Nélia Mazula é uma engenheira química nascida em Maputo.

Chegou aos Estados Unidos (EUA) ainda bebé, quando os pais emigraram. O apoio da família marcou a sua trajectória, conforme conta à Economia & Mercado. “Os meus pais sempre acreditaram em mim e apoiaram-me muito na escola. Isso foi fundamental para eu poder seguir em frente”, recorda. Filha de pais moçambicanos, carrega orgulhosamente as raízes consigo. “A família do meu pai é do Norte. Visitei Nampula, Pemba e houve sempre esse esforço da parte deles para preservar as nossas memórias e a nossa história”, conta.

Na infância, destacou-se pela aptidão para a matemática e para as ciências. Os professores rapidamente a colocaram em programas especializados: “Diziam que eu era muito avançada. Mesmo como criança, os meus professores sempre me promoviam nessas escolas. Colocaram-me em vários programas de engenharia, embora eu nem soubesse o que era um engenheiro, na altura.”

Vocação matemática, mas sonho diferente

Apesar do talento para disciplinas técnicas, Nélia tinha outra ambição: “Eu queria estudar direito internacional, porque pensava: Moçambique está a sofrer, precisamos de ter competências para defender o que é nosso.” O rumo mudou quando a engenheira ganhou uma bolsa para estudar na Arizona State University Tempe Campus, uma universidade americana.

Na recepção, o reitor foi directo, perguntando-lhe que área da engenharia queria estudar. “Não vou estudar engenharia, quero estudar direito”, respondeu. O reitor mostrou-lhe então uma lista das carreiras mais bem remuneradas. “A primeira era engenharia química. A segunda era ciência da computação. Eu não sabia o que um engenheiro químico fazia, mas pensei que, pelo menos assim, poderia pagar a faculdade de direito no futuro. Então, escolhi engenharia química.” E assim começou uma trajectória inesperada. “O primeiro engenheiro químico que conheci foi o director da escola, e foi assim que a minha jornada começou.”

Moçambique e a experiência no terreno

Na década de 2000, aos 21 anos, Nélia regressou a Moçambique para trabalhar em projectos estratégicos na indústria do gás natural. Trabalhou na Companhia Moçambicana de Hidrocarbonetos (CMH) por cerca de quatro anos, nos blocos de Temane e Pande, onde participou no processo de validação e entrada em operação de unidades de produção de petróleo e gás, experiências que considera transformadoras. Os blocos de Temane e Pande foram as primeiras reservas de gás natural de Moçambique a serem exploradas comercialmente, numa concessão à petrolífera estatal sul-africana Sasol.

“Construímos diversas infra-estruturas. Foi praticamente como transformar uma zona rural numa cidade. Nunca pensei que algo que eu fizesse pudesse ter tanto impacto”, argumenta.

“Quando se é especialista, as pessoas acabam por escolhê-la, não porque é mulher ou negra, mas porque é a melhor. Porque você sabe”

O trabalho tinha os seus desafios. Muitas vezes, Mazula ficava meses sem salário, mas a sua paixão mantinha-a motivada. “Eu gostava tanto de trabalhar que memorizei todo a configuração, das válvulas às redes. Queria saber como tudo funcionava. A minha curiosidade não tinha limites”, afirma com entusiasmo, destacando que essa fase reforçou o seu respeito pela engenharia. “Isso fez-me respeitar a indústria e o que ela faz em termos de desenvolvimento. Percebi que estava no caminho certo.”

EUA e as startups tecnológicas

De regresso aos EUA, decidiu arriscar-se no campo das startups tecnológicas ligadas à programação industrial. “Era uma nova carreira praticamente. Eu era engenheira na construção, nos laboratórios. Mas ali eu estava praticamente na área de ciências de computação”, relembra. O ambiente das startups era intenso segundo a engenheira. “Era sempre volátil. Com muita energia, muito trabalho. Eu gosto da inovação, mas, às vezes, não há uma estrutura. Depende do dono da empresa.”

Apesar da instabilidade, Mazula destacou-se. “Aquela empresa foi comprada pela Siemens. A segunda startup também. Eu trazia sempre projectos grandes.” O prestígio abriu portas: uma petrolífera internacional passou a recomendá-la como referência em transformação digital. Pouco tempo depois, Nélia recebeu um convite da gigante francesa Dassault para se juntar à equipa. “Eles ligaram-me. Eu nem conhecia a empresa. Mandaram-me um bilhete de avião para Boston. Gostei. Adorei. Porque era uma empresa inovadora. Tinha infra-estrutura de pesquisa, algo de que eu gosto.”

O salto para o mundo das patentes

Na Dassault, começou a escrever patentes sem imaginar o impacto que elas teriam. “Comecei simplesmente a escrever. Não sabia se seriam aceites. Escrevi várias, mas cinco foram aprovadas. Algumas começaram a ser lançadas anos mais tarde”, conta à E&M.

As suas patentes concentram-se em algoritmos aplicados à indústria. “Em termos simples, trata-se de como um robô pode ver e analisar informações” sobre “equipamentos, instalações, como pode ver essas questões, analisá-las e extrair dados das mesmas. Essa é a essência do meu trabalho.”

Alguns prémios reconheceram as suas patentes de software focadas em realidade aumentada, visualização de dados e inteligência artificial, tecnologias que contribuíram para a digitalização da engenharia na indústria de petróleo e gás.

A lista de patentes assinada por Nélia Mazula inclui tecnologias muito faladas na actualidade: actualização em realidade aumentada de modelos CAD 3D; reengenharia de varrimento laser de modelos CAD 3D; mapeamento gráfico baseado em densidade; pesquisa baseada em frequência incorporada e processamento de dados gráficos 3D; e re-digitalização de pesquisa 3D para 2D. Com a pandemia da covid-19, a relevância das suas invenções cresceu. A possibilidade de visualizar instalações industriais em 3D sem deslocação física revelou-se crucial. “É como o Google Maps em 3D, mas aplicado a unidades industriais”, explica a engenheira.

Inspiração para outras mulheres

Graças ao seu trabalho, recebeu o prémio Fiatech Superior Technology Achievement, em 2016, e foi honrada pelo Houston Business Journal como “mulher líder”. Foi ainda reconhecida no National Inventors Museum, distinções que figuram lado a lado com vários certificados e publicações técnicas com o seu nome. Mazula recebeu também prémios da Society of Women Engineers, uma organização que também lhe concedeu uma bolsa de estudos na sua juventude. “Quando fui reconhecida, foi realmente óptimo, porque também foi uma forma de mostrar a outras raparigas que isto é possível”, ou seja, que o género não tem de ser uma barreira.

Actualmente, Nélia Mazula vive em Houston, Texas, e continua a ser uma referência global em inovação digital aplicada à indústria. Mas os seus sonhos continuam ligados a Moçambique. “O que eu realmente gostaria de fazer? Queria ajudar as áreas rurais, criar bolsas de estudo específicas, não só para estudar, mas para criar uma cultura de empreendedorismo, para iniciar negócios. Acho que é muito importante, mesmo pequenos negócios, porque cria uma mentalidade diferente.”

Para Mazula, o segredo está na curiosidade e na dedicação. “Quando recebo uma máquina, quero saber tudo sobre ela, como funciona. Para mim, o mais importante é entender. E quando se é especialista, as pessoas acabam por escolhê-la, ão porque é mulher ou negra, mas porqueé a melhor. Porque você sabe.”

Texto: Germano Ndlovo • Fotografia D.R.a d v e r t i s e m e n t

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