a d v e r t i s e m e n tO Brasil é o anfitrião da cimeira climática COP30, que acontece em Belém – cidade brasileira -, e defensor da agenda global da transição energética. Contudo, o país continua a expandir a exploração de combustíveis fósseis.
Segundo uma análise publicada pelo Further África, o continente africano, que participa no fórum como vítima e solução da actual crise climática, deve tirar lições cruciais – tanto sobre o que imitar como sobre o que evitar.
A dupla narrativa da transição brasileira
O Brasil construiu um dos sistemas energéticos mais diversificados do mundo. A hidroenergia domina, complementada por biocombustíveis, energia eólica e solar. Contudo, embora o país reivindique, com razão, justiça climática e financiamento equitativo, continua a leiloar novos blocos de petróleo offshore.
Esta dualidade — pregar sustentabilidade enquanto aprofunda a extracção de hidrocarbonetos — evidencia a complexidade de equilibrar desenvolvimento e descarbonização. É um desafio que África conhece bem, mas que deve enfrentar com maior estratégia.
O que África deve aprender com o Brasil
O Further África avança ainda que o maior êxito do Brasil reside na sua matriz energética integrada, que combina renováveis com energia de base estável. A sua rede nacional permite distribuição em larga escala, assegurando segurança energética mesmo em anos de seca.
A lição para África: a transição energética deve ser planeada, não improvisada. Países como Quénia, Marrocos e Egipto já adoptam este modelo — diversificando em energia eólica, solar, hidroeléctrica e geotérmica, ao mesmo tempo que modernizam redes e sistemas de transmissão. O objectivo é a fiabilidade, não o simbolismo.
A revolução do etanol no Brasil não foi acidental. Foi fruto de uma política estatal que uniu metas ambientais a transformação económica. O país desenvolveu capacidade interna — desde plantações de cana-de-açúcar até refinarias de etanol —, criando milhões de empregos e uma indústria verde competitiva a nível global.
A oportunidade para África: os Governos podem promover revoluções industriais verdes semelhantes, ligando projectos de energia renovável à manufactura local e às cadeias de valor. A estratégia do hidrogénio da Namíbia, o desenvolvimento hidroeléctrico de Moçambique e as ambições de armazenamento em bateria da África do Sul apontam para um modelo africano de política industrial climática.
Os programas de reflorestamento e agricultura de pequena escala do Brasil — especialmente através do Fundo Amazónia — incorporam as comunidades na lógica económica da conservação.
A lição africana: a conservação deve gerar rendimento. Desde os esquemas de créditos de carbono no Quénia até às parcerias florestais na Zâmbia, iniciativas climáticas inclusivas que recompensam a gestão local podem transformar a protecção ambiental num motor de rendimento rural e estabilidade.
O que África deve evitar
O renovado interesse do Brasil em novos blocos de petróleo offshore mina a sua credibilidade climática. Corre o risco de transformar a transição energética num slogan político em vez de numa realidade industrial.
O aviso para África: embora o petróleo e o gás permaneçam vitais para a estabilidade fiscal, apostar na expansão fóssil como estratégia central de crescimento pode ser contraproducente. As futuras tarifas de carbono e a queda da procura global podem corroer receitas justamente quando o capital de transição se torna o novo motor de investimento. A mensagem para os decisores africanos é clara: extrair de forma estratégica, mas investir de forma transicional.
No Brasil, a sobreposição institucional e a lentidão nos licenciamentos têm atrasado projectos renováveis e desmotivado investidores.
O maior êxito do Brasil reside na sua matriz energética integrada, que combina renováveis com energia de base estável.
A prioridade africana: clareza é capital. Simplificar a governação através de agências únicas de transição energética, licenciamento digital e incentivos fiscais claros pode atrair investimento privado de longo prazo. O grupo de trabalho de reforma energética de Moçambique e a digitalização regulatória do Ruanda são exemplos emergentes.
A força inovadora do Brasil nos biocombustíveis não tem sido acompanhada por investimento suficiente em tecnologias de fronteira, como o hidrogénio verde, a captura de carbono e a gestão de redes baseada em Inteligência Artificial.
A visão africana: para evitar a mesma armadilha, os países devem priorizar parcerias de investigação com universidades, startups e laboratórios globais. A juventude do continente é um dividendo intelectual; investir em educação STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática) e incubadoras de tecnologia climática pode garantir o lugar de África na próxima vaga de inovação.
Financiando a transição africana
África representa menos de 4% das emissões globais, mas suporta alguns dos custos mais elevados das alterações climáticas. O continente necessita de mais de 200 mil milhões de dólares anuais para cumprir as suas metas energéticas, mas os fluxos actuais de financiamento climático permanecem abaixo de 15% desse valor.
A lição do Brasil é clara: a ambição climática deve ser sustentada por financiamento acessível. África deve continuar a pressionar — tanto na COP30 como além — por financiamento concessional, instrumentos mistos e mecanismos de dívida mais justos que reflictam a responsabilidade histórica.
Modelos financeiros inovadores, como as obrigações verdes, os empréstimos soberanos ligados à sustentabilidade e a monetização de créditos de carbono, começam a remodelar o espaço fiscal africano. O próximo passo é localizar esses instrumentos, criando ecossistemas de finanças verdes domésticos que reduzam a dependência de credores externos.
Uma oportunidade para liderar, não seguir
Para o Further Africa, a posição estrutural de África é única. Ao contrário das regiões industrializadas, sobrecarregadas por emissões históricas, o continente pode saltar directamente para a energia limpa. A hidroenergia de Mphanda Nkuwa em Moçambique, os corredores solares no Sahel e os projectos de hidrogénio verde na Namíbia e Mauritânia exemplificam uma transição pragmática e orientada por oportunidades.
Projecto hidroeléctrico de grande escala em Moçambique – Mphanda Nkuwa
Além disso, a riqueza mineral africana — do cobalto à grafite — coloca o continente no centro da cadeia global de fornecimento de energia limpa. Transformar esta vantagem em valor exige boa governação, contratos transparentes e coordenação regional, para evitar as armadilhas do nacionalismo dos recursos.
A ética da transição
À medida que se aproxima a COP30, África deve afirmar que a transição energética não é apenas um exercício climático — é uma questão moral e económica. A mensagem do continente deve ser inequívoca: a sustentabilidade não pode vir à custa do desenvolvimento, mas o desenvolvimento deve ser reestruturado para a sustentabilidade.
O caminho africano situa-se entre dois extremos — nem a negação da dependência fóssil, nem a perseguição cega da descarbonização ao estilo ocidental. Encontra-se no pragmatismo equilibrado: usar os recursos de hoje para construir a capacidade verde de amanhã.
Se o continente conseguir manter o rumo, poderá redefinir a justiça climática global, provando que a resiliência, a inovação e a equidade podem coexistir – concluiu.
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