Uma ideia do engenheiro Dário Nhacassane desperta a atenção de investigadores e investidores: ele é autor de um modelo matemático capaz de desencravar projectos energéticos perdidos em estudos de viabilidade. Como funciona?
O Modelo de Nhacassane é uma ferramenta matemática e computacional que combina simplicidade de uso com profundidade científica, permitindo estimar, com precisão, a tarifa de venda da energia produzida (‘off taker’ na gíria do sector). Segundo o autor, a inovação resulta de anos de estudo e de uma calibração empírica baseada em 15 projectos energéticos implementados em diversos países africanos, convertendo dados reais em conhecimento aplicável. “Este modelo vai ser de grande utilidade para a indústria da energia. Permitirá acelerar a tomada de decisões, porque este é um dos grandes entraves ao desenvolvimento de projectos. Temos muitos empreendimentos em carteira, mas estão todos perdidos em estudos de viabilidade infinitos”, afirmou o engenheiro, numa conversa com a E&M.
Inovação com ADN africano
Num continente onde muitos projectos energéticos enfrentam desafios de financiamento e de planeamento, o Modelo de Nhacassane surge como uma ponte entre a engenharia e a decisão económica. O sistema foi pensado para oferecer uma resposta rápida e fiável à pergunta central de qualquer investimento em energia: é financeiramente viável?
Segundo o autor, a originalidade da fórmula está na simplicidade dos seus quatro parâmetros de entrada: capacidade instalada (MW), distância para a rede eléctrica pública, taxa de desconto e localização geográfica. Bastam estes dados para o modelo gerar uma estimativa robusta da viabilidade financeira de centrais solares, eólicas ou hídricas, reduzindo significativamente o tempo e o custo de análises preliminares. Segundo o engenheiro, este método pode ajudar a planear infra-estruturas em países em desenvolvimento, onde o acesso à informação e a estudos de viabilidade ainda é limitado.
Segundo o engenheiro, este método pode transformar o modo como se planeiam infra-estruturas em países em desenvolvimento, onde o acesso à informação e aos estudos de viabilidade ainda é limitado
Da teoria à prática: o protótipo digital
O Modelo de Nhacassane não ficou apenas no papel. Com o apoio dos investigadores Hélder Nhampule e Milton Manjate, a fórmula ganhou forma digital através de um protótipo web que permite simular tarifas energéticas em segundos. O utilizador introduz os quatro parâmetros básicos e obtém instantaneamente uma estimativa da tarifa de venda — um processo que, até então, exigia longas horas de cálculos, acesso a software especializado e uma equipa técnica experiente.
A versão beta (versão de testes) está disponível gratuitamente online e pode ser usada por empresas de energia, reguladores, investidores e instituições académicas. A ideia é democratizar o acesso a uma ferramenta de planeamento moderna, eficiente e adaptada à realidade africana. “Queremos que este modelo seja uma ferramenta aberta, útil e capaz de inspirar outros profissionais africanos a desenvolver soluções com base no nosso contexto”, sublinha o engenheiro.
Impacto continental e reconhecimento
Mais do que um avanço técnico, o Modelo de Nhacassane simboliza o potencial científico de Moçambique e o crescente papel do País no ecossistema de inovação africano. A criação foi patenteada e encontra-se oficialmente registada no Instituto de Propriedade Industrial (IPI), tendo sido publicada no Boletim Oficial de Propriedade Industrial em Junho de 2025. O registo garante que a invenção é, de facto, moçambicana e que pode servir de base a futuras colaborações internacionais no sector energético.
O potencial de aplicação é vasto: Governos, universidades e investidores podem usar o modelo como instrumento de planeamento estratégico. Ao reduzir as incertezas financeiras, a fórmula de Nhacassane contribui directamente para acelerar a universalização da electricidade e promover uma transição energética justa no continente.
Ciência que nasce da experiência
Dário Marcelino acredita que a ciência deve responder a problemas reais. O seu modelo é o resultado de uma observação prática do mercado energético africano, onde o custo e o risco de desenvolvimento de projectos inviáveis continuam a travar o progresso. Em vez de esperar por soluções importadas, Nhacassane criou a sua própria ferramenta, baseada na realidade local e alimentada por dados concretos de 15 projectos africanos. Essa ligação entre a teoria e a prática confere autenticidade à sua proposta. “As nossas soluções têm de nascer daqui, das nossas necessidades e das nossas condições. Só assim conseguiremos transformar a energia em motor de desenvolvimento sustentável”, defende.
Moçambique no mapa da inovação
Com o Modelo de Nhacassane, Moçambique passa a figurar entre os países africanos com produção científica aplicada ao desenvolvimento energético. A criação coloca o País num novo patamar de inovação tecnológica e intelectual, demonstrando que a engenharia moçambicana é capaz de gerar soluções com alcance global.
Mais do que uma ferramenta técnica, o modelo é um símbolo de autoconfiança nacional — a prova de que a ciência feita em África pode ser moderna, rigorosa e internacionalmente relevante.
Texto Ana Mangana • Fotografia D.R.
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