Muitos líderes acreditam que os seus colaboradores pedem demissão para procurarem uma melhor remuneração, mas essa explicação ignora o que realmente impulsiona a rotatividade. A maioria dos profissionais não abandona um salário, mas sim a falta de interesse. Quando o trabalho se torna repetitivo, as reuniões perdem o sentido, a aprendizagem deixa de ser valorizada e a motivação das pessoas desaparece. Quando isso acontece, a retenção de talentos é directamente afectada. Os colaboradores continuam presentes, mas já não estão ligados ao trabalho Os funcionários podem continuar a ir ao escritório ou a participar nas reuniões, mas já deixaram de se sentir conectados àquilo que fazem. Muito se fala sobre o ‘quiet quitting’, tendência que se resume a limitar as tarefas profissionais apenas ao que está estritamente definido na descrição do trabalho, mas há pouca atenção ao impacto do tédio. A falta de tarefas significativas e desafiantes no trabalho agora tem nome: “síndrome do tédio extremo”, ou boreout — apesar do nome, muito distante do burnout, doença ocupacional caracterizada pelo esgotamento causado pelo excesso de trabalho. Aprendizagem pode valer mais do que salário O salário atrai talentos, mas raramente os mantém. O que realmente faz as pessoas ficarem é a sensação de estarem a aprender, a contribuir e a crescer. Quando esses elementos desaparecem, a motivação cai e a rotatividade aumenta. De acordo com dados da consultora global Gallup, profissionais que afirmam ter oportunidades de aprender e crescer têm o dobro de probabilidades de permanecer nas suas empresas. Quando essas oportunidades desaparecem, as pessoas começam a imaginar novas possibilidades noutro lugar. O tédio manifesta-se como desengajamento, menor criatividade e menos iniciativa. A razão do turnover Se a motivação alimenta o propósito, quando os profissionais deixam de se sentir desafiados ou valorizados, o desempenho começa a cair muito antes da demissão. Os psicólogos Edward Deci e Richard Ryan identificaram três necessidades básicas para o bem-estar no trabalho: autonomia, competência e ligação. Quando esta tríade é ignorada, a motivação entra em declínio. Os funcionários passam a focar-se apenas em “sobreviver ao dia”, em vez de criar valor. O desengajamento espalha-se silenciosamente Esse desengajamento alastra-se lentamente pelas equipas, reduzindo a energia e a performance colectiva. O resultado é uma queda gradual no compromisso — que, com o tempo, leva as pessoas a procurarem oportunidades noutros lugares. Por isso, durante as entrevistas de término de funções, pode ser importante investigar se o tédio foi o verdadeiro gatilho para a saída do colaborador. Desafios geram motivação O trabalho pode tornar-se entediante quando a rotina substitui a curiosidade. Em muitas empresas, o sucesso acaba por se transformar numa armadilha. Quando os funcionários dominam as suas funções, muitas vezes são designados repetidamente para as mesmas tarefas, justamente por serem fiáveis. O que começa como um reconhecimento pela excelência acaba em repetição, e isso anestesia a motivação. O problema não é falta de ambição, mas ausência de novos desafios. Pesquisas mostram que novidade e aprendizagem activam o sistema de recompensa do cérebro, mantendo as pessoas envolvidas. Sem esse estímulo, até os melhores talentos começam a perder o interesse. A previsibilidade pode parecer segurança para os líderes, mas tem um custo elevado para a retenção. Fonte: Forbes Brasil
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