A China anunciou o desenvolvimento de um “Sol Artificial” capaz de operar acima do limite de densidade considerado seguro há mais de quatro décadas, um avanço que redefine as regras da fusão nuclear e aproxima a tecnologia da produção comercial de energia.
Durante décadas, o chamado limite de Greenwald funcionou como um tecto técnico paraúm. Definido em 1989, o parâmetro estabelece a densidade máxima que o plasma pode atingir no interior de um reactor do tipo tokamak sem provocar instabilidade ou disrupções capazes de danificar a estrutura do equipamento.
Para compreender este feito, é preciso primeiro entender o problema. Num reactor de fusão, a potência gerada depende do quadrado da densidade. Desta forma, quanto maior for a densidade no interior do reactor, muito mais energia será produzida. a d v e r t i s e m e n t
No entanto, em 1989, Em 1989, Martin Greenwald demonstrou que existe um limite superior para a densidade do plasma; quando esse valor é excedido, o plasma perde estabilidade e o reactor entra em disrupção. Na prática, ultrapassar esse limite provoca o arrefecimento da periferia do plasma, a contracção da corrente e, consequentemente, a disrupção do reactor, com potencial para causar danos estruturais.
De acordo com dados divulgados por investigadores chineses num artigo publicado na Science Advances, o reactor conseguiu manter um plasma estável a níveis de densidade até 165% superiores ao limite teórico, sem registo de disrupções ou danos estruturais. A título de exemplo, é como se tivesse descoberto que um motor concebido para circular a 200 quilómetros por hora consegue andar a 330 quilómetros por hora de forma constante e sem sobreaquecer.
O avanço resultou de uma abordagem mais inteligente: uso de paredes de tungsténio — um metal que resiste melhor ao calor e contamina menos o plasma, e da utilização de microondas de alta potência para aquecer e “limpar” o plasma imediatamente antes da ignição. A isto junta-se a validação de que o plasma “organiza-se a si próprio” para afastar-se das paredes e manter-se estável, mesmo com densidades extremas.
O Sol Artificial da China comprovou que o regime “livre de densidade” funciona, alterando profundamente o rumo dos grandes projectos de fusão nuclear actuais e futuros.
Segundo o portal Sapo, com este advento, deixarão de fazer sentido reactores gigantes, já que, com esta inovação, não são necessárias máquinas gigantescas para obter a mesma energia. Além disso, ao operar neste novo regime, o risco de o plasma danificar o reactor reduz-se drasticamente, pois já não se estará a “brincar” com o limite.
Especialistas consideram que quanto mais denso for o plasma, mais perto estamos da “ignição”, o ponto em que o Sol Artificial gera mais energia do que aquela que consome. Isto pode significar que estamos mais próximos da tão desejada energia infinita.
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