
“Penso que será um jogo do gato e do rato em que temos agora uma ferramenta poderosa que pode identificar este tipo de ‘deep fakes’ e ajudar-nos a compreender que é uma ‘deep fake’, mas depois as pessoas, do outro lado, vão melhorar em termos de tecnologia”, afirma Gary Rivlin, quando instado a comentar o papel da inteligência artificial (IA) como criadora e detetora de desinformação. Rivlin, que é membro da equipa vencedora do prémio Pulitzer 2017 responsável pelo Panama Papers, esteve em Lisboa a convite do clube RedBridge Lisbon, que liga as comunidades empreendedoras e de investidores de Silicon Valley e Lisboa. “Será uma corrida em que ora a vantagem está de um lado, ora a vantagem está do outro”, diz, quando questionado qual dos lados vai ganhar, referindo que o mesmo se coloca nas questões de segurança. A IA “é uma ferramenta fantástica para a segurança”, que permite detetar algo suspeito se um padrão for quebrado e lançar um alerta. “Mas, por outro lado, a IA pode ser utilizada por pessoas mal intencionadas para manipular e enganar outras pessoas” e, portanto, “mais uma vez, acho que é este jogo do gato e do rato”. Sobre o papel da IA no jornalismo, Gary Rivlin, que é autor de mais de uma dezena de livros, entre os quais o recente ‘AI Valley’, refere que a tecnologia ainda não se desloca e entrevista pessoas. “Não vai fazer um conjunto de entrevistas, pelo menos na minha opinião a curto e médio prazo”, afirma. O que a IA pode fazer no jornalismo “é uma notícia básica”, “formula bem as coisas”, mas “não é criativa” no sentido em que os escritores são criativos, nem vai a uma reunião do conselho municipal ou da direção da escola. No entanto, se a IA tiver as entrevistas, pode criar uma história “básica, mas não uma história particularmente boa ou criativa”, considera. Gary Rivlin usa IA “todo o dia, todos os dias”, não só para investigação, mas também para obter sugestões e ajudar na transcrição de entrevistas, referindo ser uma “ferramenta muito útil”. Instado a partilhar um conselho, o jornalista que desde final de 2022 tem estado focado no tema da inteligência artificial aconselha a aprender a usar a tecnologia. “A IA é uma ameaça para muitos empregos ‘white-collar’ (de escritório, administrativos), a IA é uma ameaça para muitos empregos ‘blue-collar (operários)”, por isso “acho que o segredo é usá-la”, aconselha. A curto e médio prazo, “acredito que serão as pessoas que utilizarão a IA que se sentirão confortáveis com ela, ultrapassando as que não a utilizam”, diz, referindo que daqui a uma década saber usar a tecnologia será essencial. “Seja proficiente” a usar a IA, caso contrário irá aumentar as probabilidades de ser substituído, aponta. Sobre os media nos Estados Unidos, o especialista considera que a IA é uma “parte muito pequena” da atual situação. “Há muito menos notícias locais porque são caras, há muito menos reportagens de investigação porque são caras”, além de que agora “todo a gente é jornalista”, refere. Por exemplo, plataformas como o X “têm mais influência, na minha opinião, do que os principais jornais e redes de televisão dos EUA”, prossegue. “Haverá sempre necessidade de jornalistas, mas é uma profissão em declínio, pelo menos nos EUA”, lamenta, admitindo tempos difíceis para o setor. Mais uma vez, trata-se de um “problema muito maior do que apenas a IA”, esta “é simplesmente adicionada à lista de problemas”, diz Gary Rivlin, dando o exemplo do que algumas publicações estão a fazer nos Estados Unidos. “Diferentes publicações nos EUA estão a usar IA” e meteram-se ’em trabalhos’ porque a inteligência artificial “inventa histórias e publicam-nas porque querem cortar custos e tudo mais” e agora têm de pedir desculpa por isso, relata. Rivlin diz que os jornalistas ainda são necessários, mas “talvez” se precise menos deles. Leia Também: Profissionais da tecnologia usam IA no trabalho. Google diz que são 90%
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