O mar foi sempre sinónimo de liberdade, coragem e descoberta, tendo nele Portugal projetado a sua identidade e o seu destino. Hoje, quando o país precisa de voltar a olhar para o oceano com ambição estratégica, enfrenta um obstáculo que poucos ousam discutir: a dificuldade crescente de recrutar e reter pessoas na Marinha. O problema não é apenas português, é geracional, estrutural e cultural. Traduz ainda, em grande medida, o choque entre uma instituição fundada na disciplina e no sacrifício e uma sociedade moldada pela busca constante de conforto, bem-estar e imediatismo. As gerações que hoje entram para o mercado de trabalho nasceram num tempo em que o risco é algo a evitar, a estabilidade é um direito e a privação um anacronismo. Cresceram num mundo hiperligado, onde o tempo é medido em “stories” de 24 horas e a recompensa tem de ser imediata. A ideia de embarcar durante meses, longe da família, com horários rígidos, pouca rede e hierarquias inquestionáveis parece-lhes quase uma punição, quando não um absurdo. E, no entanto, é precisamente isso que significa servir no mar.
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