advertisemen tA retirada formal do financiamento britânico ao megaprojecto de Gás Natural Liquefeito (GNL) liderado pela TotalEnergies em Cabo Delgado está a ser vista por economistas como um forte sinal de alerta para os investidores internacionais e um potencial entrave à recuperação económica da região norte do País. O financiamento, no valor de 73,5 mil milhões de meticais (1,1 mil milhões de dólares), foi concedido em 2020 através do Fundo de Financiamento de Exportações do Reino Unido (UKEF). Esta segunda-feira (1), o secretário de Estado britânico para os Negócios, Comércio e Trabalho, Peter Kyle, comunicou ao Parlamento que a decisão foi motivada por uma reavaliação dos riscos associados ao projecto, que considerou já não alinhados com os interesses dos contribuintes britânicos. Salvado Raisse, economista e investigador do Centro para Democracia e Desenvolvimento (CDD), classificou a medida como uma “sinalização negativa”, sobretudo num momento em que o Governo procura criar condições para a retoma efectiva das operações no terreno. “Esta retirada pode, em algum momento, denotar que não há condições para o relançamento do projecto, sobretudo tendo em conta que estamos a falar de países com peso na geopolítica global, como o Reino Unido e os Países Baixos”, afirmou.advertisement Raisse sublinhou ainda que a saída destes parceiros surge na sequência de exigências específicas, nomeadamente a apresentação de relatórios sobre direitos humanos nas zonas afectadas. “Pode muito bem significar que as condições, principalmente no que respeita aos direitos humanos, não tenham sido devidamente acauteladas para o início do projecto”, acrescentou o analista. Contudo, reconhece que, do ponto de vista estritamente económico, a retirada representa apenas cerca de 5% do valor total do projecto. “Estamos a falar de um projecto de cerca de 20 mil milhões de dólares, e esta retirada corresponde a um valor pequeno, maioritariamente referente a garantias de seguro. O valor do financiamento directo, propriamente dito, é de apenas 300 milhões de dólares”, explicou. Estas declarações foram recolhidas na sequência do anúncio formal feito por Londres, e de um comunicado emitido pela TotalEnergies a partir de Paris no dia 2 de Dezembro, em que a multinacional esclarece que o consórcio decidiu avançar com capital próprio adicional, substituindo as garantias de financiamento anteriormente atribuídas pela UKEF e pela Atradius (Agência de Crédito à Exportação dos Países Baixos). Estas duas agências representavam, em conjunto, cerca de 10% do financiamento externo do projecto, avaliado em 983 mil milhões de meticais (15,4 mil milhões de dólares). A decisão do Reino Unido de abandonar o apoio ao megaprojecto Mozambique LNG levanta preocupações entre analistas moçambicanos, que antecipam efeitos negativos sobre o ambiente de investimento e a retoma económica em Cabo Delgado No mesmo comunicado, a TotalEnergies lamenta que os relatórios encomendados pelos Países Baixos sobre a situação dos direitos humanos em Cabo Delgado tenham sido produzidos sem investigação directa no terreno. A empresa reafirma o seu compromisso com o desenvolvimento de Moçambique e garante que cerca de 90% dos parceiros financeiros reconfirmaram o seu apoio à retoma do projecto. Ainda assim, Moisés Nhanombe, economista e antigo investigador da Universidade Católica de Moçambique, considera que o impacto mais imediato se fará sentir no sector empresarial nacional. “O sector privado moçambicano já antecipava uma aceleração dos investimentos. Esta decisão pode, inevitavelmente, vir a fazer aumentar a incerteza quanto à continuidade e ritmo da retoma do projecto”, disse. Nhanombe nota que, apesar da substituição do financiamento por capital próprio, a falta de garantias soberanas pode elevar o risco do País e dificultar a entrada de novos investidores. “Isso pode encarecer o acesso ao capital, travar decisões de investimento e colocar em causa contratos que já estavam a ser preparados por empresas moçambicanas para prestação de serviços ao projecto”, sublinhou. Para o analista, está em causa não apenas a continuidade de contratos, mas a própria sustentabilidade da cadeia de valor local. “Estamos a falar de pequenas e médias empresas que contam, de forma decisiva, com este projecto como catalisador do seu crescimento. Um possível novo adiamento ou revisão dos timings da retoma podem gerar perda de postos de trabalho, nas receitas e até cancelamento de algumas actividades”, advertiu. Nhanombe foi mais longe, sugerindo que esta decisão pode comprometer a imagem de Moçambique como destino confiável para megaprojectos. “Ainda que se diga que as condições de segurança melhoraram, subsistem riscos reputacionais, políticos e de governança, o que afecta a confiança dos investidores externos e internos”, afirmou, sublinhando que a percepção de vulnerabilidade pode alastrar-se a outros sectores estratégicos, como infra-estruturas, mineração e energia. A seu ver, o impacto macroeconómico também não será negligenciável. “O atraso na retoma pode reduzir as exportações de gás e, com isso, afectar as receitas em divisas, essenciais para a balança de pagamentos, para a taxa de câmbio e para o próprio equilíbrio fiscal do Estado”, afirmou. Texto: Felisberto Rucoa dvertisement

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