A relação entre a União Europeia e os Estados Unidos, marcada por fortes tensões nos primeiros meses do regresso de Donald Trump à Casa Branca, entrou numa fase de maior estabilidade. Quem o afirmou foi o presidente do Conselho Europeu e ex-primeiro ministro português, António Costa, em declarações ao Financial Times, nas quais defendeu que “virou-se a página” nas relações transatlânticas depois de meses de incerteza. Segundo António Costa, “há nove meses todos estavam preocupados com a posição dos EUA, mas agora conseguimos estabilizar a relação”, acrescentando que a cooperação entre os dois blocos “precisa de ser aprofundada”. Os sinais de reaproximação ficaram evidentes em três áreas estratégicas. Em primeiro lugar, os países europeus comprometeram-se em aumentar as despesas militares para 5% do PIB, numa tentativa de responder às exigências norte-americanas no quadro da NATO. Em segundo lugar, foi alcançado um acordo comercial que prevê tarifas de 15% sobre grande parte das exportações da UE para os EUA, enquanto Bruxelas aceitou reduzir barreiras a produtos industriais americanos. Finalmente, Washington reviu a sua posição sobre a Ucrânia, comprometendo-se a colaborar em futuras garantias de segurança e em trabalhar com a União Europeia na definição de novas sanções contra Moscovo. De acordo com o Financial Times, esta alteração representa uma inversão face à retórica inicial de Trump, que chegou a excluir qualquer participação americana num eventual processo de segurança pós-conflito. Ainda assim, nem todos os dossiês estão resolvidos. Na semana passada, a Comissão Europeia aplicou uma multa de 2,95 mil milhões de euros à Google por práticas de auto-preferência nos seus serviços de publicidade online. A decisão gerou críticas da administração Trump, que classificou a medida como “injusta” e ameaçou retaliar com novas tarifas. “Os amigos não concordam sempre em tudo. Respeitamos as opiniões dos EUA e esperamos que respeitem as nossas decisões”, afirmou António Costa, citado pelo jornal económico. No comércio, apesar do novo acordo, subsistem pontos de atrito. Elementos essenciais para setores como a indústria automóvel europeia permanecem indefinidos, algo que levanta preocupação em vários governos. Segundo a Reuters, responsáveis ​​da Comissão Europeia reconheceram que a tarifa uniforme de 15% permite que as trocas continuem a fluir, mas alertaram que os automóveis continuam sujeitos a uma taxa de 27,5%, mantendo-se um dos focos mais delicados da relação transatlântica. Mesmo António Costa admitiu que os progressos não eliminam as divergências, mas defendeu que o verdadeiro ganho dos últimos meses é a previsibilidade. “É do interesse da União Europeia e dos Estados Unidos preservar esta estabilidade, porque regressar à incerteza seria minar a confiança dos investidores”, afirmou o presidente do Conselho Europeu. Apesar da aparente reaproximação, vários diplomatas europeus continuam cautelosos. Segundo responsáveis ​​ouvidos pelo FT, os acordos alcançados “compraram tempo”, mas não resolvem as tensões de fundo, nomeadamente na regulação digital e no impacto das tarifas no setor automóvel. No entanto, a avaliação dominante em Bruxelas é que o clima atual oferece uma base mais sólida para gerir os próximos desafios, depois de meses de confrontação verbal que ameaçaram a própria essência da cooperação transatlântica.

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