Num mercado global bilionário, o gás natural liquefeito ganha centralidade estratégica entre as grandes potências. Estados Unidos, Qatar e Austrália disputam protagonismo, enquanto Moçambique tenta afirmar-se entre os colossos.

O mercado global de gás natural liquefeito (GNL) está em franca expansão, alimentado tanto pela reconfiguração geopolítica do mundo como pela necessidade urgente de reduzir emissões de gases com efeito de estufa. Em 2024, o comércio mundial de GNL atingiu 411,24 milhões de toneladas, um crescimento de 2,4% face ao ano anterior, segundo o relatório anual da União Internacional de Gás (IGU, sigla inglesa). A capacidade total global de liquefacção atingiu aproximadamente 494,4 milhões de toneladas por ano (mtpa) e a procura continua a crescer, especialmente em mercados asiáticos e europeus.

As projecções indicam que o mercado de GNL continuará a crescer a um ritmo médio anual de 5,1% até 2032, com um valor global entre 462 e 689 mil milhões de dólares até ao fim da década, de acordo com o portal Maximize Market Research. Este crescimento sustentado torna o GNL num activo geopolítico, porque tem implicações profundas no comércio, nas finanças e na segurança energética global.

GNL na Transição Energética

O gás natural, apesar de ser um combustível fóssil, tem sido amplamente defendido como uma solução para fazer a ponte na transição para fontes renováveis. Tem metade das emissões de CO2 do carvão, apresentando-se como uma opção viável para assegurar a segurança energética, atenuando os prejuízos climáticos. A logística instalada para o transporte e produção de electricidade tornam-no particularmente atractivo para países em desenvolvimento.

No entanto, há uma crescente atenção internacional para a poluição com emissões de metano. A Europa, o Japão e a Coreia do Sul, grandes importadores de GNL, já começaram a exigir maior transparência e rastreabilidade nas cadeias de fornecimento. Isto representa um desafio adicional para países como Moçambique, que precisarão de adoptar práticas mais sustentáveis e supervisão ambiental rigorosa para manter a competitividade e reputação internacional.

Um impulso para Moçambique

O potencial desenvolvimento do sector de GNL em Moçambique, de que se fala há décadas, não se limita a uma oportunidade de inserção no mercado global. Poderá ser um catalisador estratégico para a expansão das energias renováveis e modernização do sector energético nacional. O gás natural, enquanto fonte de energia de transição, garante estabilidade e segurança energética, permitindo integrar gradualmente energia solar, eólica e respectivos sistemas de armazenamento. Neste contexto, investimentos públicos e privados podem vir a ser importantes, como mostra o empreendimento da central térmica a gás de Temane – complementado por iniciativas de distribuição rural financiadas pelo Estado e por investidores estrangeiros. Estes investimentos permitiram ao País reduzir a dependência de combustíveis fósseis mais poluentes, expandir a rede eléctrica e preparar a infra-estrutura para receber de forma eficiente a energia proveniente de fontes renováveis. Mas é preciso que planos desenhados há muitos anos passem à prática.

As projecções indicam que o mercado de GNL continuará a crescer a um ritmo médio anual de 5,1 até 2032, com valor global entre 462 e 689 mil milhões de dólares até ao fim da década

A combinação de receita do gás, capital privado e políticas públicas estratégicas poderá fortalecer a resiliência do sistema energético moçambicano e criar condições para várias metas que são sonhos  do País: industrialização verde, criação de emprego e redução de desigualdades regionais de acesso à energia. Ao articular de forma estruturada o GNL e as renováveis, Moçambique poderia ser um pólo de inovação energética em África, indicam vários estudos. O crescimento económico e sustentabilidade ambiental caminhariam lado a lado, oferecendo um modelo de transição energética que alia segurança, competitividade e desenvolvimento inclusivo.

Alavanca de crescimento continua por activar

O País encontra-se num ponto de inflexão. Por um lado, as suas vastas reservas de gás natural e os investimentos estratégicos em plataformas flutuantes (para a exploração da bacia do Rovuma) colocam-no na linha da frente ao nível dos países com potencial técnico no sector. Por outro, os atrasos nos megaprojectos terrestres, os riscos de segurança e a limitada infra-estrutura doméstica continuam a adiar qualquer benefício acrescido que o GNL venha a trazer para a economia nacional.

Segundo o Financial Times, mesmo com todos os projectos em operação plena, a contribuição do sector para o PIB poderá manter-se abaixo dos 2% até 2029, a menos que medidas claras de redistribuição e industrialização do gás sejam implementadas. Moçambique corre o risco de tornar-se apenas numa “plataforma de exportação”, sem grandes efeitos multiplicadores na economia real.

Será que o GNL poderá desempenhar um papel fundamental na extensão da rede eléctrica do País? Neste equilíbrio entre exportação e uso doméstico reside uma das maiores oportunidades estratégicas para Moçambique: usar o gás não apenas como activo de exportação, mas como alavanca de desenvolvimento interno. Infelizmente, o País colecciona um histórico de projectos que ficam na gaveta.

Na mira das grandesindústrias do sector

Os projectos de GNL colocam também Moçambique na mira das grandes empresas industriais do sector. Por exemplo, a multinacional sul-coreana Daewoo revelou estar interessada em expandir os seus investimentos nos projectos do Rovuma. Durante um encontro, em Maputo, com o chefe do Estado, Daniel Chapo, em Junho, o presidente da empresa asiática, Won-Ju Jung, destacou o elevado potencial dos empreendimentos.

“Nós já estamos presentes na Área 1, onde colaboramos com a construção do projecto, e agora queremos participar também na Área 4. São projectos de alta valorização, que poderão ajudar Moçambique a crescer e a ser conhecido no mundo”, disse. Citado pela Agência de Informação de Moçambique, o responsável sublinhou que a Daewoo tem um plano para desenvolver, no País, indústrias com base no gás natural, indústrias de fertilizantes e modernizar a energia eléctrica.

Texto: Celso Chambisso • Fotografia: D.R.

Post a comment

Your email address will not be published.

Related Posts