Ataíde Sucá fala com a serenidade de alguém que percorreu um longo caminho, cheio de obstáculos, mas também de conquistas. Nascido e criado no bairro de Minkadjuine, em Maputo, é treinador de ténis nos Estados Unidos, mas a história que o levou até lá começou muito antes, entre bolas de futebol, raquetes emprestadas e um sonho que teimosamente se recusava a caber no bairro onde cresceu. O seu primeiro contacto sério com a prática desportiva não foi com o ténis, mas com o futebol. “Jogava muito futebol, era o meu sonho”, conta à E&M. Foi assim que, no convívio entre amigos, surgiu uma raquete: a mãe comprou-a e “a partir daí, foi história”. O ténis entrou na sua vida como uma possibilidade e rapidamente se tornou numa paixão. Começou a competir localmente quando ainda era muito jovem, tornando-se num dos melhores juniores do País. O talento destacava-se e a carreira foi construída com trabalho exaustivo, descreve. Numa família em que os pais trabalhavam arduamente e não tinham tradição desportiva, os recursos eram limitados. Mesmo assim, Ataíde consolidou a sua carreira juvenil com algum apoio de treinadores locais, em particular de Emílio Maché, que o acolheu e com quem viajou. Participou em torneios e fez parte de uma selecção africana em 2002, no âmbito da ITF Touring Team, um programa criado pela Federação Internacional de Ténis (ITF, sigla inglesa) para apoiar jovens jogadores talentosos (especialmente de países em desenvolvimento) a competirem em torneios internacionais de alto nível. Na adolescência, a sua carreira deu um salto importante quando foi campeão nacional por dois anos consecutivos (2006 e 2007). Aos 16 anos começou a perceber que poderia alargar os seus horizontes. Essa fase culminou numa decisão radical: aceitar a oportunidade de estudar e jogar ténis nos EUA. De embarque para o jogo da vida Em 2008, aos 20 anos, o agora treinador partiu para os EUA com muitos sonhos e ambição na bagagem. O choque inicial foi enorme: frio extremo, comida diferente, distância da família e rotinas difíceis. “Eu acordava às cinco da manhã, quando faziam dez graus negativos. Treinar, tomar banho e ir para a aula”, recorda. Para se sustentar, teve três empregos, conciliando treinos e estudos: limpava carros, trabalhava no restaurante do campus e na biblioteca. Este ritmo foi uma lição: “O ténis ensinou-me disciplina.” Ataíde foi campeão nacional em Moçambique por dois anos consecutivos (2006 e 2007). Viajou pelo mundo em torneios e foi nomeado para jogar pela equipa ITF da África, em 2002 Nos EUA, estudou em instituições que lhe abriram portas. Começou no Barton County Community College e formou-se na Shaw University, onde concluiu a licenciatura em Gestão Desportiva. Jogou pelas duas universidades durante quatro anos. A experiência universitária transformou-o num atleta, mas também no jovem que descobriu como converter o desempenho desportivo em oportunidades educativas e profissionais. De jogador a mentor Ataíde fez parte da primeira equipa moçambicana na Taça Davis, em 2014, a maior competição internacional por equipas no ténis masculino, organizada pela Federação Internacional de Ténis. Anos mais tarde, foi nomeado capitão da equipa da Taça Davis 2019, que chegou à fase final, para se qualificar para o Grupo 2, uma experiência que o marcou, apesar de a equipa não ter vencido a competição. “Participar já foi uma vitória”, afirma. Ao longo dos anos, estabeleceu-se como treinador nos EUA. Actualmente, vive em Charlotte, Carolina do Norte, e trabalha na Old Providence Tennis Academy, onde treina uma grande variedade de atletas, desde crianças a adultos, e prepara jogadores candidatos a bolsas de estudo e campeonatos universitários. “Temos mais de 100 alunos… muitos acabam por ir para faculdades das divisões 1, 2 e 3”, explica. A par do seu trabalho técnico, desenvolveu um papel como mentor e facilitador: ajudou milhares de jovens a obter bolsas de estudo e a estudar e jogar nos EUA, um trabalho que reflecte a transição da conquista individual para a acção colectiva. “Ajudei mais de três mil atletas a estudarem e jogarem ténis aqui”, afirma. O valor das relações em redor do ténis Além das redes, o atleta fala em “networking”). O ténis, como desporto de nicho, constrói pontes entre pares, num contexto semelhante ao que acontece no golfe: encontros com empresários, directores e líderes sociais que participam no circuito e potencialmente apoiam projectos. “A minha rede de contactos, graças a Deus, é vasta. Conheço várias pessoas — directores, presidentes — que me consideram como um amigo”, diz Ataíde, enfatizando o valor social e económico dessas relações. A jornada não tem sido totalmente bem-sucedida. Ataíde descreve lacunas estruturais em Moçambique: falta de apoio familiar e institucional, escassez de formação, circuitos regulares e pouca informação sobre oportunidades no exterior. “Temos talento, mas falta-nos apoio”, afirma. Para ele, além de dinheiro, do que as crianças e os jovens precisam é de orientação, rotinas formativas e educação sobre oportunidades financeiras e académicas. O treinador com a sua equipa Essa consciência levou-o a regressar periodicamente a Maputo para realizar ‘workshops’, doar equipamentos e manter contacto com clubes e treinadores. Sempre que pode, o atleta viaja: “As minhas férias são em Moçambique”, e tenta construir relações, seja a distribuir estojos para raquetes ou a ajudar com vistos de viagem e fornecendo orientação sobre candidaturas internacionais. Um legado em construção Actualmente, com 38 anos de idade e 14 de carreira, Sucá pensa no seu legado. Pretende criar um clube ou projecto que ofereça apoio técnico e académico desde tenra idade. Quer também dedicar mais tempo à sua família e, se possível, treinar os seus próprios filhos. “Gostaria de criar um espaço onde pudesse treinar jovens moçambicanos”, afirmou. Além de sonhar com um clube, alerta para a disciplina e acompanhamento de aspectos fundamentais. “Muitos atletas fracassam por falta de disciplina, não por falta de talento”, afirma. E lembra que começar cedo, com a orientação certa, a partir dos 8 ou 12 anos, transforma possibilidades em resultados reais. Por fim, Ataíde fala abertamente sobre a sua relação com as instituições moçambicanas: sente-se frustrado com a falta de resposta institucional quando ex-jogadores propõem parcerias ou oferecem ajuda voluntária. Mesmo assim, continua disponível. “Estou aberto a tudo, se o projecto fizer sentido”, declara. Texto Germano Ndlovo Fotografia DRa dvertisement
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