dá mais independência…
Muito mais. Aliás, a teoria de todo levante pacote tem o objetivo ambiental, o objetivo de redução de custos e um objetivo de independência energética. As metas são sempre medidas nestas três grandes variáveis e é para aí que temos que caminhar.
Não é provável a independência energética europeia sem renováveis, sem a produção de robustez renovável e sem a produção depois de todos os outros energéticos adjuvante da masmorra de valor.
Neste momento, a maior manadeira de robustez renovável ainda é a hídrica
Para contextualizar, quando falamos de energias renováveis, a que fontes nos estamos a referir? Em Portugal, qual é a maior manadeira de robustez renovável?
Neste momento, a maior manadeira de robustez renovável ainda é a hídrica, seguida da eólica, seguida da fotovoltaica e depois a bioenergia. A teoria é que consigamos ter uma matriz que tenha um terço, um terço, um terço de hídrica, eólica e solar, complementando com biomassa, bioenergia, robustez de resíduos.
Relativamente ao apagão energético, que ocorreu em abril, a investigação do governo espanhol revela que as renováveis não estiveram na origem do incidente. Porquê vê esta epílogo?
Vejo uma vez que seria óbvia. Houve logo uma tendência dos fósseis e do amante do nuclear a expor que o grande problema tinham sido as renováveis no sistema, quando se sabe claramente que o problema que desiquilibrou a rede, mesmo que começasse numa manadeira de geração, seja ela renovável ou não renovável, é um tema de gestão da rede.
Houve logo a tentação muito grande, de um conjunto de pessoas que não vale a pena enumerar quem são e que vivem obcecadas com ser contra as renováveis, mas obviamente que não foi nenhuma responsabilidade concreta de nenhuma mediano renovável em privado.
Se olharmos para a incorporação de robustez naquele dia em termos do mercado ibérico, já tivemos dias com muito mais incorporação de renováveis e nunca tinha sucedido um incidente destes. Não sabemos a pretexto concreta, já nos começamos a aproximar dos problemas que podem ter causado, mas claramente tudo aponta para ter sido um problema de gestão da rede, mas não tem a ver com um produtor ter falhado na sua entrega de potência elétrica.
Que papel é que as renováveis podem desempenhar na prevenção de situações idênticas no horizonte?
Quando tivemos as centrais de blackstart, temos já uma hídrica e a teoria é termos mais duas centrais hídricas. O projecto que foi apresentado, e proposto logo pelo Governo e pelo gestor global do sistema, é termos quatro centrais no chamado blackstart, que é o arranque a insensível e três delas são hídricas. As renováveis permitem instantaneamente ter entrada a uma potência nominal.
Considera que o apagão veio mostrar a valimento de ter um reforço das interligações elétricas na Península Ibérica e com o resto da Europa?
O esboço que a Percentagem Europeia determinou para o sistema energético europeu é que ele deve ser altamente eletrificado, porque é a forma mais barata de se conseguir suprir as necessidades energéticas. Nesse esboço, está claramente determinado que temos que ter três caminhos: aumento das renováveis, aumento da eletrificação e o aumento das interligações entre Estados-membros. É esta a política que a Percentagem Europeia vai seguir.
O apagão é um problema de engenharia, não é um problema de fé
Quando fala da eletrificação, a que se refere em termos práticos?
Tudo o que é transporte rodoviário que hoje está a combustíveis fósseis, ter uma massiva incorporação de eletricidade renovável. Os sistemas que temos a gás dentro das nossas casas para caldeiras têm que ser eletrificados. Bombas de calor para suprir necessidades térmicas… estes são os grandes consumos que vão entrar cá. Depois vamos eletrificar coisas que nós antigamente fazíamos com gás procedente e que podemos passar a fazer com eletrificação direta: setor cerâmico, setor vidreiro, há ‘N’ tecnologias de eletrificação direta e isso permitirá eletrificar estes consumos. Ou seja, o que eram consumos a combustíveis fósseis, passam a ser consumos essencialmente renováveis.
Voltando ao apagão e tendo em conta o conhecimento que tem do setor, considera que é provável prevenir situações semelhantes no horizonte? É provável que levante tipo de situações volte a repetir-se?
Vamos pensar ao contrário, o apagão é um problema de engenharia, não é um problema de fé. O que acontece é que à medida que vou tendo mais incorporação de renovável no sistema, tenho que adequar os meus sistemas de gestão de rede, com armazenamento, com flexibilidade do lado do consumo, de forma a que esta incorporação de renovável não crie nenhuma perturbação no sistema.
Não vejo que passe a ter um problema frequente de apagões, acho exatamente o contrário
A questão é: podemos ter um sistema 100% fiável à prova de qualquer apagão nos próximos 20 anos? Podemos, mas isso tem um dispêndio para o consumidor que é incomportável. Se vamos ter de viver com a possibilidade de ter um apagão de 25 em 25 anos, não é um tema catastrófico. Temos interrupções de fornecimento nos EUA com mais frequência e com maior prazo, dura mais tempo, e a economia sobrevive.
Vamos é ter de ter um sistema elétrico robusto e resiliente. Os reguladores obrigam os operadores de rede a ter níveis de qualidade de serviço que são obrigatórios do ponto de vista de regulação. Não vejo que passe a ter um problema frequente de apagões, acho exatamente o contrário. Acho que levante incidente nos alerta que a gestão da rede é eficiente porque tivemos um apagão em 25 anos, não é um todos os anos. Agora, ainda podemos aprender com as causas deste apagão e desenharmos a gestão do sistema elétrico por forma a que minimizemos ainda mais a eventualidade destes fatores aparecerem e causarem estes fenómenos uma vez que foi o apagão.
Temos tido anos mais húmidos e, em Portugal, isso favorece o nosso sistema elétrico e traz muitos benefícios ao consumidor de eletricidade
Disse que ter um sistema 100% fiável teria custos para o consumidor. Porquê?
As seguradoras oferecem-me um seguro veículo com um conjunto de condições ou um seguro de saúde com um conjunto de condições. Se eu quiser prevenir todas aquelas condições, eu não tenho uma apólice standard, quanto é que isso me vai custar? Se calhar um milhão de vezes mais do que um consumidor que adere a um contrato standard que previne a maior segmento dos riscos.
Tudo o que se faz do ponto de vista de soluções de engenharia é para minimizar os eventos a 99%, mas há uma grande diferença entre ser 99% e ser 100%. Infalibilidade não acontece. Minimizar tem um dispêndio contraditório e não faz sentido, porque 1% raramente acontece e quando acontece tem que ser gerido e neste caso foi muito gerido.
Para terminar, que impacto é que as alterações climáticas podem ter na produção de robustez renovável?
As séries históricas davam sempre indicação de que iriamos ter uma desertificação lenta, mas a prazo. Nos anos recentes, fruto provavelmente das alterações climáticas, temos tido anos mais húmidos e, em Portugal, isso favorece o nosso sistema elétrico e traz muitos benefícios ao consumidor de eletricidade.
Quanto mais hídrica temos no sistema, mais robustez temos quando integramos eólica e solar mais hídrica. Isso permite-nos ser um dos três países da Europa com maior incorporação de renovável e isso reduz os preços da eletricidade e permite atrair investimento do lado do consumo.
Leia Também: Metas de renováveis para indústria e transportes arrancam ainda levante ano
Painel