Num país onde quase metade da população ainda vive na pobreza e as zonas rurais enfrentam níveis elevados de exclusão energética, a Girafa Solar surge como um exemplo de inovação social com enraizamento comunitário. A Girafa Solar foi criada pelo arquitecto e empreendedor moçambicano Ruben Morgado. É uma estrutura fotovoltaica comunitária que tem vindo a transformar a vida de várias famílias em todo o País, com sofisticação tecnológica e pela forma inteligente como responde a necessidades reais. Numa conversa com a E&M, Ruben diz que foi motivado pela forma como o telemóvel é essencial para a comunicação, transacções económicas e acesso a serviços nas zonas rurais. No entanto, a falta de energia é um obstáculo grave. A Girafa Solar cria, assim, um ponto seguro e comunitário de carregamento que rapidamente se transforma num verdadeiro espaço de convivência. Trata-se de uma estrutura que utiliza um sistema solar básico — painéis fotovoltaicos, controlador de carga, inversor e baterias, podendo oferecer dez tomadas de carregamento de telemóveis, rádio comunitária, iluminação pública e autonomia até três dias sem sol. Origem de uma ideia: da rejeição ao renascimento A Girafa Solar, conforme conta Ruben, “não nasceu como um produto futurista”, mas como uma resposta a uma crítica. A primeira versão — um carregador solar metálico e compacto, pensado a partir da realidade urbana — foi apresentada numa comunidade rural na província de Gaza. O resultado foi um “não” imediato, devido aos materiais que não representavam a comunidade e os painéis solares que estavam demasiado baixos, o que os tornaria vulneráveis ​​ao furto. “Cada ‘girafa’ oferece dez tomadas de carregamento de telemóveis, rádio comunitária, iluminação pública e autonomia até três dias sem sol” Contudo, a rejeição foi transformada em oportunidade. Ruben substituiu o metal por troncos de eucalipto e elevou os painéis a seis metros. Quando observou o novo perfil, percebeu que lembrava a cabeça de uma girafa. Nascia, sem ter sido planeada, a Girafa Solar, um símbolo nacional de energia comunitária. Segundo o co-fundador do projecto, o serviço é gratuito, e desde 2022, as “girafas” já beneficiaram mais de 25 mil famílias. Quando a inovação cumpre o seu papel Uma visão pouco comum em projectos de desenvolvimento marca a filosofia da Girafa Solar: ela deverá ‘desaparecer’ onde a rede eléctrica nacional chega. E isso já aconteceu em Mangunze, onde a primeira girafa foi desmontada após a electrificação da comunidade. Para Ruben, é motivo de orgulho: “A girafa fez o trabalho dela, ajudou a comunidade quando necessitava.” Com custos logísticos que representam cerca de 45% do total, a expansão das girafas tradicionais é lenta. Para tornar o projecto mais acessível, nasceu, recentemente, a Mini-Girafa, instalada pela primeira vez numa escola em Chibuto, na província de Gaza, com os painéis integrados na cobertura da escola. Ruben revelou que esta versão da girafa tem metade do custo, menos material e, ainda assim, menor risco de furto e com um impacto semelhante. Segundo o arquitecto, já há propostas de organizações não-governamentais para a expansão do projecto no norte do País. Eficiência crescente e ambição de futuro A aprendizagem no terreno tem sido constante. Segundo Ruben, a primeira instalação demorou cinco dias. Hoje, a equipa monta uma girafa em apenas um dia e meio. Em Cabo Delgado, foram montadas seis estruturas em nove dias. O grande objectivo? Tornar o projecto ‘open-source’. Publicar o desenho, permitir que outras equipas copiem, adaptem e instalem as suas próprias girafas. Internamente, já se usa o verbo “girafar”: espalhar estruturas de energia comunitária pelo País. Texto Ana Mangana • Fotografia DR

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