A Netflix lançou no passado mês de novembro um novo filme baseado em “O Filho de Mil Homens”, romance da autoria de Valter Hugo Mãe lançado originalmente em 2011 e que teve assim direito a uma adaptação cinematográfica.

O filme conta com realização e argumento de Daniel Rezende (“Cidade de Deus”, “Bingo: O Rei das Manhãs”) e é protagonizado por Rodrigo Santoro (“Carandiru”, “O Amor Acontece”), sendo que os dois são produtores executivos desta produção brasileira para a Netflix.
Pouco antes da estreia do filme, o Notícias ao Minuto teve a oportunidade de assistir a “O Filho de Mil Homens” e, pouco depois, de falar tanto com Daniel Rezende como com Rodrigo Santoro. Ao longo da conversa, soubemos como ‘nasceu’ esta adaptação da obra de Valter Hugo Mãe, quais foram os principais desafios e até que o futuro do realizador brasileiro pode passar por mais uma adaptação da obra de um autor português.
Pode ler abaixo a conversa na íntegra que o Notícias ao Minuto teve com Daniel Rezende e Rodrigo Santoro.
Rodrigo Santoro e Daniel Rezende © Netflix  
De onde veio a decisão de adaptar esta obra específica do Valter Hugo Mãe? Foi por ser um dos livros mais populares do autor ou houve uma identificação e afinidade com os temas abordados?
Daniel Rezende: Foi o primeiro livro que li do Valter, portanto a adaptação não surgiu porque era um livro dele ou era o mais popular. Ao ler o livro, enquanto estava a conhecer o Crisóstomo, eu já tinha a certeza de que precisava fazer este filme. Quanto mais lia, mais impactado ficava com a maneira como o Valter construiu as personagens, as relações e vai alargando a ideia de família, de como nos relacionamos fora dos padrões pré-estabelecidos.
Começámos, então, um grande trabalho de adaptação do livro, que era muito difícil por ser um livro do Valter Hugo Mãe – tão conectado com as palavras e a poesia dele. Acho que o nosso processo de adaptação foi pegar em toda a essência do livro, tudo aquilo que sentimos enquanto líamos e transformar em silêncios, em imagens, símbolos, metáforas. Ao mesmo tempo, foi importante cercarmo-nos de equipas de fotografia, arte, guarda-roupa e caracterização que pudessem criar esse universo de realismo mágico, esta experiência cinematográfica do não-lugar e do não-tempo e com esses atores maravilhosos que conseguimos para o filme trabalhar esses silêncios e olhares.
Gostei muito desta ideia de expandir conceitos. Que a família é um sentimento, uma rede de afetos, muito mais do que só a família de sangue. Falar de paternidade de um lugar que não é de imposição, mas de afeto, cuidado e aprendizagem. Falar também sobre masculinidade, de criar uma referência de masculino… Que é um masculino de escuta, que trabalha na empatia, que não está na violência e numa guerra de poder.
Mesmo que o filme fale sobre preconceito, machismo, capacitismo e homofobia, é uma experiência cinematográfica muito diferente do que fazemos na cinematografia brasileira, porque o espectador termina “O Filho de Mil Homens” com muita esperança na humanidade. Foi o que nos motivou a fazer o filme e tivemos a sorte de o Rodrigo Santoro ter lido o guião e ter aceitado participar nesta jornada connosco.
Como foi a abordagem do Rodrigo Santoro a esta personagem tão profunda, que diz tanto sem palavras? Identificou-se com o livro e com a personagem que interpretou? Como foi a primeira aproximação?
Rodrigo Santoro © Netflix  
Rodrigo Santoro: A primeira aproximação foi por via do Daniel. Já tínhamos trabalhado juntos uma vez de forma muito rápida e ele procurou-me para falar do guião. Não conhecia o livro e, depois de ler o guião, fiquei absolutamente tomado de uma série de emoções e de questões. Na verdade, foi imediato, não tive dúvidas de que era algo que queria fazer. A minha dúvida nunca foi se devia fazer. A minha dúvida era como fazer.
Disse ao Daniel: “(O livro) é lindo, mas eu não tenho a menor ideia de como posso fazer do Crisóstomo uma pessoa de carne e osso”. No livro é muito poético, mas como é que o levamos para o ecrã? É sempre muito desafiador fazer uma adaptação e acho que esta personagem foi uma das mais desafiadoras. É uma personagem que habita um lugar muito específico, que vive num ritmo e tempo diferentes, que é muito conectado com o seu coração, com a natureza e que é desconectado com os códigos sociais – com os vícios que temos na sociedade.
É uma personagem de uma pureza muito grande, que ao mesmo tempo não pode ficar tonto na passagem para o ecrã. Ele tem de ter força. Por isso, tivemos de trabalhar com ingenuidade, sabedoria e força. Trabalhar com o silêncio. Foi uma personagem que exigiu muito, mas que me deu muitos presentes que vou carregar para o resto da minha vida.
Falaram com o Valter Hugo Mãe a propósito desta adaptação? O autor deu algum tipo de benção ao projecto?
