À medida que fazemos experiências no mundo do trabalho com os novos sistemas algorítmicos, emerge a questão: será a ajuda que faltava para Moçambique aproveitar o seu dividendo demográfico? Mesmo que seja, falta infra-estrutura e são necessárias decisões.
A Inteligência Artificial (IA) está a transformar o mundo do trabalho a uma velocidade sem precedentes, e Moçambique não é excepção. Tshilidzi Marwala, professor e reitor da Universidade das Nações Unidas (UNU-WIDER, sigla em inglês) e secretário-geral adjunto das Nações Unidas, defende que as tecnologias de simulação da inteligência humana não são apenas um salto tecnológico, mas uma verdadeira mudança estrutural no mundo do trabalho e na sociedade. “Estamos a construir uma nova fase de agilidade dentro de nós mesmos. Esses sistemas não são apenas humanos, mas podem agir com dados independentes”, afirma.
Para o académico, que passou por Moçambique no final do ano, desde a década de 1980 que se assiste à automatização de tarefas e ao uso crescente de computadores. Agora, com a IA, as mudanças são mais rápidas e abrangem formas de pensar, produzir e comunicar. Segundo explica, “a IA pode gerar produtividade e criatividade, mas só será benéfica se estiver alinhada com os valores humanos.”
Marwala sublinha que em contextos de baixo rendimento, como Moçambique, onde o trabalho informal e manual continua a ser maioritário, a IA não substituirá directamente os empregos, mas poderá transformar a forma como se aprende, produz e participa na economia.
Educação e línguas, áreas cruciais
No sector da educação, o responsável frisa que a IA pode ser usada para personalizar o ensino, adaptar o conteúdo ao ritmo dos alunos e reduzir as desigualdades no acesso ao conhecimento. No sector da saúde, ela pode auxiliar no diagnóstico, vigilância e gestão de doenças. “Mas nada disso será possível sem dados de qualidade, infra-estrutura e alfabetização digital”, alerta.
Outra questão fundamental é a das línguas africanas. Marwala destaca que “uma das grandes questões do nosso tempo é a construção de modelos linguísticos para línguas que têm pouca presença digital.” Sem isso, adverte, a IA pode excluir culturas e identidades locais, exacerbando os desequilíbrios.
Com cerca de 400 mil jovens a entrar no mercado de trabalho todos os anos, Moçambique enfrenta um dos maiores desafios demográficos da região da África Austral
Marwala acrescenta que a IA só cumprirá verdadeiramente o seu propósito se as pessoas forem capazes de se adaptar, se forem treinadas para empregos que ainda não existem e para tecnologias que ainda estão por vir. “Precisamos de preparar os jovens para uma realidade que ainda não foi escrita”, declarou.
O professor sugere que a IA pode ser uma ponte para o futuro ou um risco, se deixada ao acaso. A diferença estará no treino, nas políticas públicas, na inclusão digital e na capacidade de inovação local.
Mais um desafio para Moçambique
O que pode fazer Moçambique? “Transformar o potencial de uma geração em força produtiva é um desafio e uma oportunidade para o crescimento e desenvolvimento nacional”, defende o ministro do Planeamento e Desenvolvimento de Moçambique, Salim Valá, face ao advento das tecnologias de simulação da inteligência humana. Mais de 60% dos moçambicanos “têm menos de 25 anos, e cerca de 400 mil jovens entram no mercado de trabalho todos os anos. Isso pressiona o sistema económico, mas também representa uma oportunidade de expansão”, defende o governante.
Valá quer mostrar trabalho feito — como o fez no simpósio “Inclusive Growth in Mozambique”, em Novembro, em Maputo, ao lado de Tshilidzi Marwala — ao indicar que o Governo está a reforçar os programas de formação técnica e profissional, apoiando o empreendedorismo juvenil e os estágios profissionais. Ao mesmo tempo, introduz mecanismos para monitorizar a dinâmica do mercado de trabalho: “Cada metical investido neste fundo é um investimento no futuro produtivo do País”, disse, referindo-se ao Fundo de Desenvolvimento Económico Local (FDEL).
O grande desafio demográfico
Com cerca de 400 mil jovens a entrar no mercado de trabalho todos os anos, Moçambique enfrenta um dos maiores desafios demográficos da região da África Austral. Este afluxo contínuo de jovens exerce uma pressão considerável sobre a economia, mas também representa uma oportunidade de transformação, especialmente se a IA for integrada de forma estratégica e inclusiva.
“Queremos um país onde os jovens não esperem pelas oportunidades, mas as criem — uma nação onde todos os jovens possam trabalhar, inovar e prosperar”, refere Valá. Para isso, apela à cooperação entre o Estado, o sector privado, a academia e a sociedade civil. O desafio demográfico exige uma resposta em várias frentes. O ministro enfatizou que o FDEL desempenha agora um papel central. “Cada metical investido no FDEL é um investimento directo na capacidade produtiva da juventude moçambicana.”
Aposta na IA pode redefinir o mercado de trabalho
Can Sever, economista do Departamento Africano do Fundo Monetário Internacional (FMI) considera que Moçambique precisa de criar cerca de meio milhão de empregos, anualmente, até 2030, para responder às necessidades da sua população jovem em crescimento. Alerta que a África Subsaariana continua a ter dificuldades em criar empregos suficientes, uma vez que o crescimento económico regional “é menos intensivo em emprego” do que no resto do mundo.
Este cenário enquadra-se num desafio amplamente documentado por várias instituições internacionais: a região tem uma das populações mais jovens do planeta, e o ritmo de expansão da força de trabalho supera largamente a capacidade de absorção do mercado formal. Em Moçambique, a transição demográfica coloca pressão crescente sobre sectores com fraca produtividade e elevada informalidade, o que limita a criação de postos de trabalho estáveis e capazes de sustentar rendimentos familiares.
Observadores económicos sublinham que, para transformar este potencial em oportunidades reais, é essencial acelerar reformas que promovam um ambiente de negócios mais dinâmico, expandir infra-estruturas críticas — sobretudo energia e transportes — e incentivar o investimento em sectores com maior capacidade de absorção de mão-de-obra. A diversificação económica, o desenvolvimento de cadeias de valor agrícolas e industriais e a melhoria do acesso à educação e formação profissional são frequentemente apontados como elementos-chave para aumentar a produtividade e abrir espaço para novos empregos formais.
Texto Germano Ndlovo • Fotografia D.R.
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