As cheias que assolam o sul do País desde meados de Janeiro provocaram uma destruição sem precedentes no distrito de Chókwè, província de Gaza, afectando 88% do território e colocando em risco o sustento de milhares de famílias, alertou o Governo, que coordena no terreno as operações de assistência e reabilitação, segundo informou a Lusa.
“Estas cheias tiveram uma característica especial: chegaram a pontos que, em eventos anteriores, eram considerados seguros”, declarou o administrador distrital de Chókwè, Narciso Nhamuco, recordando as inundações de 2000 e 2013. “É uma tragédia nova que não se compara com outras.”
Desde 15 de Janeiro, 2258 quilómetros quadrados ficaram submersos no chamado “celeiro do País”, comprometendo por completo a produção agrícola. Cerca de 170 mil pessoas foram afectadas, incluindo mais de 55 mil que se encontram em três centros de acolhimento criados no distrito.
A agricultura foi devastada, afectando directamente 44 mil produtores e colocando em causa o sustento alimentar da região. “Estamos a falar de uma área de 45 750 hectares que foram completamente comprometidos. É aqui o celeiro de produção do grande arroz”, sublinhou Nhamuco, salientando também os danos severos no sistema de regadio.
O Governo admite a urgência em fornecer sementes e insumos básicos à população afectada, para evitar uma dependência total da assistência alimentar. “Sem isso, perderemos o auto-sustento”, advertiu o administrador.
As avaliações de danos e as condições mínimas para o regresso seguro das populações às zonas residenciais estão em curso, com o apoio de parceiros humanitários que fornecem kits de higiene, alimentação e dignidade. Ainda assim, muitas famílias continuam a tentar recuperar bens em zonas alagadas, com a água a atingir a cintura.
“Aqui as pessoas estão em grande sofrimento”, afirmou Ursilo Muhovo, mototaxista de 49 anos, que continua a circular entre Chókwè e Guijá, mesmo com a estrada tomada pelas águas. Os preços do transporte e do combustível dispararam: a corrida subiu de de 1,56 para 2,34 dólares e o litro de combustível atinge já os 4,69 dólares, quando disponível.
O impacto das cheias estende-se a todos os sectores. Estabelecimentos de saúde, serviços públicos e infra-estruturas básicas estão entre os milhares de edifícios afectados. O sector da educação enfrenta um desafio crítico: 84 escolas foram danificadas, afectando cerca de 63 mil alunos e obrigando ao adiamento do início do ano lectivo para 27 de Fevereiro.
“Estamos a fazer o levantamento para localizar os professores, porque nem todos estão nos centros próximos das suas escolas, e muitas foram também afectadas”, relatou o administrador.
A desolação é visível entre os residentes. “As pessoas estão a chorar neste momento, estão a pedir um apoio”, afirmou Apolinário Basílio, professor de Matemática de 40 anos, que teme não conseguir regressar à escola, agora inacessível devido à destruição da via pela fúria do rio Limpopo. “Não há ligação”, lamenta.
Segundo as autoridades locais, a cidade de Chókwè foi duramente atingida, com os acessos ao norte cortados e a maior parte dos 139 mil habitantes deslocados. “Grande parte das infra-estruturas sofreram, tanto do Estado como privadas”, admitiu Nhamuco.
A preocupação mais grave recai, porém, sobre a destruição do sistema de regadio que sustenta a economia local. “É o elemento mais fundamental. Circunda a cidade e o distrito e é a base da nossa subsistência. Sem ele, piorará também a situação de drenagem”, advertiu o administrador.
À medida que as águas recuam lentamente, a incerteza paira sobre o futuro da região. No celeiro de Moçambique, o medo mais imediato é a fome.a d v e r t i s e m e n t
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