Oitenta anos depois dos bombardeamentos atómicos de Hiroshima e Nagasaki, a Inteligência Artificial (IA) está a emergir como uma ferramenta fundamental para preservar as memórias dos sobreviventes, cujo número vai diminuindo. A IA poderá ser decisiva num futuro próximo, quando já não restarem ‘hibakusha’, sobreviventes dos bombardeamentos atómicos em japonês, para partilhar testemunhos do horror que viveram em Hiroshima, em 6 de agosto de 1945, e em Nagasaki, três dias depois. Trata-se de uma proposta da emissora pública japonesa NHK, que desenvolveu o Simulador de Testemunho Hibakusha, um grande ecrã com vídeo de alta definição que permite aos utilizadores fazer perguntas aos sobreviventes através de um microfone e receber uma resposta. “Como emissora pública em Hiroshima, é importante imaginar como será um mundo sem ‘hibakusha’ e estamos a pensar no que fazer para deixar a sua memória”, disse a produtora da NHK Seiko Ikuta à agência de notícias espanhola EFE. O Japão vai assinalar na quarta-feira os 80 anos do lançamento da bomba atómica sobre Hiroshima num contexto de apelos ao abandono das armas nucleares e das guerras na Ucrânia e no Médio Oriente. Lusa | 10:52 – 05/08/2025 Ikuta referiu que já existem muitos vídeos de testemunhas oculares, mas são unilaterais, o que faz com que os ouvintes “não se concentrem”, pelo que foi decidido criar uma ferramenta em que se possa gerar uma sensação realista. A ferramenta, que não utiliza IA generativa, permite que as pessoas façam qualquer tipo de pergunta aos sobreviventes, desde a forma como viveram o dia do bombardeamento até à música que ouviam na rádio na altura. Depois, utilizando palavras-chave, interpreta a pergunta e procura a resposta mais adequada num arquivo de cerca de 900 testemunhos, criando a sensação de se estar a ter uma verdadeira conversa com os ‘hibakusha’. A principal diferença em relação aos testemunhos gravados que existem nos museus da Paz de Hiroshima e de Nagasaki é que o utilizador assume uma posição de destaque e é gerada uma escuta mais ativa, segundo Ikuta. De momento, a ferramenta só permite a interação com a sobrevivente Yoshiko Kajimoto, de 94 anos, que estava numa fábrica de munições na altura do bombardeamento, a cerca de 2,3 quilómetros do local do impacto da bomba. Embora inicialmente tivesse algumas reservas em relação ao projeto, Kajimoto quis participar por haver cada vez menos sobreviventes vivos e por considerar que é importante transmitir a memória às novas gerações. “Já passaram 80 anos, muito tempo, e já morreram muitas pessoas que sofreram com a bomba atómica e com a guerra, restam apenas alguns idosos como eu”, disse à EFE. É por isso que agora quer contar “ao maior número de pessoas possível sobre a tragédia e como foi difícil”. Kajimoto está consciente de que daqui a 10 anos, no 90.º aniversário do bombardeamento atómico, provavelmente não haverá sobreviventes vivos, pelo que pretende que a mensagem “chegue ao maior número possível de pessoas”. O número de ‘hibakusha’ em Hiroshima e Nagasaki desceu abaixo dos 100.000 pela primeira vez desde que há registos, de acordo com os dados divulgados em julho pelo Ministério do Bem-Estar do Japão. No final de março, 99.130 pessoas foram oficialmente certificadas como vítimas, menos 7.695 do que um ano antes. A idade média dos sobreviventes subiu para 86,13 anos, em comparação com 85,58 no ano anterior, refletindo o envelhecimento de uma população marcada pela tragédia atómica ocorrida há quase oito décadas. As duas bombas atómicas lançadas em Hiroshima e Nagasaki, que precipitaram o fim da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), são os únicos casos na História em que foram utilizadas armas nucleares em tempo de guerra. Leia Também: “Nunca disse ao meu marido que estava em Hiroshima”

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