Um trabalho de final de licenciatura na Universidade Eduardo Mondlane (UEM) mostra o potencial da Inteligência Artificial (IA) no processamento de grandes quantidades de dados, úteis para planificar a infra-estrutura nacional.
Aos 20 anos, o estudante moçambicano Shaade Muteto, finalista do curso de engenharia mecânica da Universidade Eduardo Mondlane (UEM), criou um modelo baseado em Inteligência Artificial capaz de prever o comportamento da matriz energética de Moçambique até 2045. O projecto deu corpo à sua monografia para defesa da licenciatura. O trabalho académico, intitulado “Planeamento da Matriz Energética de Moçambique até 2045, com base em redes neurais”, foi classificado com uma nota de 19. Segundo o seu tutor, trata-se de um estudo com qualidade de “mestrado ou mesmo doutoramento”.
“Eu queria fazer algo realmente impactante”, afirmou o recém-formado à E&M. “Eu sabia que seria difícil, mas também queria dar uma contribuição concreta para o País”, acrescentou.
A ideia não surgiu imediatamente. Após duas tentativas frustradas de encontrar um tema — uma porque o assunto já havia sido amplamente explorado e outra porque dependia de equipamentos que não chegaram a tempo —, Shaade aceitou o desafio proposto pelo seu orientador: desenvolver um modelo de previsão energética baseado em redes neurais.
O poder das redes neurais
Durante seis meses, desde Março de 2025, recolheu e organizou manualmente dados da empresa estatal Electricidade de Moçambique (EDM) entre 2007 e 2023. Foi um trabalho meticuloso, feito numa folha de cálculo, linha por linha. “Passei duas semanas apenas a organizar dados. Foi cansativo, mas foi crucial para a precisão do modelo”, recorda.
No centro da proposta está a tecnologia de redes neurais artificiais, um tipo de IA inspirada no funcionamento do cérebro humano. Assim como os neurónios humanos comunicam entre si para processar informações, as redes neurais fazem o mesmo com números e dados.
Os resultados podem ajudar a planear melhor os investimentos em energia limpa e acessível. “Mais do que um trabalho académico, é uma contribuição para o futuro”, enfatizou o engenheiro moçambicano
Cada “neurónio artificial” realiza pequenas operações matemáticas e a combinação dessas operações permite reconhecer padrões e fazer previsões. No caso de Shaade, o modelo foi treinado com milhares de dados e realizou cerca de um bilião de cálculos em poucos minutos.
“É incrível pensar que um computador pode processar o equivalente a séculos de cálculos em questão de segundos”, explica o jovem engenheiro. Para o seu trabalho, utilizou uma rede neural recorrente, capaz de aprender com informações passadas para prever o futuro. Isso tornou possível estimar o crescimento da procura de energia e propor as melhores combinações de fontes de energia para o País.
O que o modelo revelou?
O sistema desenvolvido simulou mais de 100 cenários energéticos entre 2027 e 2045. Três caminhos principais surgiram: um baseado em combustíveis fósseis, outro em energia nuclear e um terceiro baseado em fontes renováveis, como solar e eólica.
Este último revelou-se o mais vantajoso por ser mais limpo, mais barato e mais sustentável a longo prazo. “Descobri que as energias renováveis, ao contrário do que se pensa, são mais económicas e requerem menos manutenção”, salientou Muteto.
O estudo revelou que Moçambique tem o maior potencial energético da África Subsaariana, algo que surpreendeu o próprio autor. “Foi chocante perceber que temos tanto potencial e, ainda assim, há regiões inteiras sem acesso electricidade”, salientou.
Os resultados podem ajudar o Governo e as empresas do sector a planear melhor os investimentos em energia limpa e acessível. “Mais do que um trabalho académico, é uma contribuição para o futuro”, enfatizou o engenheiro.
Trabalho feito com recursos internos
Sem acesso a equipamentos sofisticados, Shaade realizou todos os testes em computadores na sala de informática do Departamento de Engenharia Mecânica (DEMO) da UEM. No entanto, mesmo com limitações, conseguiu provar que a Inteligência Artificial pode ser uma aliada estratégica para o desenvolvimento energético do País.
Questionado sobre o papel da IA na engenharia moçambicana, Shaade é optimista: “As universidades estão a adaptar-se. Já existem novos computadores e ferramentas que permitem usar a IA de forma mais eficiente”, referiu.
Por enquanto, o jovem quer ganhar experiência profissional antes de fazer um mestrado, mas a sua paixão pela pesquisa continua: “Aprendi que persistência e disciplina são tudo. Mesmo quando parece impossível, é preciso continuar.”
O projecto de Shaade Muteto mostra como a IA pode ajudar a planear políticas energéticas, prever o consumo, optimizar recursos e reduzir custos ambientais. O mesmo serve de exemplo, ao mostrar como a tecnologia, quando aliada à ciência e à criatividade, pode ajudar a resolver problemas reais. Num país com vastos recursos naturais, mas ainda com grandes desafios energéticos, a inovação pode ser mais uma chave para um futuro sustentável.
Texto Germano Ndlovo • Fotos D.R.
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