advertisemen tÁfrica, o continente com o crescimento demográfico mais rápido do mundo, encontra-se num momento decisivo da sua trajectória energética. Com uma população projectada para ultrapassar os 2,5 mil milhões até 2050, a procura de energia deverá mais do que duplicar nas próximas duas décadas. O desafio é duplo – expandir o acesso a electricidade acessível e, ao mesmo tempo, promover uma transição sustentável para longe dos combustíveis fósseis. O acesso à energia continua a ser um dos maiores desafios de desenvolvimento em África. Mais de 600 milhões de pessoas ainda vivem sem electricidade fiável e, mesmo entre aquelas ligadas às redes nacionais, as falhas e interrupções são frequentes e dispendiosas. Esta realidade limita a industrialização, enfraquece a educação e a prestação de cuidados de saúde e reduz a produtividade geral. No entanto, o futuro energético do continente não é definido pela escassez, mas pelo potencial. África possui alguns dos recursos solares, hídricos, eólicos e geotérmicos mais ricos do planeta. Aproveitá-los pode permitir não apenas satisfazer a procura interna crescente, mas também transformar o continente num fornecedor global de energia limpa e de materiais energéticos essenciais. Em países como Etiópia, Moçambique e Zâmbia, vastos recursos hidroeléctricos sustentam os esforços de industrialização e de expansão do comércio regional. Em Marrocos, Egipto e África do Sul, a energia solar e eólica tornaram-se pilares das estratégias nacionais rumo à neutralidade carbónica. Já a Namíbia e a Mauritânia emergem como líderes na produção de hidrogénio verde – um sector que deverá atrair dezenas de milhares de milhões de dólares em investimento na próxima década. Combustíveis fósseis e a transição justa Apesar do movimento global de descarbonização, os combustíveis fósseis ainda representam grande parte da matriz energética africana – especialmente o gás natural, visto por muitos Governos como “combustível de transição”. Projectos como os do Rovuma, em Moçambique, os campos offshore da Nigéria e os corredores de gás natural liquefeito (GNL) na Tanzânia ilustram o delicado equilíbrio entre a geração de receitas e a responsabilidade ambiental. O debate sobre uma “transição energética justa” em África vai, portanto, além das metas climáticas. Trata-se de equidade – do direito de industrializar, de tirar os cidadãos da pobreza e de construir resiliência face aos choques climáticos. O continente é responsável por menos de 4% das emissões globais de gases de efeito estufa, mas é um dos que mais sofrem com as suas consequências. À medida que se aproxima a COP30, em Belém, no Brasil, espera-se que os líderes africanos defendam mecanismos de financiamento pragmáticos — que apoiem tanto a adaptação quanto a implantação de energias limpas. Instrumentos como o financiamento misto, as obrigações verdes e as garantias de risco já estão a ser testados por entidades como o Banco Africano de Desenvolvimento (BAD) e a Corporação Financeira Africana (AFC), ajudando a reduzir o risco e a atrair capital institucional. A economia da conectividade A transição energética não pode ocorrer de forma isolada. A interconectividade regional tornou-se uma prioridade estratégica. Iniciativas como a Southern African Power Pool (SAPP), a Eastern Africa Power Pool (EAPP) e a West African Power Pool (WAPP) estão a permitir o comércio transfronteiriço de electricidade, optimizando o excedente de produção e melhorando a estabilidade das redes. A Zona de Comércio Livre Continental Africana (ZCLCA) acrescenta outra dimensão de oportunidade, ao facilitar a circulação de bens, capital e tecnologia necessários para o desenvolvimento de cadeias de valor regionais no fabrico de equipamentos energéticos. À medida que a electricidade se torna mais comerciável, poderá redefinir a geografia industrial africana, permitindo que países ricos em renováveis exportem energia para vizinhos mais dependentes. Financiar o futuro Fechar o défice de financiamento energético de África — estimado em mais de 100 mil milhões de dólares por ano — exige uma mudança de paradigma. As abordagens baseadas na ajuda tradicional estão a dar lugar a instrumentos financeiros inovadores que mobilizam capital privado através de garantias, participações accionistas e financiamento baseado em resultados. Instituições como o BAD, o Banco Mundial e a IFC estão a aumentar o financiamento catalítico, enquanto fundos soberanos do Médio Oriente e da Ásia mostram um interesse crescente nas energias renováveis africanas. Paralelamente, inovações locais — como a M-KOPA (Quénia), a Lumos (Nigéria) e o SOLA Group (África do Sul) — demonstram que modelos de energia distribuída podem gerar retorno social e financeiro. Uma das tendências mais promissoras é o crescimento dos ecossistemas de energy tech. Startups estão a integrar análise de dados, pagamentos móveis e soluções de redes inteligentes para optimizar o uso de energia, monitorizar sistemas remotamente e tornar a electricidade mais acessível tanto em áreas rurais como urbanas. Política e governação: O elo em falta Apesar dos avanços, a transição energética de África depende fortemente da qualidade da governação. Regulamentação inconsistente, lentidão nos processos de licenciamento e políticas regionais fragmentadas continuam a minar a confiança dos investidores. Reformar empresas estatais, criar mecanismos transparentes de compra de energia e garantir estabilidade tarifária são passos essenciais para desbloquear o capital necessário. Alguns Governos já mostram progressos. O Gana reformulou o seu quadro de energias renováveis para atrair produtores independentes; Angola abriu o sector de transmissão e distribuição eléctrica à participação privada; e Ruanda, Benim e Senegal adoptaram contratos baseados em desempenho, que têm melhorado a fiabilidade dos serviços públicos. Diplomacia energética e o papel global de África A geopolítica da energia também está em mutação. As vastas reservas africanas de minerais críticos — como cobalto, grafite, lítio e terras raras — tornam o continente indispensável para a cadeia global de valor da energia limpa. A corrida para garantir o abastecimento está a redefinir alianças comerciais, com países como Zâmbia e República Democrática do Congo (RDC) a posicionarem-se como centros de fabrico de baterias. Ao mesmo tempo, iniciativas como o Corredor do Lobito — que liga Angola, Zâmbia e RDC — mostram como a diplomacia de infra-estruturas pode transformar corredores de recursos em motores de cooperação regional. A crescente presença africana em plataformas como o Grupo dos 20 (G20), o BRICS+ e a Países Exportadores de Petróleo e aliados (OPEP+) reforça o seu peso estratégico na definição das narrativas globais de energia. Um futuro escrito em quilowatts A jornada energética de África é, no fundo, uma questão de soberania — o poder de definir o seu próprio rumo de desenvolvimento. Com a inovação a acelerar, os fluxos de investimento a diversificarem-se e as instituições regionais a fortalecerem-se, estão a ser lançadas as bases para um novo paradigma energético. A questão já não é se África vai realizar a transição, mas como e em que condições. O continente dispõe dos recursos, do dinamismo demográfico e da capacidade tecnológica necessários para ultrapassar modelos ultrapassados e liderar um futuro energético sustentável e inclusivo. Se concretizada, essa visão não apenas iluminará as cidades e indústrias africanas — iluminará também o caminho do mundo. Fonte: Further Africa
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