Subsidiária do grupo sul-africano Telkom, a empresa especializou-se em soluções tecnológicas e serviços de integração de sistemas, posicionando-se hoje como uma das referências nacionais em consultoria tecnológica, cibersegurança, gestão de TI e transformação digital. Numa conversa com a Economia & Mercado, o CEO da BCX Moçambique, Emílio Jorge, fala sobre o seu percurso numa tecnológica moçambicana que lidera no seu segmento de mercado e onde está desde o primeiro dia, olhando para os desafios do mercado, o papel da regulação e as novas oportunidades que se abrem com a criação do Ministério da Comunicação e Transformação Digital. E deixa claro que o futuro da digitalização em Moçambique “só pode passar” por soluções acessíveis e à medida das necessidades, e uma crescente inclusão das MPME no ecossistema tecnológico nacional. Que empresa é hoje a BCX Moçambique e como tem evoluído desde a sua criação em 2005?advertisement A BCX é uma empresa especializada em tecnologias de informação e comunicação. Estabelecemos o nosso escritório em Maputo há 20 anos, inicialmente com apenas sete colaboradores. Começámos com um cliente-âncora, a Mozal, à qual continuamos a prestar serviços até hoje. É um motivo de grande orgulho, pois em duas décadas nunca houve um mês em que não tivéssemos actividade com a Mozal. Naquela altura, o nosso foco era a terceirização de serviços de TIC e alguma consultoria. Hoje, somos uma equipa de cerca de 220 colaboradores e a empresa transformou-se profundamente. Sobrevivemos a momentos difíceis, como a crise das dívidas ocultas e a pandemia, e saímos mais fortes, com um portfólio diversificado e uma estratégia clara de expansão e inovação. Como definem hoje o posicionamento da BCX no mercado? Consideramo-nos um integrador de sistemas (systems integrator). Somos agnósticos em relação à tecnologia, o que nos dá independência para escolher as melhores soluções para cada cliente. O nosso trabalho é compreender as necessidades das empresas e integrar hardware e software de forma coerente, permitindo que o valor esperado seja efectivamente alcançado. Actualmente, estamos também a posicionar-nos como fornecedores de plataformas tecnológicas (platform providers), disponibilizando serviços digitais em regime de subscrição — soluções de core banking, bilhética electrónica, gestão municipal e cloud computing, entre outras. “A nossa cloud local, a BCX ALP CLOUD, é uma infra-estrutura de nível hyperscaler, totalmente instalada em Moçambique” Referiu a transformação digital e algumas soluções inovadoras. Que projectos destacaria neste percurso? Um dos primeiros marcos foi, em 2018, a implementação de uma solução digital para a gestão de receitas municipais, ainda hoje em funcionamento e fornecida como serviço. Logo depois, lançámos o sistema de bilhética electrónica para os Caminhos-de-Ferro de Moçambique, uma das primeiras plataformas do género no País, que já vai na sua terceira versão. Mais recentemente, desenvolvemos uma plataforma de core banking adaptada à realidade moçambicana e vocacionada para instituições microfinanceiras – microcréditos e microbancos. Esta solução permite reduzir custos, eliminar a necessidade de grandes investimentos em soluções tecnológicas e reduzir custos operacionais, uma vez que o cliente paga apenas pelo consumo do serviço. A cloud é uma das vossas apostas estratégicas. Que papel desempenha no vosso crescimento? A nossa cloud local, a BCX Outloud, é uma infra-estrutura de nível hyperscaler, totalmente instalada em Moçambique. Acreditamos que o futuro passa por aqui. Contudo, o sector público ainda é reticente à adopção de serviços cloud, sobretudo por falta de regulamentação clara. Esperamos que o novo regulamento de processamento na nuvem e o trabalho do regulador das TIC venham clarificar as regras. Uma vez definido o enquadramento legal, o potencial de crescimento será enorme, tanto para o sector financeiro como para outros segmentos empresariais. Como olha para o surgimento do novo Ministério da Comunicação e Transformação Digital? É uma excelente notícia. Durante anos, o maior entrave à evolução do sector foi a ausência da figura do regulador para o sector das TIC e/ou a autoridade limitante concedida. A criação deste Ministério demonstra vontade política de colocar as tecnologias de informação e comunicação no centro da agenda nacional e de as transformar numa alavanca para o desenvolvimento. Esperamos que isso traga também maior disciplina e coerência na forma como o mercado opera, permitindo um ambiente mais favorável à inovação e à adopção de soluções digitais. Que desafios persistem na digitalização das empresas moçambicanas? O principal desafio é a capacidade financeira. Muitas empresas continuam a trabalhar em spreadsheets e sistemas manuais, por falta de meios para investir em plataformas tecnológicas. O nosso objectivo é democratizar o acesso à tecnologia, oferecendo “soluções como serviço” — desde core banking até à gestão municipal — para que as empresas possam ser mais eficientes e competitivas. Outro desafio importante é a segurança cibernética. O ecossistema digital é tão forte quanto o seu elemento mais fraco. Como 80% do tecido empresarial moçambicano é composto por pequenas e médias empresas, precisamos de soluções de cibersegurança acessíveis, que permitam às PME equipar-se com todos mecanismos de segurança e provar a sua robustez aos parceiros contratantes ou integrantes do ecossistema. Que oportunidades identifica para o futuro próximo da BCX? As nossas prioridades passam por consolidar a cloud local, expandir as soluções de core banking para outros mercados da região — como Zâmbia e Zimbabué — e reforçar a oferta de serviços de segurança e plataformas digitais em modelo de subscrição. Estamos igualmente a investir em ciência de dados e em soluções de inteligência artificial, que serão inevitáveis. Esperamos que, a médio prazo, e olhando ao sector financeiro, haja uma grande evolução. E aqui refiro-me ao facto de a abertura de uma conta bancária, por exemplo, possa ser feita remotamente, com reconhecimento facial e validação biométrica. E muito mais. A digitalização, a IA e outras ferramentas digitais trarão enormes benefícios, mas exigem também educação e regulamentação adequadas. A esse nível, acredito que terá de haver também uma reconversão profissional e uma aposta no ensino digital, preparando os jovens para um futuro em que a tecnologia e a adaptação constante serão essenciais. E quanto ao impacto social da tecnologia no emprego? Há quem tema que a IA vá eliminar empregos, mas eu vejo-a como uma oportunidade de transformação de carreiras. O desafio está em criar condições para que as pessoas possam reinventar-se, adquirir novas competências e ocupar funções que a própria tecnologia vai gerar. É fundamental começar essa mudança logo na escola, formando jovens versáteis, preparados para um mercado em permanente evolução. Texto e Fotografia • M4Da dvertisement
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