a d v e r t i s e m e n tDurante grande parte do período pós-Guerra Fria, África foi tratada como periférica em termos geopolíticos — uma região de ajuda, diplomacia e investimentos esporádicos, em vez de competição estratégica.
Essa era chegou ao fim. Actualmente, África está na encruzilhada dos mercados globais de energia, segurança da cadeia de abastecimento, infra-estrutura digital e rivalidade geopolítica. O continente não é mais não- alinhado. É estrategicamente multi-alinhado.
Os Estados Unidos da América (EUA), a China, a União Europeia (UE) e os países do Golfo estão agora a competir — de forma discreta, mas intensa — pela influência sobre os portos, ferrovias, sistemas energéticos, centros de dados e corredores comerciais africanos. Não se trata de uma questão ideológica, mas sim infra-estrutural.
No cerne desta competição está uma realidade simples: África controla muitos dos insumos necessários para a economia global do século XXI. Minerais essenciais para baterias e semicondutores, novas bacias de petróleo e gás, potencial de energia renovável, uma força de trabalho jovem e mercados de consumo em rápido crescimento convergem no continente. Quem moldar a infra-estrutura de África definirá como esses recursos fluirão para a economia mundial.
A China foi a primeira a reconhecer isso. Através da Iniciativa Belt and Road (conhecida em português como Nova Rota da Seda) financiou portos, ferrovias, zonas industriais, cabos de fibra óptica e fábricas de energia.
O objectivo não era apenas o retorno comercial, mas também a integração logística, incorporando as rotas comerciais africanas nas cadeias de abastecimento centradas na China.
O Ocidente está agora a responder. Os EUA e a UE lançaram as suas próprias plataformas de infra-estrutura e investimento, com o objectivo de oferecer alternativas ao financiamento chinês. Projectos como o Corredor de Lobito, que liga a África Central, rica em minerais, aos portos atlânticos, reflectem um foco renovado do Ocidente no controlo de rotas comerciais estratégicas, e não apenas no apoio ao desenvolvimento.
Os Estados do Golfo entraram em cena com um modelo diferente. Fundos soberanos e conglomerados privados dos Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita e Catar estão a adquirir participações em portos africanos, centros logísticos, centrais eléctricas, agro-negócios e plataformas de tecnologia financeira. A sua abordagem é altamente comercial, mas profundamente estratégica — concebida para garantir o abastecimento alimentar, os fluxos de energia e os retornos financeiros, ao mesmo tempo que expande a sua influência geopolítica.
Para os Governos africanos, esta mudança não é uma ameaça, mas uma oportunidade. O alinhamento múltiplo permite que os países tirem partido da concorrência global. Podem obter capital do Golfo, tecnologia da China, acesso aos mercados europeus e parcerias de segurança dos EUA.
Os Estados Unidos da América (EUA), a China, a União Europeia (UE) e os países do Golfo estão agora a competir — de forma discreta, mas intensa — pela influência sobre os portos, ferrovias, sistemas energéticos, centros de dados e corredores comerciais africanos. Não se trata de uma questão ideológica, mas sim infra-estrutural
Os Estados africanos mais inteligentes já não estão a escolher lados. Estão a escolher projectos.
Este novo ambiente geopolítico também altera o poder de negociação de África. Quando vários blocos globais querem acesso aos mesmos portos, minerais, redes eléctricas e redes digitais, os Governos africanos ganham poder de negociação para exigir melhores condições, maior conteúdo local, transferência de tecnologia mais robusta e ligações industriais mais profundas.
O valor estratégico de África já não é teórico. Está intrinsecamente ligado a oleodutos, cabos submarinos, portos, centrais eléctricas e sistemas de pagamento. O controlo destes activos irá moldar os fluxos comerciais e a influência política durante décadas.
África está a tornar-se um dos palcos onde se decide o futuro do mundo.
Fonte: Further Africa
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