
Os ataques cibernéticos de grande porte, numa lógica de ameaça híbrida, a crise financeira e a ruptura das cadeias de abastecimento – que sobe para o terceiro lugar –, são os riscos geopolíticos que mais preocupam as empresas portuguesas, enquanto os conflitos comerciais entre Estados Unidos, China e União Europeia caem para o quinto posto. Essas são as principais conclusões da 2ª edição Barômetro de Risco Geopolítico para Empresas, do Observatório de Risco Geopolítico para Empresas da Porto Business School (PBS), que entre 8 e 20 de dezembro entrevistou 340 executivos de empresas baseadas em Portugal, e com operação nacional e internacional, abrangendo uma análise setorial que inclui indústria de transformação, exportadoras e importadoras. Como há um ano, colocaram na liderança da lista de preocupações, avaliada como alto risco por quase dois terços (63%) dos entrevistados, grandes ataques cibernéticos a infraestruturas críticas ou empresas, em um contexto de guerra híbrida com patrocínio estatal. Nesse ponto, o estudo indica a possibilidade de cruzamento de riscos “ciber” (criminais e estritamente geopolíticos) para justificar o primeiro lugar (em um e três anos). Também apontado como de risco elevado por 58% dos que responderam mantém-se a apreensão de que as consequências da crescente corrida geopolítica possam, através de instabilidade e eventual disrupção, conduzir a uma nova crise financeira, à semelhança da verificada em 2007, referência negativa marcante e ainda muito presente no imaginário econômico das empresas. Para Jorge Rodrigues, cocoordenador do Observatório de Risco Geopolítico para Empresas, essa percepção entra “num ‘terreno familiar’ de um risco cíclico, agravado pela identificação de que o risco geopolítico pode ainda desencadear ou agravar uma crise financeira ao gerar instabilidade, perda de confiança nos mercados e choques econômicos que afetam investimentos, crédito e crescimento”, afirma, em comunicado da PBS. Eventual ruptura das cadeias de suprimentos sobe cinco posições Também o temor ligado aos conflitos intraeuropeus assume particular relevância nesta edição do barômetro. “Seja em sua forma cinética ou no contexto de ameaças híbridas – altamente relacionadas aos ataques no centro e leste da Europa –, esse risco reforça a principal preocupação das organizações, tanto no curto prazo (63%) quanto no médio e longo prazo (53%)”, destaca. Nessa sequência, e em estreita ligação com a atuação da nova administração norte-americana, a eventual ruptura das cadeias de suprimentos sobe cinco posições e entra no top 3 das maiores inquietações das empresas, sendo identificada como um risco elevado por 55% dos entrevistados. “A adaptação das empresas ao ‘efeito Trump’ e ideia de que ‘Trump Always Chickens Out’ (TACO) (acobarda-se sempre, em tradução livre), o que nem sempre acontece, parecem explicar a colocação do risco dos conflitos comerciais apenas no quinto lugar – tanto a curto como a médio e longo prazo –, a par da mitigação do risco feita pelas negociações e estratégia da própria União Europeia”, observa Jorge Rodrigues. “Resta saber se será assim mesmo no futuro, especialmente no caso de riscos geopolíticos mais complexos, como, por exemplo, o programa nuclear do Irã ou a crise de Taiwan”, conclui. De forma um tanto surpreendente, a negação do acesso à tecnologia pode ser um risco subavaliado ao surgir apenas nos oitavo e sexto lugares (um e três anos), “já que, no atual contexto de forte competição geoeconômica, sobretudo sino-americana, mas com reflexos globais, é um risco sério – embora o grau de impacto dependa dos setores de atividade”, enquanto a desinformação da inteligência artificial aparece somente na nona posição (um e três anos). Entre as demais preocupações do empresariado nacional estão as explosões nucleares ou biológicas e químicas, a radicalização e as migrações. Exportadoras e importadoras mais expostas à disrupção logística O barômetro demonstra, também, um agravamento da percepção de risco entre empresas importadoras e exportadoras relativamente à disrupção das cadeias de abastecimento, tendo esta sido identificada como risco elevado por 72% dos inquiridos, com o pódio a ficar completo com os ciberataques e a crise financeira, deixando desta vez de fora do top 3 os conflitos comerciais EUA/China/UE. “Contrariamente ao panorama geral das empresas, nas organizações com investimento direto no exterior, o fator de ruptura das cadeias de suprimentos não integra os três principais riscos de gestão identificados em três anos”, nota no mesmo comunicado enviado às redações. “A instabilidade geopolítica se traduz em alta incerteza no comércio internacional, sendo naturalmente sentida com maior intensidade pelas organizações com maior exposição aos mercados externos”, ressalta Jorge Rodrigues. Por outro lado, as empresas da indústria de transformação identificam a ruptura das cadeias de suprimentos como a principal preocupação, seguida por ataques cibernéticos e conflitos na Europa. Em comparação com o ano passado, saem do pódio os riscos ligados à crise financeira e os conflitos comerciais EUA/China/UE. No caso das empresas financeiras e de seguros, há uma alta percepção de risco em relação às questões energéticas. Parcerias estratégicas são a principal ferramenta de mitigação de risco O barômetro da PBS também questionou os gestores sobre quais são as principais estratégias para lidar com esses riscos geopolíticos, e recebeu a indicação de que as empresas continuam privilegiando soluções baseadas em parcerias estratégicas (44%), tratados multilaterais (42%), capacidade interna (P&D) (40%) e melhoria da preparação geopolítica (37%). Além disso, “o reforço do conhecimento geopolítico como estratégias de mitigação, por meio de pesquisa e desenvolvimento, revelam que o setor empresarial pretende aumentar suas habilidades e meios endógenos e não ficar apenas esperando o Estado para mitigar riscos geopolíticos”, considera o cocoordenador do Observatório de Risco Geopolítico para Empresas da PBS. Segundo Jorge Rodrigues, “apoio estatal não é prioridade, embora se acredite, talvez um pouco em contraciclo diante do afastamento da multilateralidade no plano global, na necessidade de implementação de tratados internacionais estabilizadores”. Enquanto isso, a PBS prepara a 8ª edição do “open executive program” chamado “Risco Geopolítico e Estratégia para Executivos”, desenvolvido com o Instituto da Defesa Nacional, que enquadra a geopolítica como fator estratégico com impacto direto na sustentabilidade, resiliência e competitividade. A capacitação começa no dia 5 de março, com inscrições abertas até o dia 2.
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