No segundo dia da 3.ª Conferência da Biodiversidade Marinha, um debate colocou em evidência um dos dilemas centrais do desenvolvimento moderno no País no ramo da conservação: como harmonizar a sabedoria ancestral das comunidades com as exigências e inovações técnicas do século actual? O painel dedicado à “Valorização do conhecimento local e práticas tradicionais” revelou que a resposta não está na escolha de um caminho em detrimento do outro, mas sim na sua fusão.

Planeamento urbano com as comunidades

Getúlio Manhique, vereador do município da Beira, trouxe para a mesa a experiência concreta da autarquia beirense. “O saber tradicional e o científico são duas componentes que não podem ser excluídas ou desassociadas. A filosofia está a ser operacionalizada através de uma abordagem invulgar ao planeamento urbano. O Plano de Estrutura da cidade, assim como os planos para bairros em expansão, de mobilidade, água, saneamento e drenagem, são todos elaborados através de “workshops de sonho”, processos participativos desenhados para capturar o conhecimento prático dos residentes.”

O responsável deu o exemplo de certos projectos em curso em zonas de expansão. “Conseguimos atingir a capacidade de engajar a população para que a mesma apresente a situação da sua comunidade, e não esperar só pelos técnicos do município”, explicou, destacando outra iniciativa notável – “revitalização de um hábito tradicional de limpeza de quintais e valas de drenagem.”

Turismo sustentável: um balanço entre beleza e benefício

Arsília Anastácio Maiela, investigadora da UnISCED (primeira universidade aberta do País que oferece ensino online), elevou o debate para o potencial económico da biodiversidade. Focou-se no turismo sustentável como um íman que atrai milhões de pessoas para apreciar “a beleza de golfinhos, tartarugas e paisagens costeiras.”

No entanto, a sua mensagem central foi de cautela e equidade. “Temos de ter em conta como usar o meio ambiente sem criar degradação”, alertou, sublinhando a necessidade premente de garantir que as comunidades locais, que são as guardiãs destes ecossistemas, sintam os benefícios económicos dessa actividade através de emprego e rentabilidade.

O saber tradicional e o científico são duas componentes que não podem ser excluídas ou desassociadas

“Elas também têm de sair a ganhar”, defendeu, argumentando que a valorização cultural e o benefício comunitário são os alicerces sem os quais o turismo não pode ser verdadeiramente sustentável.

A arquitectura bioclimática: tradição com roupagem moderna

Por sua vez, Alberto Jala Bindo, fundador e director-geral da ARCHBOX, empresa ligada ao serviço de arquitectura e serviços técnicos de urbanismo, apresentou exemplos de como incorporar técnicas tradicionais em projectos modernos.

O também arquitecto sugeriu o uso de estacas de eucalipto e pinho em vez de materiais menos resistentes, e a utilização de blocos de solocimento prensado, referindo que o desenho das habitações deve adaptar-se ao clima tropical da Beira, privilegiando a circulação de ar. Alberto Jala Bindo admitiu que o principal desafio é a relutância da população em confiar em métodos tradicionais, e defendeu a criação de guiões técnicos para validar estas soluções.

A sua abordagem vai além dos materiais e entra no domínio do design inteligente. Perante o clima tropical húmido da Beira, sugeriu que as habitações modernas adoptem uma forma mais rectangular e alongada, tal como as construções tradicionais, para favorecer a circulação do vento. “Pensar na orientação das casas, pensar na disposição solar” são, para si, princípios bioclimáticos essenciais.

O maior obstáculo, confessou o arquitecto, não é técnico, mas sim cultural: “A população, às vezes, não tende a aceitar conhecimentos que são tradicionais, desconfiando da sua robustez. A solução está na validação científica e na criação de guiões técnicos que credibilizem estas soluções híbridas.”

Já Raimundo Alberto Mulhaisse, professor e investigador, falou sobre saberes tradicionais na pesca artesanal, explicando que as comunidades costeiras usam o calendário lunar para prever marés e períodos de abundância de espécies.

O investigador referiu ainda que “tabus e rituais religiosos” que restringem a pesca em certas áreas ou épocas têm um efeito indirecto na conservação, ao limitarem o esforço de pesca.

Texto: Nário Sixpene

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