Gestores financeiros das maiores empresas do País lançam um sinal de alerta: conflitos internacionais, cortes no apoio externo e volatilidade nos mercados globais aumentam a pressão sobre decisões estratégicas e operacionais. Paradoxalmente, mantêm-se optimistas quanto ao futuro próximo.
Os chief financial officers (CFO) das maiores empresas moçambicanas estão preocupados com a prevalência de elevados riscos geopolíticos e referem que o fenómeno representa uma das maiores ameaças à rentabilidade e sustentabilidade dos negócios nos próximos 12 meses. Cerca 86% dos CFO inquiridos pela consultora Deloitte classificaram os riscos geopolíticos como preocupação altamente significativa para as empresas.
Num mundo marcado por conflitos internacionais, como a guerra provocada pela Rússia ao invadir a Ucrânia e a escalada de tensão no Médio Oriente, Moçambique sofre com a volatilidade dos preços da energia, as perturbações nas cadeias globais de valor e a crescente incerteza sobre fluxos de financiamento. A situação é agravada pelos cortes no apoio externo, sobretudo por parte dos Estados Unidos, com impacto directo em áreas essenciais, como a saúde.
Estas são as conclusões do CFO Survey, uma iniciativa global da Deloitte que procura dar voz a executivos financeiros seniores, em todo o mundo.
Em Moçambique, o inquérito foi conduzido entre 23 de Abril e 14 de Maio de 2025, através de convites enviados por e-mail aos CFO das maiores empresas nacionais, abrangendo sectores como consumo, serviços financeiros, energia, construção civil, indústria, transporte e logística. O objectivo do estudo é fornecer uma visão abrangente das opiniões sobre condições económicas e financeiras, as prioridades estratégicas e os factores de risco considerados vitais para o futuro das empresas.
Maior parte das empresas já sofreu
De acordo com a publicação, o peso dos riscos geopolíticos é tal que 57% dos CFO reconhecem ter visto os seus objectivos estratégicos prejudicados “em grande medida” ou “em certo ponto”. Estas empresas apontam as vendas e as cadeias de abastecimento entre as áreas mais afectadas. Do universo que confirma ter sido afectado, 54% dos CFO referem que os riscos geopolíticos causaram perturbações significativas. Em contrapartida, 46% (vendas) e 39% (cadeia de abastecimento) assinalam efeitos limitados, enquanto 4% dizem não ter sofrido impacto algum nas cadeias de fornecimento.
Apesar de o metical se manter estável há vários anos, os gestores financeiros temem momentos de volatilidade face a moedas de referência (como o dólar e o euro)
Por outro lado, 21% das empresas relatam um impacto limitado e outra parcela de 21% afirma não ter registado quaisquer impactos geopolíticos para o alcance dos seus objectivos nos últimos 12 meses. Estas empresas caracterizam-se, na generalidade, por fornecerem produtos ou serviços com menor dependência do mercado externo e, por isso, mais dependentes da dinâmica interna do País do que de factores externos.
Como lidar com os riscos?
Face ao ambiente de incerteza, os CFO dividem-se quanto à forma de agir. Uma minoria (14%) prefere esperar por melhor ambiente antes de tomar decisões. A maioria, porém (86%), tem adoptado uma “postura mais preventiva e proactiva”, apostando em medidas como:
Análise de cenários e avaliações de impacto;
Testes de resiliência interna;
Reavaliação ou realocação de locais de produção;
Expansão de departamentos especializados em geopolítica.
A pesquisa não detalha como estas iniciativas estão a ser implementadas, mas é possível compreender a sua lógica prática. Análises de cenários, por exemplo, podem envolver a criação de diferentes projecções de evolução do mercado cambial ou dos preços da energia, simulando o impacto nos custos e margens.
Os testes de resiliência interna podem ser concretizados através de exercícios que avaliem a capacidade da empresa em manter operações no caso de ruptura nas cadeias de abastecimento.
Já a realocação de locais de produção pode significar transferir parte da actividade para geografias menos expostas a choques externos, enquanto a expansão de departamentos especializados se traduz em contratar ou formar equipas internas capazes de monitorizar, de forma contínua, os riscos internacionais e transformá-los em informação útil para a tomada de decisão. Estas estratégias, ainda que descritas de forma geral, revelam uma tentativa clara de antecipar cenários adversos, reduzir dependências e fortalecer a capacidade de resposta. O reforço do conhecimento organizacional sobre factores geopolíticos permite também decisões mais informadas e assertivas, aumentando a resiliência das empresas perante choques externos.
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Pressões financeiras e cambiais
Além dos riscos de ordem geopolítica, os CFO em Moçambique mostram forte preocupação com os riscos financeiros e cambiais. Estes são vistos como factores que ameaçam directamente as operações e a rentabilidade. Apesar de o metical se manter estável há vários anos, os gestores financeiros temem que uma volatilidade face a moedas de referência (como o dólar e o euro) cause problemas na gestão de tesouraria, no planeamento de investimentos e na manutenção de margens competitivas.
