A inteligência artificial (IA) pode desempenhar um papel central na transformação da agricultura moçambicana, permitindo ao País deixar de ser apenas fornecedor de matérias-primas e passar a integrar, de forma competitiva, as cadeias de valor globais. Esta é uma das principais conclusões de uma análise conduzida pela consultora Accenture, que sublinha o potencial da IA para impulsionar o crescimento económico inclusivo no continente africano, segundo informou o portal Engineering News.

O estudo, divulgado esta semana, alerta que, apesar de África — e Moçambique em particular — abastecer grande parte dos mercados internacionais com produtos agrícolas, como cana-de-açúcar, café e cacau, o valor acrescentado continua a concentrar-se fora do continente, sobretudo em fases como o processamento, certificação e comercialização. A ausência de sistemas digitais robustos impede os pequenos produtores de acederem aos mercados de alto rendimento, cada vez mais exigentes em matéria de rastreabilidade, sustentabilidade e transparência.

No sector açucareiro, por exemplo, tanto Moçambique como a vizinha África do Sul mantêm-se como exportadores relevantes, mas com fraca captura de valor por parte dos pequenos produtores. A aplicação de ferramentas baseadas em IA — como modelos de previsão de riscos climáticos, algoritmos de classificação de qualidade e sistemas digitais de pagamentos — pode fortalecer a sua posição negocial e garantir certificações exigidas pelos principais compradores internacionais.

O documento destaca igualmente a urgência de adoptar soluções inclusivas, que evitem que mulheres, jovens e pessoas com deficiência fiquem excluídos da revolução digital no campo. Em regiões como o sul do País, onde as mulheres desempenham um papel central na produção agrícola, o acesso limitado a smartphones e à literacia digital constitui ainda um obstáculo à participação plena na nova economia digital.

O estudo defende que Moçambique pode beneficiar de iniciativas de integração regional que promovam normas comuns de certificação, digitalização aduaneira e governação de dados agrícolas

No contexto da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC), o estudo defende que Moçambique pode beneficiar de iniciativas de integração regional que promovam normas comuns de certificação, digitalização aduaneira e governação de dados agrícolas. A criação de sistemas interoperáveis, alinhados com o Acordo de Comércio Livre Continental Africano (AfCFTA), é apontada como essencial para reduzir barreiras e estimular o comércio intra-africano.

A análise aponta ainda para ganhos operacionais significativos com a adopção de IA na logística, podendo a produtividade em sectores como o transporte e a gestão portuária aumentar até 30% com tecnologias de manutenção preditiva e roteamento inteligente. Para Moçambique, que depende fortemente da exportação agrícola e enfrenta desafios recorrentes nas infra-estruturas, estes avanços podem representar um diferencial competitivo relevante.

A Accenture defende, por fim, que a verdadeira transformação depende não apenas da tecnologia, mas da criação de políticas públicas sólidas, estruturas de governação ética de dados e investimentos contínuos em infra-estruturas digitais. O envolvimento do sector privado, nomeadamente através do sistema financeiro e das ‘Fin Techs’, será igualmente determinante para assegurar que os ganhos da IA cheguem efectivamente aos produtores e não fiquem concentrados em intermediários internacionais.

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