As cheias severas que atingem Moçambique nos últimos dias danificaram mais de cinco mil quilómetros de estradas em nove províncias do País, segundo informações divulgadas pelas Nações Unidas, agravando uma situação humanitária já marcada por mortes, deslocação de populações e fortes constrangimentos à circulação de pessoas e mercadorias. De acordo com a Segunda Comissão da Assembleia Geral das Nações Unidas (ECOFIN), entre as infra-estruturas afectadas encontra-se a Estrada Nacional Número 1 (N1), principal eixo rodoviário que liga a capital, Maputo, ao resto do País, actualmente intransitável em vários troços, comprometendo o abastecimento de bens essenciais e o funcionamento das cadeias logísticas. Em várias zonas urbanas e periurbanas, os meios de comunicação social locais relatam que canoas de pesca estão a ser utilizadas como principal meio de transporte para aceder a bairros totalmente submersos, numa imagem que ilustra a dimensão do impacto das inundações. Para além da emergência imediata, as cheias voltam a evidenciar a elevada vulnerabilidade da rede rodoviária moçambicana aos choques climáticos recorrentes. O Governo é frequentemente forçado a reconstruir estradas destruídas pelas intempéries, em detrimento da expansão da malha rodoviária, o que abranda os esforços de integração económica e territorial. De acordo com um estudo do Banco Mundial publicado em 2023, citado pelo Banco Africano de Desenvolvimento no relatório “Riscos das alterações climáticas e estratégias de adaptação em Moçambique: o papel das infra-estruturas resilientes às alterações climáticas (Climate Change Risks and Coping Strategies in Mozambique: The Role of Climate-Resilient Infrastructure)”, cerca de 60% da rede rodoviária nacional está localizada em zonas propensas a inundações. Esta vulnerabilidade é agravada pela reduzida taxa de pavimentação, com uma parte significativa das estradas a permanecer sem revestimento. O custo médio anual dos eventos climáticos extremos sobre a rede rodoviária é estimado em cerca de 160 milhões de dólares, o equivalente a aproximadamente 1,1% do Produto Interno Bruto, enquanto as perdas associadas à interrupção do tráfego ascendem a 139 milhões de dólares por ano. A estes prejuízos económicos junta-se um elevado custo humano. As cheias em curso, que afectam igualmente a África do Sul, terão causado mais de 150 mortos nos dois países, segundo diversas fontes. Situado na costa sudeste de África, ao longo do oceano Índico, uma das regiões mais activas do mundo em termos de ciclones tropicais, Moçambique permanece altamente exposto a choques climáticos, reforçando a urgência de investimentos em infra-estruturas rodoviárias resilientes às alterações climáticas.advertisement
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