A passagem de três ciclones tropicais entre Dezembro de 2024 e Março de 2025 deixou cerca de 450 mil consumidores moçambicanos sem fornecimento de energia eléctrica, segundo estimativas divulgadas esta terça-feira pela Agência Internacional de Energia (AIE). O impacto foi particularmente grave nas infra-estruturas da rede, cujos danos reiteram a vulnerabilidade do sistema energético nacional face aos efeitos das alterações climáticas, segundo informou a Lusa.

“Quase todos os anos, temos ciclones tropicais com danos significativos às infra-estruturas eléctricas nacionais. Mais recentemente, três ciclones, Chido, Dikeledi e Jude, causaram, cada um deles, cortes de energia a mais de 150 mil clientes devido a danos na rede eléctrica”, afirmou Rita Madeira, gestora do Programa África da AIE, durante a apresentação da Avaliação Nacional da Resiliência Climática de Moçambique, em Maputo.

O documento foi lançado no âmbito da Semana de Energia e Clima da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), que decorre até sexta-feira, e analisa o impacto das mudanças climáticas sobre o sector energético, com recomendações de resiliência para os países da região.

Moçambique figura entre os países mais expostos e vulneráveis às alterações climáticas a nível global. A cada época chuvosa, entre Outubro e Abril, o País é ciclicamente atingido por cheias e ciclones tropicais, com impactos significativos nas populações e nas infra-estruturas estratégicas. O ciclone Chido, o primeiro e mais intenso da última época, causou os maiores danos, agravando ainda mais as fragilidades existentes.

A capacidade de produção das centrais hidroeléctricas moçambicanas poderá reduzir 14%

A AIE sublinha que o sistema energético moçambicano enfrentou perturbações relevantes no último ano devido a fenómenos meteorológicos extremos. Sem medidas adicionais de adaptação, os riscos tendem a aumentar. Um dos factores de preocupação prende-se com o aumento da procura por arrefecimento, impulsionado pela subida das temperaturas médias. Estima-se que esse aumento poderá provocar um crescimento de quase 20% na procura de energia na próxima década, colocando pressão adicional sobre uma rede já sobrecarregada.

De acordo com os dados apresentados, embora o aquecimento em Moçambique tenha permanecido abaixo da média global, a tendência tem-se agravado: entre 2000 e 2023, a temperatura média subiu 0,28 graus centígrados por década. No quinquénio mais recente, entre 2019 e 2023, a temperatura média da superfície terrestre no País atingiu 24,4 graus centígrados, o que representa um aumento de 0,6 graus face ao período 2000-2004.

Esta evolução coloca desafios técnicos adicionais às redes eléctricas, desenhadas para operar com uma temperatura ambiente de referência de 25 graus. Com a subida das temperaturas, a capacidade de transporte de corrente é reduzida, sendo necessário limitar a potência em determinados períodos, situação que pode agravar os cortes e falhas de fornecimento.

A AIE prevê ainda que, até ao final do século, a capacidade de produção das centrais hidroeléctricas moçambicanas poderá reduzir 14%, caso não sejam implementadas medidas robustas de resiliência. Tal cenário agravaria ainda mais a dependência do País de fontes energéticas vulneráveis a fenómenos extremos.

Neste contexto, a agência apela ao Governo e aos parceiros de cooperação para que priorizem investimentos em infra-estruturas mais adaptadas ao clima futuro, assegurando um fornecimento eléctrico estável, seguro e inclusivo.

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