A cidade da Beira acolhe, desde a manhã desta quarta-feira, 3 de Setembro, a 3.ª Conferência da Biodiversidade Marinha (CBM), destacado como o principal fórum nacional para a discussão da conservação dos ecossistemas marinhos. O evento, que reúne entidades governamentais, eminentes figuras da comunidade científica, sociedade civil, sector privado e parceiros de cooperação, serviu de palco para a apresentação de investigações pioneiras que lançam nova luz sobre os desafios e a riqueza biológica das águas nacionais. Entre os estudos apresentados, destacaram-se quatro que abordaram, com profundidade, questões prementes que vão desde a ameaça de espécies invasoras e doenças virais até à descoberta de nova fauna parasitária. Espécie invasora de camarão altera equilíbrio nas pescarias O investigador Kelvin Elísio Samucidine apresentou um estudo sobre o impacto ecológico e económico do camarão ‘Metapenaeus Dobsoni’, uma espécie classificada como invasora na baía de Maputo. A investigação, baseada na análise de dados de desembarques da pesca artesanal e industrial entre 2007 e 2013, revelou que esta espécie, cuja ocorrência foi registada pela primeira vez por volta de 2007, se estabeleceu com sucesso no novo habitat, demonstrando uma elevada capacidade de reprodução e competição. Os resultados gráficos apresentados mostraram uma evolução temporal das capturas, onde se observa uma tendência decrescente acentuada nas capturas das espécies nativas, em favor da espécie invasora. Esta chegou a representar, em certos períodos, até 90% do total de camarão capturado, indicando uma substituição progressiva da fauna autóctone. O estudo avança ainda com uma análise da taxa de exploração, concluindo que a pressão pesqueira é mais intensa e acima da capacidade máxima sustentável para as espécies nativas, enquanto a exploração sobre a espécie invasora se tem mantido em níveis mais conservacionistas. Os resultados sugerem que a gestão das pescarias precisa de ser reavaliada urgentemente para garantir a sustentabilidade dos mananciais a longo prazo. Vírus da mancha branca detectado com prevalência “alarmante” em camarão selvagem A temática da sanidade aquática foi abordada com preocupação por Célio Machaieie, cujo estudo se focou na ocorrência do vírus da Síndrome da Mancha Branca (WSSV) em camarões selvagens ao longo de centenas de quilómetros da costa nacional. O vírus, “altamente contagioso e letal” para crustáceos, causou prejuízos económicos na aquacultura nacional após o primeiro surto em 2011, obrigando ao encerramento de empresas e à perda de centenas de empregos. Os resultados gráficos apresentados mostraram uma evolução temporal das capturas, onde se observa uma tendência decrescente acentuada nas capturas das espécies nativas, em favor da espécie invasora O trabalho do investigador visou actualizar os dados existentes sobre a propagação do vírus em ambientes naturais, utilizando métodos moleculares de detecção (PCR). Os resultados confirmaram a presença activa do vírus em todas as três áreas amostradas, com uma prevalência alarmante de 95% na região de Xai-Xai, província de Gaza. Uma outra área registou uma ocorrência baixa, de 30%, mas a descoberta do vírus em populações selvagens indica uma contaminação ambiental significativa e um reservatório natural do patogénio, o que complica as medidas de controlo e erradicação. Investigador desenvolve método para detecção rápida de vírus Na linha da inovação tecnológica para combater ameaças sanitárias, o mestrando Ervínio da Ana Eusébio Litsuri, da Escola de Ciências Marinhas, apresentou o desenvolvimento de um novo método de diagnóstico para o vírus da mancha branca. Denominado de “ensaio de amplificação isotérmica mediada por loop” (LAMP), esta técnica revolucionária permite detectar o material genético do vírus em apenas 30 a 60 minutos, mantendo a amostra a uma temperatura fixa e constante de 61 graus celsius, dispensando os equipamentos complexos e caros do PCR tradicional. O orador detalhou que, após testar sete conjuntos de “primers” (iniciadores), o quinto conjunto foi seleccionado por apresentar a melhor eficiência. Os testes de sensibilidade realizados demonstraram que o método LAMP é mais sensível do que o PCR convencional, sendo capaz de detectar quantidades ínfimas do vírus, quase ao nível de uma única partícula viral. Os resultados sugerem que a gestão das pescarias precisa de ser reavaliada urgentemente para garantir a sustentabilidade dos mananciais a longo prazo A aplicação do método em amostras de campo da província da Zambézia confirmou a sua eficácia, detectando positivos em 45% das amostras perto de uma unidade de aquacultura, provando a contaminação do ambiente natural. “A acessibilidade e portabilidade do método abrem a possibilidade de testes ‘in loco’ (presenciais), permitindo uma vigilância sanitária rápida e eficaz directamente nas comunidades piscatórias e unidades de produção”, disse. Investigadora descobre e caracteriza nova espécie de parasita em Maputo Para finalizar a sessão de apresentações, Agnes Alice Álvaro Costa, investigadora no Departamento de Ciências Biológicas da Universidade Eduardo Mondlane, cativou a audiência com a descrição de uma nova espécie de parasita. O seu trabalho focou-se na caracterização morfológica e molecular de um trematódeo do género ‘Trilobovarium’, descoberto no intestino do peixe ‘Sillago sihama’ (popularmente conhecido como Pescadinha), nos mangais da Ilha da Inhaca, em Maputo. Agnes Costa explicou que o género ‘Trilobovarium’ é pouco conhecido a nível global, com apenas nove espécies descritas, das quais apenas duas ocorrem em águas africanas. A descoberta desta nova espécie em Moçambique foi possível através de uma combinação de técnicas: uma detalhada descrição morfométrica (com medições precisas das estruturas anatómicas), observação morfológica sob luz óptica e, crucialmente, a análise de sequências de ADN que permitiram comparar geneticamente o novo parasita com os seus congéneres conhecidos. O trabalho não apenas enriquece o inventário da biodiversidade parasitária do País, como também fornece dados para estudos futuros sobre a ecologia, distribuição e evolução destes organismos nos ecossistemas costeiros do Índico Sul. Texto: Nário Sixpene

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