a d v e r t i s e m e n tA taxa de inflação anual do Zimbabué caiu para menos de 10% pela primeira vez desde 1997, um marco para um país outrora sinónimo de hiperinflação e notas bancárias de biliões de dólares. A questão agora é saber se esta estabilidade pode durar.
O Fundo Monetário Internacional (FMI) mostra-se cautelosamente optimista. A instituição aprovou, no início deste mês, um programa de monitorização técnica com a duração de dez meses para o país da África Austral, após anos de envolvimento, e afirmou que a inflação em 2026 “deverá manter-se em um só dígito, reflectindo condições monetárias restritivas e um mercado cambial mais estável”.
A inflação em termos de moeda local abrandou para 4,1% no mês passado, face a 15% em Dezembro. As autoridades atribuem a desaceleração a uma política monetária mais restritiva, contenção da despesa fiscal e esforços para lastrear a nova moeda ZiG com ouro e reservas em divisas. O banco central tem procurado travar os picos de liquidez que, no passado, alimentaram a rápida depreciação cambial e a subida abrupta dos preços.
A melhoria dos termos de troca tem dado apoio adicional, com a descida dos preços do petróleo a reduzir os custos das importações, enquanto a subida dos preços do ouro e da platina reforça as receitas de exportação e as reservas.
Uma estabilidade duradoura dos preços poderá aliviar as preocupações dos investidores quanto ao perfil de risco do Zimbabué e ajudar a desbloquear investimento nos seus vastos recursos minerais, incluindo lítio e platina, ambos cruciais para as cadeias globais de abastecimento da transição energética.
O cepticismo, contudo, mantém-se. O país já declarou vitória sobre a inflação no passado, apenas para ver os progressos desmoronarem-se perante reversões de políticas, pressões políticas ou nova instabilidade cambial.
Para muitos, o trauma dos anos de hiperinflação, há menos de duas décadas, continua presente, quando as pensões foram anuladas, os salários se tornaram insignificantes e os preços duplicavam em poucas horas, forçando os cidadãos a recorrer à troca directa para obter bens essenciais. No auge da crise, eram necessários biliões de dólares para comprar um pão.
A directora financeira da Dairibord Holdings Ltd. – a maior processadora de leite do país -, Mercy Ndoro, recorda o caos e afirma que junto da sua equipa reviam constantemente os preços dos produtos apenas para sobreviver.
“Estávamos a usar preços de reposição”, recordou Ndoro. “Era muito difícil prever qual seria o custo no mês, na semana ou no dia seguinte. Acabámos por perder dinheiro. Houve muita erosão de valor. Como conseguimos lidar com isso? Não conseguimos.”
Quando a hiperinflação atingiu o pico em 2008, tornou o dólar zimbabueano sem valor. Desde então, as autoridades tentaram repetidamente restabelecer uma moeda local em substituição do dólar norte-americano. A mais recente versão é o ZiG — abreviatura de Zimbabwe Gold.
Ndoro reconhece que o ambiente operacional é “obviamente muito melhor” actualmente. No entanto, a Câmara Nacional de Comércio do Zimbabué adverte que a estabilização é apenas o começo.
Os números da inflação “mostram o que é possível. Tornarem-se permanentes depende do que vier a seguir”, afirmou o grupo de pressão. “A história julgará este momento não pela taxa de inflação em si, mas por saber se os decisores políticos a protegeram durante tempo suficiente para que a confiança criasse raízes. Este é o verdadeiro teste”.
Fonte: Bloomberg
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