África está a entrar numa transformação tecnológica profunda, muito para além da adopção móvel e da disrupção no sector fintech. Uma nova corrida está em curso no continente, para construir a infra-estrutura de Inteligência Artificial (IA) que determinará quais as economias que liderarão a próxima década de transformação digital.
De Lagos a Nairóbi, de Kigali a Joanesburgo, Governos e empresas privadas estão a priorizar regiões de cloud, data centres hyperscale, capacidades de desenho de semi-condutores e estratégias de soberania digital. O resultado é um novo mapa de poder digital, em rápida evolução, que está a redefinir fluxos de investimento, competitividade e o lugar de África no mercado tecnológico global.
Um boom silencioso de infra-estruturas por detrás do Hype da IA
Grande parte da conversa global sobre a IA está centrada em aplicações para o consumidor — chatbots, ferramentas de automação e plataformas de produtividade.
Por todo o continente, os desenvolvimentos mais significativos estão a acontecer nos bastidores, na infra-estrutura física necessária para alimentar a Inteligência Artificial em larga escala:
Data centers: novos projectos da Equinix, Africa Data Centres, Raxio, PAIX, NTT e Teraco;
Modernização cloud: parcerias reforçadas com Microsoft, AWS, Google Cloud e Huawei Cloud;
Expansão de fibra óptica: corredores regionais de conectividade entre a África Oriental e Austral;
Regulação preparada para a IA: estratégias nacionais no Ruanda, Quénia, África do Sul, Egipto e Etiópia;
Investimentos em energia verde para garantir operações sustentáveis.
Esta mudança está a criar as bases para uma economia africana de IA assente na infra-estrutura, e não na imitação.
Nigéria, Quénia e África do Sul lideram: outros países que aceleram
A Nigéria está a tornar-se a porta de entrada da IA na África Ocidental. Com o planeado data center de 22 milhões de dólares da Equinix em Lagos, e um sector fintech dinâmico, o país posiciona-se para dominar serviços cloud e computacionais.
O Quénia continua a atrair atenção global, graças ao seu sistema de identidade digital, elevada adopção de cloud e novos quadros políticos para a IA.
A África do Sul mantém-se como o mercado mais maduro do continente, com regiões cloud de grande escala e forte procura empresarial.
Entretanto, Ruanda, Senegal, Gana, Namíbia e Etiópia estão a reduzir rapidamente a distância, através de incentivos ao investimento e estratégias nacionais de IA que visam desenvolver a capacidade interna.
Porque é que isto importa para o futuro económico de África?
A IA beneficia mais as nações que dispõem de:
Energia renovável a baixo custo;
Mercados digitais em rápido crescimento;
Acesso a jovens talentos técnicos;
Ambientes regulatórios em melhoria.
África cumpre todos estes requisitos. Se o continente conseguir expandir a sua base de infra-estruturas, poderá desbloquear:
Uma nova vaga de produtividade industrial;
Um aumento das exportações de serviços digitais;
Sistemas agrícolas, de saúde e de logística impulsionados por IA;
Milhões de empregos qualificados em engenharia de dados, segurança cloud e operações de IA.
Construir soberania digital
Um elemento-chave desta corrida é a soberania. Os países reconhecem a necessidade de armazenar, processar e governar dados dentro das suas fronteiras. Este movimento está a acelerar a transição de plataformas alojadas no estrangeiro para modelos regionais com residência de dados local, apoiados por iniciativas africanas como a Smart Africa, a Estratégia Digital da União Africana 2030 e alianças regionais de cloud.
Para os investidores, isto representa uma oportunidade de vários milhares de milhões de dólares em infra-estrutura, energia limpa, design de semi-condutores e bens públicos digitais.
Uma década decisiva pela frente
A corrida africana pela infra-estrutura de IA ainda está numa fase inicial, mas o ritmo está a acelerar. Com actores globais, Governos africanos e inovadores locais alinhados em torno do crescimento digital, o continente está discretamente a construir as bases de uma poderosa economia tecnológica.
A próxima década determinará se África emerge como um hub global de IA ou se cederá vantagem competitiva a mercados externos. Por agora, o impulso é evidente: o continente está a ligar o futuro, e, desta vez, está a construir o “backend”, não apenas as aplicações.
Fonte: Further Africa
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