
“África é o continente do futuro e neste momento de reorganização geoestratégica mundial a Europa tem de redirecionar a sua atenção para África e repensar as suas prioridades”, defende Gonçalo Moura Martins no 43.º episódio do podcast Partida de Xadrez, que vai para o ar esta terça-feira no site do Negócios e nas principais plataformas. Em seu entender, o continente europeu tem de tentar “recuperar a atenção que há muito a China, a Índia, a Turquia, o Qatar e a Rússia, por exemplo, já dedicam a África”.
No rescaldo da reunião do G20 na África do Sul e da cimeira União Europeia-União Africana em Luanda, também António Ramalho considera que “a Europa, se quer fazer jus à sua vocação multipolar, tem em África a sua natural complementaridade, mas curiosamente também tem em África neste momento a sua melhor oportunidade”.
“África tem duas dimensões pelas quais é incontornável para a Europa e para o mundo: os recursos naturais e a demografia”, afirma Gonçalo Moura Martins. Nos primeiros, explica, porque é um continente “com um espaço brutal para agricultura”, é rico em minerais como “cobre, urânio ou ouro, tudo o que é necessário para as economias modernas”, assim como em recursos naturais como petróleo e gás.
Já relativamente à demografia, o gestor salienta que só o crescimento de 2% da população ativa permite um crescimento do PIB superior a 6%, para frisar que em termos mundiais “uma em cada três pessoas que até ao final desta década estará apta para entrar na vida ativa é africana”.
Por estes fatores, António Ramalho considera que “esta talvez seja a janela de oportunidade para a relação União Europeia-África, que se calhar não volta a repetir-se, quer do lado africano quer europeu”. É que, explica, “do lado europeu, o multilateralismo implica encontrar mercados diversificados no seu relacionamento externo”. Mas este é talvez “o primeiro momento que é também muito positivo para África”, desde logo pela demografia, mas também porque “se abriu a porta, pela primeira vez com o acordo com o Mercosul, a reconhecer que a Europa tem que se abrir ao mercado agrícola internacional e essa porta aberta é para o mercado natural africano”.
“Estão criadas as condições para definitivamente termos uma relação euro-africana mais natural, mais regular e de muito maior ‘trading’”, frisa.
Os dois gestores apontam ainda os desafios que enfrentam alguns países africanos, desde as suas estruturas governativas e democráticas, a volatilidade da moeda e o peso da dívida. Gonçalo Moura Martins salienta que o financiamento é “um problema que faz atrasar a construção de infraestruturas, sem as quais os países não se desenvolvem”. Já António Ramalho considera que “o foco exclusivo no investimento esconde uma debilidade clara no comércio de bens africanos”.

