Durante décadas, o sistema financeiro moçambicano foi comparável a grandes navios, estáveis, sólidos e necessários para o transporte da economia nacional. Mas tal como esses navios não chegam às margens mais remotas, também os bancos tradicionais não alcançavam milhões de moçambicanos afastados do sistema formal. Foi então que surgiram as pequenas embarcações, as carteiras móveis, navegando com agilidade onde antes só havia exclusão.
Hoje, essas “embarcações digitais” não são apenas auxiliares do sistema bancário: são o novo motor da economia de proximidade. O dinheiro deixou de ser uma abstracção guardada entre paredes para se tornar num fluxo vivo e móvel, que circula entre mercados, bairros e aldeias, movendo a economia real.
A verdadeira transformação das carteiras móveis não é apenas tecnológica, ela é cultural e comportamental. Num país em que o tempo é um recurso escasso, a conveniência tornou-se no novo sinónimo de confiança. Abrir uma conta bancária continua a exigir documentos, deslocações e paciência. Para abrir uma carteira móvel, por outro lado, basta um telemóvel e um bilhete de identidade. Esse acesso imediato criou um novo padrão de expectativa: o cliente quer soluções que cabem na palma da mão.a d v e r t i s e m e n t
Mesmo quem já possui conta bancária migra para o digital, atraído pela simplicidade, rapidez e ausência de barreiras. O cliente moderno não quer apenas guardar dinheiro; quer movimentá-lo, enviá-lo, utilizá-lo. E é neste ponto que as carteiras móveis deixaram de ser apenas ferramentas de inclusão para se tornarem no centro do novo ecossistema financeiro moçambicano.
Segundo o Banco de Moçambique, o número de agentes de carteiras móveis atingiu 351 921 no primeiro trimestre de 2025, o que representa 1817 agentes e 110 contas de moeda electrónica por cada 100 mil adultos, uma cobertura que já alcança todos os 154 distritos do País.
Em 2019, havia apenas 350 agentes por 100 mil adultos. Hoje, esse número multiplicou-se por cinco, com um crescimento médio anual superior a 30%. Os principais protagonistas são o mKesh (Tmcel), o M-Pesa (Vodacom) e o e-Mola (Movitel). Este último movimentou, só no primeiro trimestre, mais de 822,8 mil milhões de meticais e 1,38 mil milhões de transacções.
Estes números não são apenas estatísticas: são o reflexo de um modelo económico mais próximo das pessoas, no qual o dinheiro circula de forma descentralizada e eficiente. Durante anos, falou-se em “inclusão financeira” como o grande objectivo. Hoje, o que vivemos é mais do que inclusão, é uma redefinição estrutural do sistema financeiro.
Como qualquer revolução, esta também traz desafios. O crescimento das carteiras móveis exige novos mecanismos de controlo e prevenção de branqueamento de capitais, sem que isso limite a inovação
A economia moçambicana está a migrar de uma estrutura hierárquica e concentrada para um ecossistema dinâmico, participativo e tecnologicamente integrado. As carteiras móveis são o ponto de contacto entre o cidadão e a economia digital: permitem pagar serviços, enviar dinheiro à família, recarregar crédito e gerir micro transacções diárias. Essa agilidade é o que dá nova vida à economia informal e reforça o poder de consumo. O dinheiro digital é o meio natural da economia moderna.
Como qualquer revolução, esta também traz desafios. O crescimento das carteiras móveis exige novos mecanismos de controlo e prevenção de branqueamento de capitais, sem que isso limite a inovação. A resposta regulatória precisa de ser estratégica e equilibrada para proteger, sem travar, e precisa de supervisionar, sem asfixiar. A experiência internacional demonstra que a integração é melhor do que a restrição. E é precisamente neste ponto que surge o papel de parceiros especializados como a CTJ Consultoria para apoiar instituições, reguladores e fintechs a encontrarem o ponto de equilíbrio entre crescimento e conformidade.
Na CTJ, acompanhamos de perto esta evolução. Trabalhamos com instituições financeiras, operadoras de telecomunicações e fintechs, ajudando-as a transformar inovação em valor sustentável.
O dinheiro digital é o meio natural da economia moderna
Apoiamos desde o onboarding digital e análise regulatória até à integração de inteligência artificial e modelação de risco, garantindo que a tecnologia é usada de forma segura, eficiente e alinhada com o quadro regulatório. Porque acreditamos que o futuro financeiro de Moçambique será digital, inclusivo e colaborativo, e que o sucesso virá das organizações que melhor compreenderem e anteciparem essa mudança.
As carteiras móveis provaram que o sistema financeiro não precisa de ser lento para ser seguro, nem burocrático para ser legítimo. Elas representam a democratização do acesso, a humanização da tecnologia e o fortalecimento da economia real. O que começou como um serviço alternativo tornou-se a espinha dorsal de uma nova economia moçambicana, ágil, acessível e conectada.
O futuro pertence a quem souber navegar com leveza. Enquanto os grandes navios mantêm o rumo, serão as pequenas embarcações que continuarão a chegar primeiro a cada nova margem.Vamos navegar?
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