advertisemen tNo universo do GNL há fatos conhecidos, outros nem tanto. Uma viagem de A a Z ajuda a entender o que nem todo mundo sabe sobre esse recurso estratégico e a “gíria” do mercado. Falar de GNL em Moçambique é, muitas vezes, entrar em um território dominado por siglas, números astronômicos e conceitos técnicos que o leitor comum pode não entender. A E&M procurou organizar o universo do GNL (moçambicano e geral), letra por letra, de forma clara. Uma pequena janela para entender como esse recurso se forma, se transforma, como é transportado e como poderá moldar o futuro do País. Afungi É a península de Cabo Delgado onde deve ser construído o complexo industrial para liquefação e exportação do gás descoberto a cerca de 40 quilômetros ao largo, nas profundezas da Bacia do Rovuma, oceano Índico. Localizada no distrito de Palma, a península foi escolhida como base do projeto do consórcio Mozambique LNG, liderado pela TotalEnergies, pela proximidade em relação às reservas e por permitir acesso a navios metaneiros. Bacia do Rovuma É o coração do gás moçambicano, abrigando algumas das maiores reservas de gás natural descobertas no mundo, no século XXI. Localizada no extremo norte do País, estima-se que ela contenha mais de 100 trilhões de pés cúbicos de gás natural. A profundidade, a qualidade e a escala das reservas justificam o interesse de grandes operadores internacionais. Coral (Sul e Norte) Coral é o nome com que foi batizada a reserva de gás que marcou um ponto de viragem no setor energético moçambicano. É de lá que vem o gás com que o País estreou como exportador de GNL. Localizada na Área 4 da Bacia do Rovuma, começou a ser explorada em 2022, por meio da plataforma flutuante Coral Sul, liderada pela Eni. A plataforma Coral Norte (em construção) representa a próxima fase dessa abordagem, com maior capacidade e novos investimentos ainda em definição. DFI – Decisão Final de Investimento É o momento-chave em que um projeto deixa de ser apenas um plano e passa a ser obra, com contratos assinados. É nessa fase que os promotores confirmam custos, asseguram financiamentos, fecham contratos de venda de longo prazo e autorizam formalmente a construção da infraestrutura — linhas de liquefação, terminais, navios e gasodutos. Sem DFI, não há projeto. EPC – “Engineering, Procurement and Construction” Sigla que significa o modelo de contrato para grandes projetos de GNL. Em Moçambique, as fases de EPC do projeto Mozambique LNG foram executadas pelo consórcio Saipem, McDermott e Chiyoda, e no projeto Coral Sul FLNG ficaram a cargo do consórcio Samsung Engineering, JGC Corporation e Technip Energies. “Offshore” refere-se à exploração e produção de gás natural em áreas marítimas. Em Moçambique, os principais projetos de GNL dependem de reservas localizadas “offshore”, na Bacia do Rovuma, onde a extração exige tecnologia avançada de perfuração especializada Vazamento de metano Ao longo da cadeia de GNL (transporte, liquefação e armazenamento), os vazamentos de metano estão entre os principais desafios ambientais. Apesar de o gás natural emitir menos CO₂ do que o carvão, pequenas perdas de metano podem anular esta vantagem, já que este é até 80 vezes mais prejudicial para o aquecimento da atmosfera terrestre do que o CO₂, num horizonte de 20 anos. GTL – “Gas-to-liquids” É a tecnologia que transforma gás natural em combustíveis líquidos, como diesel, querosene ou nafta. Embora ainda pouco aplicada em Moçambique, GTL representa uma alternativa para valorizar o gás, permitindo que reservas descobertas na Bacia do Rovuma sejam convertidas em produtos industriais de maior valor. Hidratos de gás São estruturas cristalinas que se formam quando metano ou outros hidrocarbonetos ficam presos em redes de água, comuns em ambientes submarinos profundos. Embora não sejam utilizados comercialmente em Moçambique, representam uma das maiores reservas potenciais de gás do planeta, despertando interesse científico e tecnológico. Infra-estrutura Refere-se ao conjunto de instalações, equipamentos e sistemas necessários para extrair, processar, liquefazer, transportar e exportar gás natural. Em Moçambique, a infra-estrutura inclui as perfurações “offshore” da Bacia do Rovuma, os gasodutos submarinos que conduzem o gás até Afungi, as unidades “onshore” de liquefacção do projecto Mozambique LNG e o FLNG Coral Sul Joule É a unidade de medida de energia usada para quantificar o conteúdo energético do gás natural e do GNL. Cada metro cúbico de gás contém uma certa quantidade de joules, informação essencial para calcular contratos de venda, transporte e conversão em eletricidade ou calor. “Key players” São empresas, instituições e governos que tornam possíveis grandes projetos de GNL. Em Moçambique, destacam-se operadores como TotalEnergies, Eni e ExxonMobil, os consórcios EPC responsáveis pela construção das infraestruturas e as instituições financeiras de desenvolvimento (DFI) que viabilizam o investimento. Liquefação: ocorre em complexos industriais “Long-term contracts “ São contratos de longo prazo, que garantem a venda de GNL por períodos que podem chegar a 25 anos, oferecendo segurança financeira aos investidores e previsibilidade aos mercados