De acordo com o inquérito, 54% dos CFO moçambicanos identificam o risco cambial como uma das principais ameaças aos seus negócios, contrastando com apenas 27% dos gestores financeiros em Portugal e uma média de 22% entre os países da Europa Ocidental. A diferença explica-se pelo facto de estes países pertencerem à Zona Euro, que garante maior estabilidade cambial e mecanismos de mitigação mais sólidos. Nos países europeus, a percepção do risco financeiro está mais ligada ao aumento das taxas de juro e à inflação (apontada por cerca de 41% dos CFO).
Inflação e retracção do apetite pelo risco
A inflação é também um dos factores que mais condicionam as decisões financeiras das empresas em Moçambique. Segundo o inquérito, 47% dos CFO moçambicanos apontam a subida persistente dos preços como um risco elevado para a rentabilidade, valor que se aproxima da média europeia (49%) e de Portugal (46%). Embora a magnitude seja semelhante, o impacto relativo é distinto: nas economias mais desenvolvidas, os CFO podem recorrer a instrumentos de protecção e planeamento sofisticados.
A pressão inflacionária soma-se a percepções já identificadas, nomeadamente cambiais e geopolíticas, agudizando uma ideia de incerteza. Neste contexto, a maioria dos gestores financeiros prefere adoptar uma postura defensiva. O estudo indica que 61% dos CFO em Moçambique consideram que este não é um bom momento para assumir riscos adicionais nos negócios, uma percentagem significativamente acima da registada em Portugal (42%) e na média europeia (39%).
Esta diferença reflecte uma economia mais exposta a choques externos e com menor capacidade de absorção de riscos. Em consequência, o investimento tende a ser mais selectivo, privilegiando áreas que reforçam a resiliência operacional e a sustentabilidade de médio prazo, em detrimento de apostas mais ousadas em inovação ou expansão acelerada.
Boas perspectivas, apesar dos riscos
Mesmo num cenário marcado por uma percepção de riscos e cautelas, os CFO em Moçambique mantêm uma visão optimista quanto ao futuro. O inquérito mostra que 71% dos gestores financeiros prevê um crescimento das receitas nos próximos 12 meses, uma expectativa que supera a média europeia (58%) e de Portugal (62%).
No que diz respeito às margens operacionais, 63% dos CFO no País acreditam que estas vão melhorar, contrastando com apenas 46% em Portugal e 44% na média europeia. Este dado sugere que, apesar das vulnerabilidades cambiais e inflacionárias, existe confiança de que a procura e a adaptação das estratégias de negócio permitirão sustentar margens mais robustas.
As perspectivas de investimento também acompanham este optimismo: 52% dos CFO moçambicanos planeiam aumentar as despesas de capital, em comparação com 37% em Portugal e 33% na Europa. O mesmo se observa nas despesas com o pessoal: 48% em Moçambique pretendem reforçar a contratação ou os salários, contra 34% em Portugal e 31% na média europeia. Esta postura sugere que, mesmo num ambiente adverso, a confiança nas oportunidades supera o receio de retracção, abrindo espaço para estratégias de crescimento sustentado.
Financiamento, investimento e aposta na eficiência
Para financiar os investimentos, os CFO em Moçambique mostram preferência pela utilização de fundos próprios da empresa em vez de recorrer a empréstimos bancários ou a mercados de capitais internacionais. O inquérito indica que 57% dos CFO consideram esta a opção mais atractiva para suportar despesas de investimento, enquanto apenas 32% vêem os empréstimos bancários como viáveis.
A aversão a financiamento externo explica-se num contexto de taxas de juro elevadas, apesar da redução da Taxa MIMO pelo Banco de Moçambique, que caiu de Janeiro de 2024 a Julho de 2025, de forma acumulada, em cerca de 7 pontos percentuais, fixando-se actualmente em 10,25%. A ‘prime rate’, por sua vez, sofreu uma redução inferior de 6,1 pontos para 17,4%, mantendo o crédito relativamente caro.
No plano do investimento corporativo, os CFO moçambicanos têm priorizado áreas estratégicas que reforcem a eficiência e a resiliência. O inquérito destaca que:
82% mantiveram ou aumentaram investimentos na eficiência operacional;
82% na resiliência organizacional;
75% na transformação digital;
75% no desenvolvimento de pessoal e talento;
68% na sustentabilidade nas suas três dimensões (social, ambiental e governança).
Em contraste, a investigação e desenvolvimento (I&D) não é prioridade para a maioria: 61% dos CFO indicam que esta área não se aplica significativamente às suas operações e apenas 32% mantêm investimentos nesta dimensão.
Texto: Celso Chambisso • Fotografia: D.R.
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