A política anti-imigração agressiva da administração Trump está a ter grandes ramificações na sociedade norte-americana e nem as vendas de tequila escapam aos seus impactos. Confrontados com um ambiente hostil nas ruas, com os agentes do ICE a prenderem e a deportarem, por vezes de forma indiscriminada, imigrantes ilegais, muitos consumidores têm optado por ficar em casa. A mudança nos hábitos já se faz sentir nas receitas da Proximo Spirits, a distribuidora norte-americana da Becle, fabricante da popular bebida espirituosa José Cuervo.


“As tensões das políticas de imigração (de Trump) criaram uma atmosfera muito difícil para os consumidores, especialmente imigrantes e hispânicos, (que) obviamente constituem uma grande parte do nosso negócio”, explica Lander Otegui, diretor de marketing da Proximo Spirits, citado pelo Financial Times. “Os consumidores têm medo, mesmo (se forem) legais. Têm medo porque não se querem meter em problemas. Não querem ir a restaurantes, não querem ir a bares”, acrescenta. 


No último trimestre de 2025, o volume de tequila que a Becle vendeu nos EUA e no Canadá caiu 6,4% comparado com o período homólogo. Já as receitas afundaram mais de 12%, o que reflete também o ambiente mais competitivo em termos de preços no mercado. Otegui explica ainda que as famílias de imigrantes ilegais nos EUA estão a mandar os filhos aos supermercados de forma a evitarem o ICE (quem nascer no país tem automaticamente direito a cidadania), mas, devido às restrições à venda de bebidas alcoólicas a menores de 21 anos, as espirituosas acabam por ficar na estante. 


No entanto, o caso não é único. Empresas como a Constellation Brands, que nos EUA distribui a marca de cerveja Corona e a de tequila Casa Noble, e até mesmo a Coca-Cola estão a sentir os impactos das políticas anti-imigração de Trump. Este clima de tensão social chega ainda numa altura em que a venda de álcool, nomeadamente de bebidas espirituosas, enfrenta uma crise, com a inflação dos preços e a mudança de hábitos de consumo, principalmente nas gerações mais jovens, a afastarem os consumidores. 


“75% dos consumidores hispânicos estão muito preocupados com o ambiente socioeconómico e estão a ser muito mais cuidadosos com os seus padrões de consumo, gastando muito mais no que se poderia chamar de bens essenciais do que em outras categorias”, explicou Bill Newlands, CEO da Constellation, na última apresentação de resultados da empresa. “Vê-se muita volatilidade de estado para estado, dependendo do que está a acontecer com a política de imigração”, adicionou. 


A atuação da polícia de imigração nos EUA tem vindo a gerar controvérsia desde que Trump intensificou a sua luta contra a imigração ilegal. Em reação, milhões de norte-americanos têm saído às ruas para protestar contra a ação da polícia de imigração, o que tem culminado numa série de confrontos entre as autoridades e os manifestantes, que acusam o ICE de detenções indiscriminadas e de reprimir os protestos. Duas pessoas já morreram às mãos das autoridades norte-americanas nas últimas semanas em Minneapolis, no Minnesota. 

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