compradores. Em Moçambique, o projeto Mozambique LNG e Coral Sul FLNG assinaram contratos de longo prazo com empresas na Ásia, especialmente Japão, Coreia do Sul e China. Mtpa – milhões de toneladas por ano É a unidade que quantifica a capacidade de produção de GNL por ano. Cada linha de liquefação tem uma capacidade específica em mtpa, determinando o volume de gás que pode ser exportado. Em Moçambique, o projeto Mozambique LNG prevê 12-15 mtpa, enquanto o Coral Sul FLNG extrai 3,4 mtpa. Navios metaneiros São navios especializados que tornam possível o comércio global de GNL. Equipados com tanques criogênicos capazes de manter o gás em torno de -162 °C, esses navios reduzem o volume do gás em cerca de 600 vezes, facilitando seu transporte entre continentes. No caso de Moçambique, serão eles que ligarão os projetos aos mercados da Ásia e da Europa. Quando chega ao destino, é feita a regaseificação para poder ser utilizado em gasodutos até o local da queima. “Offshore” e “onshore” “Offshore” refere-se à exploração e produção de gás natural em áreas marítimas. Em Moçambique, os principais projetos de GNL dependem de reservas localizadas “offshore”, na Bacia do Rovuma, onde a extração exige tecnologia avançada de perfuração especializada. As unidades de processamento vão estar localizadas em terra – ou seja, “onshore”. “Pipeline” São gasodutos, espinha dorsal do transporte de gás natural, que ligam campos de produção a complexos industriais de liquefação e terminais de exportação. Em Moçambique, gasodutos submarinos vão ligar os campos “offshore” da Bacia do Rovuma às unidades “onshore” em Afungi, garantindo fluxo contínuo e seguro do gás destinado à exportação. Entre siglas e números gigantes, o GNL moçambicano fica claro. Da Bacia do Rovuma a Afungi, este guia explica como o gás se forma, é explorado, liquefeito e transportado — e como pode moldar o futuro econômico do País Qatar O Qatar é um dos maiores produtores e exportadores de GNL do mundo. É uma referência tecnológica, comercial e contratual global para o setor. O país desenvolveu grandes complexos de processamento, terminais portuários e uma frota de navios metaneiros, consolidando contratos de longo prazo com mercados na Ásia e na Europa. “Royalties” São pagamentos feitos pelos operadores de gás natural ao Governo do país produtor pelo direito de explorar reservas. Em Moçambique, os projetos Mozambique LNG e Coral Sul FLNG geram receitas significativas para o Estado através de “royalties”. “Spot market” Refere-se à negociação de GNL fora de contratos de longo prazo, com entrega rápida e preços definidos pelo mercado. Em Moçambique, os principais projetos operam com contratos de longo prazo, mas parte da produção pode ser destinada a vendas “spot”, oferecendo flexibilidade para aproveitar oportunidades de preço (que são mais altos) e ajustar volumes de exportação. Trains (linhas de liquefação) São unidades modulares responsáveis por resfriar o gás natural, por onde passa (por inúmeras tubulações) até se tornar líquido. Cada linha tem uma capacidade própria, geralmente medida em mtpa, determinando o volume total anual de produção de GNL. Em Moçambique, o projeto Mozambique LNG em Afuzzngi possui múltiplas linhas, enquanto o Coral Sul FLNG opera com uma unidade flutuante. “Upstream” Refere-se à exploração e produção de gás natural, incluindo perfuração de poços, extração em campos “offshore” e transporte inicial para unidades de processamento ou liquefação. Esta fase é crucial, pois define a quantidade, qualidade e continuidade do fornecimento de gás, sendo a base para toda a cadeia de valor do GNL, desde o subsolo até os mercados globais. Volatilidade Refere-se às oscilações de preços de GNL nos mercados internacionais por fatores como clima, crises geopolíticas, crescimento da demanda e mudanças na oferta. Para países produtores, como Moçambique, a volatilidade pode significar receitas acima do esperado em períodos de escassez global, mas também riscos significativos quando os preços recuam. “Demanda de inverno” É o aumento significativo do consumo de gás natural durante os meses mais frios, especialmente na Europa e no Nordeste Asiático, onde o gás é essencial para o aquecimento e a produção elétrica. Esses picos sazonais pressionam os preços, reconfiguram rotas de navios metaneiros e tornam o mercado mais competitivo, criando oportunidades estratégicas para os países exportadores. “Yield” É o rendimento obtido na transformação do gás natural em produto comercial, considerando perdas, eficiência do processo de liquefação e aproveitamento de outros hidrocarbonetos valiosos como etano, propano e butano. Para Moçambique, a otimização de rendimentos é crucial para maximizar as receitas dos projetos da Bacia do Rovuma. Zona de influência Áreas geográficas, sociais e econômicas diretamente influenciadas pela implantação de grandes projetos de energia. Em Moçambique, a zona de influência dos projetos de GNL inclui comunidades de Palma, Mocímboa da Praia e a península de Afungi, onde se concentram efeitos como reassentamentos, criação de emprego, pressão sobre serviços públicos, etc.. Texto Celso Chambisso • Fotografia DR
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