O encontro promovido pela plataforma Mozup juntou, esta terça-feira (25) em Maputo, representantes de empresas, bancos, seguradoras, entidades públicas e operadores do sector de petróleo e gás, num debate dedicado à identificação de constrangimentos que afectam o acesso das pequenas e médias empresas ao financiamento e à apresentação de propostas para melhorar o funcionamento do sistema. As intervenções foram feitas de forma sequencial pelos diferentes grupos, permitindo que cada sector expusesse a sua experiência directa e as práticas observadas no mercado. Os representantes das empresas referiram que as acções de formação actualmente existentes não respondem plenamente às necessidades das PME, defendendo que a presença dos bancos nesses espaços é fundamental para clarificar requisitos de crédito e procedimentos de avaliação.advertisement Explicaram que muitas dúvidas surgem por falta de contacto directo com gestores de conta e técnicos bancários, o que dificulta a compreensão dos critérios aplicados pelas instituições financeiras. Apontaram também que, em vários casos, os processos de análise não têm em conta especificidades comuns no mercado nacional, como acordos estabelecidos com documentação limitada ou contratos celebrados com base em práticas habituais no sector. Os empresários destacaram ainda dificuldades relacionadas com a comunicação da banca, referindo que a terminologia utilizada nos produtos financeiros nem sempre é clara para quem opera no segmento das PME. Defenderam, por isso, que uma explicação mais directa sobre as características e condições associadas a cada produto pode contribuir para uma maior aproximação entre bancos e empresas. A falta de visitas regulares dos gestores de conta às empresas foi igualmente mencionada como um factor que limita o conhecimento das operações e dos ciclos de actividade das PME. A questão dos prazos de pagamento ocupou parte significativa do debate, com várias empresas a referirem que os prazos praticados por algumas entidades, que podem ultrapassar 60 dias, comprometem o fluxo de caixa e dificultam a execução de contratos. Defendem que prazos mais curtos, próximos dos 30 dias, seriam mais compatíveis com a capacidade financeira das PME e contribuiriam para a continuidade das suas operações. O tema do fundo de garantia mereceu consenso entre os grupos de empresas, que consideram que um instrumento deste tipo pode facilitar o acesso ao crédito, desde que seja adaptado à realidade das PME moçambicanas. Referiram que critérios excessivamente exigentes, como auditorias externas regulares, podem excluir empresas que, apesar de não cumprirem determinados requisitos formais, dispõem de capacidade operacional comprovada. O mesmo grupo sugeriu ainda que o fundo possa também ser utilizado para apoiar directamente a execução de contratos, fornecendo garantias que permitam às empresas iniciar actividade mesmo antes de receberem pagamentos. O segundo grupo de empresas reforçou estas propostas e acrescentou a possibilidade de adopção de mecanismos de apoio ao financiamento de facturas, incluindo a antecipação parcial de pagamentos em sectores específicos, medida que poderia reduzir dificuldades de tesouraria durante a execução de contratos. Mencionaram igualmente que a simplificação de alguns processos bancários e uma explicação mais clara das diferenças entre produtos financeiros pode contribuir para um ambiente de maior transparência. Na intervenção reservada à banca, os representantes dos bancos explicaram que “a concessão de crédito exige uma análise rigorosa do risco, tendo em conta que os fundos disponibilizados provêm dos depositantes. Reconheceram, porém, que o conhecimento directo das empresas é fundamental para melhorar a qualidade das decisões de crédito, e que visitas e acompanhamento mais próximo podem contribuir para uma avaliação mais completa.” Os bancos sublinharam a importância de digitalizar processos e simplificar a apresentação dos produtos financeiros Os mesmos representantes de diferentes entidades bancárias propuseram a criação de um agregador nacional que reúna informação relevante sobre as PME, incluindo histórico de contratos, formações concluídas e capacidade técnica, tornando o processo de análise mais uniforme entre as instituições financeiras. Os bancos sublinharam ainda a importância de digitalizar processos, simplificar a apresentação dos produtos financeiros e rever determinadas condições para que fiquem mais alinhadas com os prazos e práticas do mercado, manifestando abertura para discutir modelos de fundo de garantia que possam reduzir o risco associado ao financiamento e tornar o crédito mais acessível. Por sua vez, as seguradoras focaram-se na gestão de risco e na utilização de instrumentos de seguro como alternativas às garantias tradicionais, e apresentaram opções como seguros de crédito, cauções de boa execução e seguros de performance, defendendo que “estes instrumentos podem fortalecer a posição das PME perante a banca e contribuir para a redução do risco de incumprimento.” Indicaram ainda que programas de educação financeira e formação em gestão de risco podem ser úteis para aumentar a capacidade das empresas em lidar com exigências contratuais e financeiras. Já a Associação Moçambicana de Bancos defendeu a harmonização da comunicação entre as instituições financeiras, a clarificação de terminologia e a participação na certificação de formações destinadas às PME, destacando que “a produção de informação fiável por parte das empresas é essencial para a avaliação de risco e para a melhoria dos processos de crédito.” As intervenções concluíram que, apesar de diferenças entre os vários sectores, existe uma percepção comum de que o sistema pode ser ajustado para responder melhor às necessidades das PME, sem comprometer o rigor exigido pela banca. As propostas apresentadas abrangem alterações nos prazos de pagamento, melhorias na comunicação e na formação, adaptação de produtos financeiros e criação de instrumentos que reduzam o risco e facilitem o financiamento. Sobre o MozUpO MozUp é um centro de desenvolvimento empresarial que opera em Moçambique com o objectivo de reforçar a capacidade competitiva das empresas nacionais. A iniciativa apoia a preparação de fornecedores locais para participarem, de forma efectiva, em oportunidades de crescimento económico, incluindo as associadas ao sector de Gás Natural Liquefeito. O centro disponibiliza serviços de avaliação empresarial, consultoria, formação, mentoria e facilitação de ligações comerciais, funcionando como uma plataforma de apoio ao fortalecimento do tecido empresarial moçambicano. Texto: Felisberto Rucoa dvertisement
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