advertisemen tA nova estratégia global de saúde dos Estados Unidos da América (EUA) procurará posicionar empresas norte-americanas na liderança dos mercados africanos — que albergam as populações com crescimento mais rápido do mundo — com os Governos africanos a servirem de clientes dos produtos americanos. De acordo com o portal Devex, a afirmação foi feita por Jeff Graham, alto responsável do Gabinete de Segurança Sanitária Global e Diplomacia do Departamento de Estado. Nesta visão, o papel dos doadores passa a ser o de apoiar a inovação, e não o de se focarem apenas na resposta a emergências. “As empresas americanas estão largamente ausentes do mercado consumidor com crescimento mais rápido do mundo”, afirmou Graham num discurso durante a Cimeira da Cadeia de Abastecimento em Saúde Global, em Kigali, Ruanda. Graham integra uma equipa de responsáveis itinerantes do Departamento de Estado que percorre o continente africano para negociar acordos bilaterais com países no âmbito da nova estratégia global de saúde “America First”. Esta estratégia marca uma ruptura em relação a administrações anteriores, que dependiam fortemente do envio de fundos para organizações não-governamentais (ONG) parceiras, encarregadas de implementar programas. A administração Trump criticou estas ONG pelos seus custos operacionais elevados e planeia apoiar fortemente os Governos beneficiários, o sector privado e as organizações religiosas. “Não estamos a abandonar a liderança em saúde global — estamos a transformá-la”, declarou Graham, acrescentando que “a estratégia não aborda uma retirada, mas parcerias mais inteligentes que aproveitem a liderança tecnológica americana para criar sistemas de saúde sustentáveis e, simultaneamente, abrir mercados à inovação.” Os EUA iniciaram negociações com 16 Governos africanos. Graham destacou que existem actualmente duas equipas americanas a negociar em simultâneo, e que o Ruanda é o terceiro país na sua própria digressão de cinco países. Segundo o responsável, dois novos acordos emblemáticos com o sector privado “demonstram esta nova abordagem em acção”. Um deles é o novo investimento americano de 150 milhões de dólares na Zipline — uma empresa dos EUA que entrega material médico a zonas remotas através de drones. O responsável referiu-se a este investimento — anunciado na conferência de Kigali — como “um sinal de compromisso” com a visão da Administração Trump, e declarou que, nos próximos 36 meses, “verão a tecnologia americana a entregar medicamentos que salvam vidas a 130 milhões de pessoas no continente. Verão Governos africanos a pagar por esse serviço. Estamos a fazer um investimento inicial, mas o pagamento virá dos Governos, que não serão beneficiários de ajuda, mas clientes que reconhecem valor.” Críticas ao modelo anterior e defesa de um novo paradigma Jeff Graham acrescentou que mais de 80% dos medicamentos essenciais são adquiridos através de mecanismos internacionais, com participação mínima do sector privado africano. A visão da Administração Trump representa uma “mudança de mentalidade significativa para muitos dos nossos especialistas em saúde pública, mas uma mudança que os entusiasma bastante”, vincou. Graham descreveu uma visão em que um número cada vez maior de produtos farmacêuticos é fabricado em África, onde as empresas privadas são responsáveis pela maior parte da distribuição — e não os Governos —, e onde as cadeias de abastecimento das empresas são facilitadas por uma harmonização regulatória transfronteiriça. “Queremos aproveitar as vantagens tecnológicas inigualáveis da América na robótica, Inteligência Artificial, fabrico e inovação. Queremos criar parcerias comerciais que sobrevivam a mudanças de liderança política em ambos os lados, seja em Washington ou do outro lado do Atlântico, com os nossos amigos em África”, disse, apelando aos participantes da conferência para ajudarem a desenhar “a infra-estrutura de que esta transformação vai necessitar.” O governante apontou outro acordo que reflecte a nova abordagem da administração: o acordo de Setembro com a farmacêutica americana Gilead e com o Fundo Global de Combate ao VIH/SIDA, tuberculose e malária para disponibilizar o medicamento preventivo do vírus da imunodeficiência humana (VIH), Lenacapavir, que descreveu como um produto inovador. As primeiras doses foram entregues no Essuatíni e na Zâmbia. Dependência versus capacidade: críticas ao financiamento anterior Graham criticou o investimento anterior dos EUA na saúde africana por ter “criado dependência, não capacidade”, acrescentando que, “apesar de milhares de milhões de dólares em financiamento de doadores, continuamos a ver rupturas crónicas de stock. Durante décadas, os EUA “subvencionaram respostas de emergência”. O responsável criticou ainda o estado actual das cadeias de abastecimento em saúde, por estarem orientadas para respostas a emergências e não para a sustentabilidade a longo prazo, com empresas africanas a representarem uma fatia mínima do mercado farmacêutico global. De acordo com Graham, programas como o Plano de Emergência do Presidente dos EUA para o Alívio da SIDA (PEPFAR) e a Iniciativa Presidencial contra a malária, assim como organizações como o Fundo Global e a Gavi, criaram fragmentação entre diferentes doenças e múltiplas cadeias de abastecimento paralelas. O governante reiterou que mais de 80% dos medicamentos essenciais são adquiridos através de mecanismos internacionais, com pouca participação do sector privado africano. Visão para o futuro das parcerias EUA-África A visão da Administração Trump é uma “mudança de mentalidade significativa para muitos dos nossos especialistas em saúde pública, mas uma mudança que os entusiasma bastante”, insistiu. Graham traçou uma visão onde cada vez mais produtos farmacêuticos são fabricados em África, onde o sector privado assume a maior parte da distribuição e onde as cadeias de abastecimento são integradas por via de uma harmonização regulatória entre países. “Queremos aproveitar as vantagens tecnológicas inigualáveis da América (…) e criar parcerias comerciais que perdurem para além das mudanças políticas”, reafirmou, apelando novamente aos participantes para contribuírem para a construção da infra-estrutura necessária, acrescentando que a Administração Trump está empenhada em tornar real a ideia de “comércio, não de ajuda.” A nova estratégia “America First” recebeu reacções mistas. Alguns elogiam o potencial para integrar a ajuda externa nos sistemas nacionais de saúde, em vez de criar programas isolados e sistemas paralelos. Outros questionaram a capacidade do Departamento de Estado para executar a estratégia, dada a redução significativa da sua estrutura e conhecimentos em saúde global, e criticaram propostas de acordos de partilha de agentes patogénicos nos modelos bilaterais. Ainda assim, Graham mostra-se optimista. “Os próximos anos das parcerias de saúde entre os EUA e África serão fundamentalmente diferentes das últimas duas décadas”, afirmou. “Estamos a transformar a forma como os Estados Unidos fazem negócios com o continente africano no domínio da saúde, e estamos muito confiantes de que vai funcionar”, vincou.
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