Há cerca de trinta anos, em plena crise do setor têxtil no Vale do Ave, Luís Magalhães e a sua (ex-mulher) Filipa Magalhães fundavam a Polopiqué, com meia dúzia de trabalhadores, já virada para a exportação. Após longos anos de crescimento, com o efetivo a ultrapassar as 1.000 pessoas e a faturação os 100 milhões de euros, dos quais o grupo Inditex gerava mais de metade, o grupo Polopiqué entrou crise, nos últimos anos, tendo no passado verão decidido negociar com os credores a sua salvação. Em agosto, no âmbito da profunda reestruturação que desenhou, viu o tribunal deferir os seus pedidos de instauração de Processos Especiais de Revitalização (PER) para a Polopiqué Comércio e Indústria de Confeções e a Polopiqué Acabamentos Têxteis, ambas sediadas em Santo Tirso, e a insolvência de outras duas – Polopiqué II Tecidos, de Moreira de Cónegos, e a Cottonsmille Confeções , de Vizela. Objetivo: Livrar-se dos negócios menos rentáveis, para se concentrar nas unidades mais lucrativas, reduzido o seu efetivo de cerca de 800 trabalhadores para metade. Em termos globais, a Polopiqué apresentou-se a PER com dívidas de 66,5 milhões de euros a 420 credores, com o grupo espanhol Inditex a surgir como a segunda maior credora do grupo português, estando em causa contratos de adiantamento de 12,6 milhões de euros. À cabeça da lista de credores está o BCP, com 14,2 milhões de euros, enquanto a Caixa Geral de Depósitos (CGD) tem 6,5 milhões de euros reconhecidos pelo gestor judicial. No caso das duas insolventes, na Polopiqué II os créditos reconhecidos ascendiam a 20,8 milhões de euros, enquanto Cottonsmille fechou com dívidas de 3,9 milhões de euros. 274 trabalhadores despedidos por email: “Taxas de absentismo foram insustentáveis” A Polopiqué II e a Cottonsmille vinham acumulando prejuízos nos últimos exercícios – em 2023, a primeira registou um resultado negativo de 1,6 milhões de euros e a sua “irmã” mais de um milhão de euros. Foi por email, durante as férias, em agosto, que os 274 funcionários da Cottonsmile e da Polopiqué ficaram a saber que as empresas já não iriam reabrir. “Quero que compreendam que esta não foi uma escolha tomada de ânimo leve, foi fruto de muitos anos de esforço, investimento e tentativas de salvar um projeto que, apesar de tudo, nunca foi estratégico para o grupo”, afirma Luís Guimarães no email dirigido aos trabalhadores da Polopiqué Tecidos que foram dispensados. “A decisão de encerrar a unidade de Tecidos é, por isso, uma medida necessária para proteger a Polopiqué” e salvaguardar centenas de postos de trabalho, justifica o empresário, recordando que, em 2011, quando adquiriu a empresa, o fez por “responsabilidade moral”, porque a empresa estava com salários em atraso a mais de 300 trabalhadores. Já no caso da Cottonsmile, as altas taxas de absentismo são apresentadas como uma das razões para o colapso: “A Polopiqué fez tudo o que estava ao seu alcance para manter a unidade Cotton viva (…) A realidade é que as taxas de absentismo foram insustentáveis, chegando a atingir 20 a 30 por cento nos últimos tempos”, lê-se no comunicado aos trabalhadores. Em sede de liquidação, os ativos de ambas as insolventes – equipamentos para a indústria têxtil – foram na tarde desta sexta-feira, 5 de dezembro, alvo de um leilão presencial numa unidade hoteleira de Guimarães. Os ativos móveis da Polopiqué II – Tecidos, SA foram à praça com um valor base de 2.311.790 euros, e os da Cottonsmille – Confecções Unipessoal, Lda. por 48.230 euros. Os equipamentos da Polopiqué II tiveram apenas uma oferta, de 2,325 milhões de euros, que foi subscrita por um grupo norte-americano, revelou ao Negócios fonte oficial da Leilosoc. Quanto aos ativos da Cottonsmille, a adjudicação não foi firmada, para já, pois o valor máximo oferecido, de 43.500 euros, ficou abaixo do base que estava fixado. Nestes casos, existe o registo da oferta, que irá agora ser avaliada pela comissão de credores da insolvente.

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