advertisemen tJames Heckman, Prémio Nobel da Economia em 2000, é um dos pensadores mais influentes da actualidade na intersecção entre economia, educação e políticas sociais. O seu trabalho toca no requisito fundamental que define a sustentabilidade de uma nação – a qualidade do capital humano. A economia contemporânea está marcada por nomes que conseguiram romper barreiras académicas e influenciar políticas públicas em todo o mundo. Entre eles, destaca-se James Heckman, norte-americano, Prémio Nobel da Economia em 2000, cuja investigação transformou a forma como os Governos, as instituições multilaterais e a sociedade civil olham para os primeiros anos de vida. A sua tese central é simples, porém, forte: investir cedo, na infância, gera os maiores retornos económicos e sociais de longo prazo. O contributo científico de Heckman Formado na tradição da econometria, Heckman destacou-se pela capacidade de traduzir números em políticas. O seu trabalho inicial incidiu sobre métodos estatísticos para lidar com dados incompletos ou enviesados, o que lhe valeu reconhecimento na comunidade científica. No entanto, foi ao explorar a relação entre educação, capital humano e desigualdade social que consolidou a sua influência global. Heckman defende que as políticas públicas devem priorizar o investimento no desenvolvimento das crianças, desde o nascimento até à idade pré-escolar. Esse investimento não se limita ao acesso à educação formal, mas inclui nutrição, saúde, apoio familiar e estímulos cognitivos e emocionais. “As capacidades formam-se cedo”, sintetiza o economista, sublinhando que a sociedade paga um preço muito maior ao tentar corrigir desigualdades depois da adolescência ou na vida adulta. Teses e obras de referência A “Heckman Equation” (Equação de Heckman), como ficou conhecida, é talvez a sua maior contribuição para o debate público. Segundo este princípio, cada dólar investido na primeira infância pode render entre 7 e 10 dólares no futuro, sob a forma de maior produtividade, melhores salários, menor criminalidade e redução da dependência de apoios sociais. Segundo a “Heckman Equation” (Equação de Heckman), cada dólar investido na primeira infância pode render entre 7 e 10 dólares no futuro, sob a forma de maior produtividade, melhores salários, menor criminalidade e redução da dependência de apoios sociais Entre as suas obras, destacam-se “Giving Kids a Fair Chance” (Oferecer uma Oportunidade Justa às Crianças) e “The Myth of Achievement Tests” (O Mito dos Testes de Desempenho), nas quais explora como o desenvolvimento de competências socioemocionais é tão ou mais relevante do que a simples transmissão de conhecimento académico. Heckman desafia o modelo tradicional que valoriza apenas os testes e defende que a perseverança, a disciplina e a capacidade de adaptação são fundamentais para o sucesso individual e colectivo. Exemplos práticos: o caso de Moçambique Em Moçambique, as teses de Heckman encontram eco numa realidade marcada por desafios estruturais. O País apresenta uma das mais altas taxas de desnutrição crónica infantil do mundo, atingindo cerca de 38% das crianças menores de 5 anos, segundo a UNICEF (2023). Este défice compromete o desenvolvimento cognitivo e físico, reduzindo as oportunidades de inserção produtiva e criando um ciclo de pobreza intergeracional. Além disso, dados do Inquérito de Indicadores Múltiplos (MICS, 2019) indicam que cerca de 43% das crianças menores de 5 anos apresentam um atraso de crescimento, um dos índices mais altos da região. Isto significa que, ao negligenciar a primeira infância, o País compromete o futuro da sua força de trabalho e a capacidade de sustentar um crescimento inclusivo. Aplicando a lógica de Heckman, percebe-se que políticas de combate à desnutrição e de promoção da educação pré-escolar não são apenas acções sociais, mas também investimentos económicos estratégicos. A expansão da rede de educação pré-escolar em zonas rurais, acompanhada por programas de saúde materno-infantil e nutrição escolar, teria efeitos multiplicadores sobre a produtividade futura do País. Outro exemplo é o programa “Apoio à Primeira Infância”, desenvolvido por organizações como a Fundação para o Desenvolvimento da Comunidade (FDC) e parceiros internacionais. Iniciativas deste género demonstram, em escala reduzida, como o investimento precoce pode transformar comunidades inteiras, elevando os níveis de escolaridade e reduzindo vulnerabilidades sociais. Ao aplicar as suas teses em contextos como o de Moçambique, torna-se claro que as políticas públicas devem ir além de medidas de emergência ou de curto prazo. O Estado, os parceiros de cooperação e o sector privado precisam de alinhar esforços em torno da primeira infância, um princípio que, para Heckman, é o pilar invisível do crescimento económico sustentável. Se hoje as estatísticas mostram que apenas 5% das crianças moçambicanas têm acesso ao ensino pré-escolar formal, segundo o Ministério da Educação (2022), o alerta de Heckman ganha maior legitimidade: atrasar o investimento nesta componente significa perpetuar desigualdades e desperdiçar potencial humano. A difícil realidade das crianças em África Mais de 66 milhões de crianças menores de 5 anos sofrem de atraso de crescimento em África, de acordo com a UNICEF e a FAO (2023). Um estudo do Banco Mundial (2019) mostra que países africanos perdem até 10% do seu PIB anual devido às consequências da má nutrição e da falta de investimento na primeira infância. Estes números mostram que a lógica de Heckman é mais urgente do que nunca. Ao justificar a importância da aposta na infância, Heckman deixa claro que não há atalho para o desenvolvimento. O verdadeiro milagre económico acontece quando se investe onde o impacto é mais profundo e duradouro: nos primeiros anos de vida. Texto: Celso Chambisso • Fotografia: D.Ra dvertisement
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