A banca comercial angolana enfrenta um défice superior a 1,2 mil milhões de dólares no acesso a divisas, num contexto em que, teoricamente, a escassez de moeda estrangeira deveria pressionar a desvalorização do kwanza. Ainda assim, a taxa de câmbio mantém-se relativamente estável, alimentando a percepção de que o mercado cambial está a ser alvo de uma gestão administrativa apertada por parte do Banco Nacional de Angola (BNA), tal como informou o jornal Expansão. Segundo fontes do sector, existe um desfasamento significativo entre as necessidades de divisas comunicadas pelos bancos e a capacidade efectiva de compra na plataforma Bloomberg. Este “backlog” de procura superior à oferta já terá atingido 1,8 mil milhões de dólares há poucos meses, permanecendo actualmente acima dos 1,2 mil milhões. Em condições normais de mercado, um desequilíbrio desta natureza conduziria à depreciação do kwanza. Contudo, tal não se verifica, mesmo numa conjuntura internacional em que o próprio dólar tem vindo a perder valor face às principais moedas, sem que essa tendência se reflicta no mercado angolano. O BNA defende que o regime cambial é flutuante e resulta da dinâmica de leilões no mercado interbancário. Porém, administradores bancários admitem que existe pressão do regulador para que as instituições não apresentem taxas indicativas superiores às praticadas, sob pena de serem penalizadas por “ofertas especulativas”. Esta realidade explica por que razão os bancos introduzem praticamente as mesmas taxas na plataforma Bloomberg, receando perder acesso às poucas divisas disponíveis. Nos meios financeiros fala-se mesmo numa “mão invisível” do BNA, com o objectivo de travar a desvalorização da moeda nacional. Apesar de as vendas de divisas aos bancos terem crescido 11% no último ano, totalizando 12 mil milhões de dólares, o aumento revelou-se insuficiente para responder à procura, havendo registos de atrasos de três a quatro meses em transferências internacionais. Para especialistas e até para o FMI, o modelo angolano aproxima-se mais de um sistema de ajustamentos controlados (crawling peg) do que de uma flutuação livre. Num contexto pré-eleitoral, economistas recordam que, historicamente, os ciclos eleitorais em Angola têm sido acompanhados por políticas destinadas a estabilizar ou valorizar o kwanza para conter pressões inflacionistas. Assim, enquanto a procura por dólares continuar a superar a oferta, o kwanza poderá manter uma estabilidade que, segundo analistas, resulta menos do mercado e mais de uma estratégia deliberada de contenção cambial.

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