A União Nacional dos Camponeses de Moçambique (UNAC) revelou nesta quinta-feira, 22 de Janeiro, que quase toda a produção agrária está perdida nas províncias de Maputo e Gaza, devido às chuvas e inundações, descrevendo o cenário como “extremamente preocupante” e com potencial para agravar a insegurança alimentar.

“Quase toda a produção está perdida e foi arrasada pelas enxurradas. A situação está extremamente complicada e os índices de produção agrária neste ano para a região sul estão comprometidos”, afirmou o coordenador executivo da UNAC, Luís Muchanga, citado pela Lusa.

O responsável apontou para maiores danos nos distritos de Chókwè, Chicualacuala, Mapai e Guijá, Chibuto e Manjacaze, indicando que as cheias vão reduzir a quantidade de armazenamento alimentar dos agricultores.

“A cenário está caótico, os indicadores de segurança alimentar no País estão a baixar, sobretudo no que diz respeito à capacidade de stock alimentar. É verdade que houve um anúncio prévio, mas nunca foi imaginada a magnitude”, esclareceu.

Para além dos campos agrícolas devastados, a entidade alertou também para as consequências no sector pecuário, com diverso gado arrastado pelas águas, indicando que, sem financiamento, estes produtores vão levar tempo para recuperar dos impactos.

“Os nossos produtores não possuem seguro agrário no que concerne à questão de calamidades, o que acontece é que cada um fã o que pode. Infelizmente essa é a realidade que temos. No País, as políticas públicas não são tão proactivas nesse sentido”, acrescentou.

Para evitar maiores danos nas próximas épocas chuvosas, a organização pediu uma aposta num sistema de aviso prévio face às inundações, incluindo melhorias na circulação de informação, para além da construção de mais diques de retenção das águas para reduzir o seu impacto sobre os campos agrícolas.

Nesta quarta-feira (21), o Instituto Nacional de Meteorologia (INAM) emitiu um aviso de alerta amarelo devido à aproximação de uma depressão tropical no Canal de Moçambique, prevendo-se que venha a agravar o cenário de emergência já instalado no sul do País, onde se registam cheias generalizadas e populações sitiadas.

Numa das suas intervenções recentes, o Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres (INGD) alertou que Moçambique pode estar perante uma situação de cheias potencialmente mais grave do que a registada em 2000, na qual morreram aproximadamente 800 pessoas, naquela que é considerada uma das maiores catástrofes naturais da história do País.

As cheias de 2000 em Moçambique foram provocadas por chuvas intensas e ciclones tropicais, que atingiram sobretudo as bacias dos rios Limpopo, Incomáti, Umbelúzi e Save, afectando gravemente o sul e centro do País. O desastre deixou milhões de afectados, destruiu infra-estruturas, habitações e campos agrícolas e provocou elevados prejuízos económicos.

Actualmente, o Governo enfrenta um défice de 6,6 mil milhões de meticais para responder à actual época chuvosa, num contexto em que são necessários 14 mil milhões de meticais para assegurar a assistência humanitária, apoio aos deslocados, serviços de saúde e alimentação nos centros de acomodação.

Moçambique está em plena época chuvosa, um período que tem sido marcado por alertas de chuvas e ventos fortes, principalmente nas zonas Centro e Sul do País, com as autoridades a activarem acções de antecipação às cheias e inundações naquelas regiões.

O País é considerado um dos mais severamente atingidos pelas alterações climáticas, enfrentando ciclicamente cheias e ciclones tropicais. Nas últimas chuvas, entre 2024-25, Moçambique foi atingido pelos ciclones Chido, Dikeledi e Jude que causaram a morte de pelo menos 313 pessoas, feriram 1255 e afectaram mais de 1,8 milhão.

Os eventos extremos provocaram pelo menos 1016 mortos em Moçambique entre 2019 e 2023, afectando cerca de 4,9 milhões de pessoas, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística.a d v e r t i s e m e n t

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