O segundo dia da 3.ª Conferência sobre Biodiversidade Marinha, que decorre esta quinta-feira, 4 de Setembro, na cidade da Beira, trouxe ao debate científico e político propostas concretas para responder à degradação dos ecossistemas costeiros e marinhos no País. Investigadores denunciaram a fraca fiscalização das políticas ambientais e defenderam novos modelos de co-gestão com as comunidades, alternativas de aquacultura sustentável e o aproveitamento inovador de resíduos plásticos marinhos como matérias-primas industriais. Romaita Samuel Gujamo apresentou um estudo sobre a “co-participação entre sector privado e comunidades locais na conservação marinha”. A investigadora sublinhou que, apesar de avanços desde a integração dos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) em 2010, as políticas nacionais enfrentam “sérios obstáculos” de implementação no terreno. A ausência de fiscalização eficaz tem comprometido projectos de conservação e alimentado conflitos entre interesses ambientais e económicos. “É necessário adoptar uma abordagem multi-actor e multi-escalar, onde empresas, comunidades e Governo partilhem responsabilidades, com compromissos claros e fiscalização real”, defendeu. O estudo analisou casos concretos na Reserva Marinha Parcial da Ponta do Ouro e em projectos apoiados pelo Biofund, apontando evidências de que a co-gestão participativa melhora resultados ambientais e aumenta o envolvimento comunitário. Na vertente da aquacultura, Yathima Oraibo Abdul, bióloga e activista ambiental, apresentou resultados de um projecto-piloto de “cultivo de caranguejo do mangal (Scylla serrata) em gaiolas de bambu”, no distrito de Metuge, Cabo Delgado. A investigação mostrou que os caranguejos podem atingir quase um quilo em menos de três meses, com uma taxa de sobrevivência de 95%, quando alimentados com rações artesanais produzidas localmente a partir de folhas de moringa, farinha de peixe e milho. A investigadora alertou para a captura indiscriminada de caranguejos juvenis, que ameaça a continuidade da espécie nos mangais, e defendeu o cultivo controlado como alternativa para reduzir a pressão sobre os ecossistemas, gerar rendimentos e reforçar a segurança alimentar das comunidades costeiras. “Trata-se de uma solução sustentável que alia conhecimento científico e saber local, respondendo à escassez de recursos e ao desafio da conservação”, afirmou. No campo da inovação tecnológica, Scheila Condelaque, do FabLab Mozambique, apresentou um projecto pioneiro que converte “resíduos plásticos marinhos em filamentos para impressão 3D”. A iniciativa resulta da necessidade de reduzir custos de importação de matéria-prima e da crescente urgência em dar resposta ao problema do lixo plástico que polui as praias nacionais. Apesar de avanços desde a integração dos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) em 2010, as políticas nacionais enfrentam “sérios obstáculos” de implementação no terreno Redes de pesca abandonadas, tampas e garrafas PET foram recolhidas por associações comunitárias, trituradas, tratadas e transformadas em filamento com diâmetro de 1,75 milímetros. O material já está a ser utilizado em escolas e universidades para prototipagem rápida e ensino laboratorial. Apesar de ainda não possuir resistência para peças estruturais, mostrou-se eficaz em protótipos educativos e objectos decorativos. “O lixo marinho pode e deve ser transformado em matéria-prima. É um apelo à responsabilidade colectiva: cada garrafa desperdiçada é uma oportunidade de inovação perdida”, sublinhou a investigadora, apelando a mais investimento em investigação para escalar a produção e consolidar Moçambique como fornecedor local de filamentos reciclados. Os investigadores foram unânimes em afirmar que Moçambique só conseguirá preservar os seus ecossistemas costeiros se apostar em soluções que combinem ciência, economia e sustentabilidade social. Texto: Nário Sixpene
Painel