advertisemen tEnquanto o mundo aguarda a 30.ª Conferência das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (COP30), que terá lugar em Belém, no Brasil, África prepara-se para falar com uma voz mais forte e unida. Durante décadas, o continente foi visto sobretudo como vítima das alterações climáticas — afectado de forma desproporcional pelo aumento das temperaturas, chuvas irregulares e fenómenos meteorológicos extremos, apesar de contribuir com menos de 4% das emissões globais de gases com efeito de estufa. Na COP30, África pretende ultrapassar a imagem de vulnerabilidade e afirmar-se como um actor global de peso, com uma agenda clara que passa pelo financiamento climático, pela transferência de tecnologia e por uma transição energética justa. Das margens para o centro das negociações Os negociadores africanos têm mostrado maior organização nas últimas cimeiras climáticas. Blocos como o Grupo Africano de Negociadores (AGN) têm pressionado por posições mais firmes no que diz respeito ao financiamento da adaptação e aos mecanismos de perdas e danos. Na COP28, no Dubai, as vozes africanas foram decisivas para tornar operacional o Fundo de Perdas e Danos — um passo que colocou os países em desenvolvimento no centro do debate sobre justiça climática. A COP30 será uma oportunidade para consolidar essa influência. Perante o agravamento dos impactos climáticos em todo o continente, África vai defender não apenas a sua sobrevivência, mas também a sua participação justa na economia verde global. O imperativo do financiamento climático O financiamento está no coração da posição africana. A promessa ainda não cumprida de 100 mil milhões de dólares anuais por parte dos países desenvolvidos continua a ser um ponto de frustração, enquanto as necessidades de adaptação de África são estimadas em mais de 250 mil milhões de dólares por ano até 2030. Espera-se que os líderes africanos exijam: Aumento do financiamento concessionário para acelerar a adopção de energias renováveis; Trocas de dívida por investimentos climáticos, aliviando a pressão orçamental e apoiando projectos verdes, Mecanismos de acesso directo que canalizem os fundos de forma mais eficiente para instituições e comunidades locais. Transição energética e o debate sobre a transição justa África enfrenta um dilema particular. Apesar de possuir grandes reservas de petróleo, gás e minerais essenciais para a transição energética global, muitos dos seus cidadãos continuam sem acesso a electricidade fiável. Na COP30, os negociadores africanos deverão sublinhar a necessidade de uma “transição justa” — que permita ao continente rentabilizar os seus recursos naturais de forma responsável, ao mesmo tempo que investe em energias renováveis. Países como Moçambique, Angola e Nigéria procuram equilibrar investimentos em projectos de gás com a expansão da capacidade solar, eólica e hídrica. O argumento africano será de que os percursos de transição devem respeitar os contextos nacionais, em vez de serem impostos a partir de agendas externas. Transferência de tecnologia e conhecimento Além do financiamento, África defenderá a transferência de tecnologia. O objectivo é garantir que os sistemas de energia renovável, a agricultura adaptada ao clima e as soluções de resiliência não fiquem condicionados por patentes ou custos elevados. A cooperação com parceiros da Ásia, Europa e Américas será importante, mas a prioridade africana será reforçar a auto-suficiência, através da criação de cadeias de valor regionais ligadas às indústrias verdes e aos minerais críticos. A importância da voz de África A trajectória demográfica do continente — que deverá acolher um quarto da população mundial até 2050 — torna-o central para o futuro climático global. Uma África fragmentada corre o risco de ser marginalizada; uma África coordenada pode moldar resultados. Na COP30, a força negocial do continente dependerá da sua capacidade de articular uma visão comum de justiça climática, conciliando os diferentes interesses nacionais. A COP30 não resolverá todos os desafios, mas poderá ser um ponto de viragem na forma como África é vista na governação climática global. Mais do que um receptor passivo de ajuda, o continente procura ser reconhecido como criador de soluções: um espaço que, para além de sofrer com os efeitos das alterações climáticas, também detém recursos e potencial renovável fundamentais para combatê-las. Se os líderes africanos conseguirem consolidar a sua mensagem em Belém, a voz de África na COP30 poderá ecoar muito para além da Amazónia, redefinindo o papel do continente na transição global para um futuro sustentável. Fonte: Further Africa
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