A 20.ª edição da Conferência Anual do Sector Privado (CASP) trouxe à discussão o papel estratégico do gás natural e o fortalecimento do conteúdo local na industrialização de Moçambique. Neste contexto, representantes de grandes empresas do sector energético e industrial defenderam, nesta quinta-feira, 13 de Novembro, a necessidade de transformar recursos naturais em crescimento económico sustentável.
Durante o evento, que decorre de 12 a 14 de Novembro em Maputo, o presidente da Associação Industrial de Moçambique (AIMO), Paulo Chibanga, afirmou que o País vive um momento histórico. “Temos de garantir que o nosso gás se torne um motor da industrialização nacional e não apenas uma fonte de receita governamental”, destacou, frisando a importância de uma estratégia de desenvolvimento baseada no conteúdo local.
Chibanga explicou que o País possui reservas significativas de gás natural e que a sua utilização inteligente pode gerar empregos, inovação e receitas, advertindo para o risco de Moçambique repetir erros de outras economias dependentes de matérias-primas, alertando que o foco deve ser a industrialização e não apenas a exportação.
No mesmo debate, a representante da italiana ENI, Marica Calabrese, destacou os resultados do projecto Coral Sul, considerado um marco histórico para o País: “Foram assinados contratos no valor de 800 milhões de dólares com empresas moçambicanas e a meta é atingir 3 mil milhões de dólares em contratos nacionais nos próximos anos”, afirmou, ressaltando acções para fortalecer pequenas e médias empresas locais.
Calabrese enfatizou estratégias como prazos de pagamento reduzidos, divisão de contratos em partes menores e flexibilização de exigências de certificação internacional, garantindo que empresas locais possam crescer e tornar-se competitivas.
“O objectivo prioritário das empresas moçambicanas é ser competitivas, para garantir contratos sustentáveis com qualquer operador”, acrescentou.
Já Ovídio Rodolfo, director-geral da Sasol, detalhou o Plano de Conteúdo Local da empresa, vigente desde 2019, argumentando: “Operamos há duas décadas em Moçambique e investimos continuamente em capacitação, integração de empresas locais e projectos especiais para ampliar oportunidades”, explicou, citando iniciativas como concursos para produção local e programas de certificação de fornecedores.
Rodolfo revelou que, nos últimos cinco anos, a Sasol triplicou os investimentos em empresas moçambicanas, destinando 90% das despesas a fornecedores locais, com 40% do orçamento a ir para pequenas e médias empresas. A companhia também introduziu indicadores de participação feminina, destinando 15% das despesas para empresas de mulheres.
O executivo destacou ainda a criação de um fundo em parceria com o banco BCI, que já disponibilizou cerca de 72 milhões de dólares para empresas moçambicanas, permitindo o pagamento de salários, reinvestimento e expansão dos negócios. “O conteúdo local não precisa de ser um custo adicional. Uma estratégia estruturada reduz o custo no longo prazo”, sublinhou.
A 20.ª edição da CASP visa fortalecer os compromissos entre o Estado e o sector privado para relançar a economia nacional através de reformas que aumentem a competitividade, promovam o investimento e garantam um crescimento sustentável, inclusivo e resiliente
Por sua vez, Mukesh Kumar, CEO da Vulcan, reforçou a importância da capacitação e do aproveitamento de oportunidades locais. “A nossa abordagem é integrar a comunidade no processo produtivo, criando empregos, transferindo conhecimentos e fortalecendo a economia do País”, declarou, destacando que 97% dos funcionários da Vulcan são moçambicanos.
Kumar acrescentou que, embora o crescimento industrial leve tempo, é essencial criar condições para que os recursos naturais do País sejam utilizados de forma eficiente, gerando energia, fertilizantes e produtos de alto valor agregado para o mercado interno e externo.
Para os oradores, a industrialização de Moçambique depende de políticas estratégicas que conectem Governo, operadoras e empresas locais, garantindo que o gás natural seja utilizado como matéria-prima para exportação, mas também como motor do desenvolvimento industrial e económico.
A 20.ª edição da CASP visa fortalecer os compromissos entre o Estado e o sector privado para relançar a economia nacional através de reformas que aumentem a competitividade, promovam o investimento e garantam um crescimento sustentável, inclusivo e resiliente.
Texto: Germano Ndlovo
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