DR: Ele deu a melhor benção que poderia ter dado. Quando conheci e falei com o Valter Hugo Mãe pela primeira vez não havia sequer guião e ele disse-me: “Já fiz o que tinha de fazer. Escrevi o livro, agora façam o filme. Não quero ler o guião, porque não sei fazer cinema e se tentar ajudar talvez atrapalhe”.
Ele deu-nos muita confiança. Disse-nos que tudo o que tinha para dizer sobre a história e todas as respostas de que precisávamos estavam no livro, para fazermos o que acharmos que era melhor nesta adaptação. E foi muito lindo porque, quando ele viu o filme pela primeira vez ele não sabia nada, simplesmente sentou-se e assistiu ao filme. Chorou do princípio ao fim do filme. Ficou muito, muito emocionado e feliz, porque viu o livro e as personagens dele reconstruídas, repaginadas, transmutadas para um outro meio. 
Ele mesmo elogiou o facto de nos termos descolado das palavras dele e apostado nos silêncios, onde o espectador não consegue ver o filme com o telemóvel na mão. É um filme quase interactivo, porque o espectador tem de participar e interpretar esses silêncios e olhares.
O Rodrigo Santoro é um ator excecional, mas acho que ele nesse filme se entregou para uma jornada do desconhecido. Ele acabou de dizer que não sabia se conseguiria interpretar esta personagem. Mas disse-lhe que também não tinha a certeza se iria conseguir fazer este filme, mas que íamos descobrir juntos. O Rodrigo acabou por chegar a um ponto em que o olhar do Crisóstomo é curativo. Ele não cura só as personagens – cura o espectador e convida-o a participar nessa jornada, de olhar para dentro de si, de se entender e de se ver dentro desse mundo em que vivemos.
É uma experiência muito diferente do que a que costumamos ter e é maravilhosa.
Rodrigo Santoro e Daniel Rezende © Netflix  
RS: Nos temas que são abordados, o filme fala também sobre adoção. Uma coisa que percebi ao interpretar o Crisóstomo foi que ele também propõe uma adoção emocional. Uma adoção do outro, do mundo, de si mesmo… Ele tem um olhar muito afetuoso, muito delicado e acolhedor. De quem olha querendo ver, de quem ouve para ouvir a sério. Algo muito simples, mas muito raro nos dias de hoje.
Nesse sentido, acho que “O Filho de Mil Homens” é extremamente atual. Não só convido os espectadores, como sugiro que vejam este filme pela obra maravilhosa do Valter Hugo Mãe.
O próprio Valter Hugo Mãe disse-me que veio ver o filme com medo de não gostar. Ele tinha muito medo porque, imagina, ele criou toda a história. Mas disse-me que ficou muito emocionado e aliviado. Ele até arriscou dizer – como piada, tenho a certeza – que o Daniel fez um filme melhor do que o livro dele.
Relativamente a adaptações de livros portugueses, temos agora “O Filho de Mil Homens” de Valter Hugo Mãe e, no passado, tivemos também o “Homem Duplicado” e “O Ensaio Sobre a Cegueira”, ambos baseados em livros da autoria de José Saramago. Há uma coisa que estas adaptações têm em comum e é que não são produções portuguesas. Enquanto profissionais do cinema brasileiro, acham que Portugal está a passar ao lado deste tipo de projetos e devia apostar nestas adaptações?
RS: Deveria, mas acho que essa é uma questão da política e do audiovisual português e que deviam procurar, no mínimo, as coproduções. Acho que essa é uma questão muito importante. Estive em Portugal recentemente, tenho vários amigos portugueses e, inclusive, adoro Portugal. Tenho vontade de trabalhar em Portugal.
Acho que isto tem que ver com políticas públicas. Porque para se fazer um filme é toda uma engenharia e é preciso que essas políticas sejam trabalhadas para que Portugal possa participar.
Elenco e realizador de “O Filho de Mil Homens” © Netflix  
DR: Também acho que sim, que deveria. Mas acho que “O Filho de Mil Homens” alarga o conceito de família para dizer que somos todos irmãos, até porque o filme não se passa nem em Portugal, nem no Brasil – passa-se em qualquer lugar.
Acho que somos tão irmãos, principalmente na língua, que acho que estas coisas não deveriam ser de livros brasileiros terem de ser feitos no Brasil ou livros portugueses em Portugal.
Não vou dizer nada em específico, mas vou dizer aqui que já estou a conversar com outro autor português para adaptar um próximo livro. Acho que estas coisas deviam somar e não competir. Acho que cada país tem de lutar pelo seu cinema, mas no cinema da língua portuguesa, temos de pensar que somos mais fortes juntos.

Conversámos com Augusto Fraga, criador da série ‘Rabo de Peixe’, e com José Condessa, ator que interpreta o protagonista Eduardo, sobre a segunda temporada que estreia esta sexta-feira na Netflix.
Miguel Patinha Dias | 12:15 – 15/10/2025

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