O Centro de Estudos para o Desenvolvimento Económico e Social de África (CEDESA) considera que o Corredor do Lobito deve ter um observatório independente africano para rastrear compromissos e investimentos, promovendo a responsabilização dos intervenientes e uma abordagem mais integrada e transparente. Estas são as principais conclusões do jurista Rui Verde, membro do think tank CEDESA, entidade que se dedica ao estudo e investigação de temas políticos e económicos da África Austral, num artigo intitulado “O Corredor do Lobito: Retórica, Engenharia Financeira e Disputa de Valores”. O texto expõe fragilidades do projecto levantando questões sobre transparência, coordenação e rastreabilidade dos compromissos europeus e norte-americanos, sublinhando que “a China continua a ser um actor dominante na mineração africana, pelo que dificilmente o Corredor do Lobito poderá ser um sucesso sem a participação e colaboração chinesas.”advertisement No documento, que reúne “variados contributos dos participantes no II Fórum Angola-RDC”, realizado em Setembro passado, critica-se o facto de o corredor ser apresentado como um dos projectos mais ambiciosos do programa europeu de infra-estruturas Global Gateway, um rótulo que agrupa “iniciativas díspares” e levanta dúvidas sobre transparência, coordenação e rastreabilidade dos compromissos assumidos, uma vez que “não constitui um mecanismo de financiamento directo e integral.” A ausência de um quadro consolidado que permita distinguir entre promessas políticas, investimentos efectivos e financiamentos condicionados “dificultam a avaliação do impacto real do programa”, afirmou Rui Verde, frisando que “a fragmentação das fontes — entre União Europeia, Estados Unidos da América (EUA), operadores privados e instituições multilaterais — exige uma abordagem mais integrada e transparente.” O académico sublinha que a questão da rastreabilidade dos compromissos é central no Corredor do Lobito, questionando “a falta de um inventário público e verificável dos projectos, montantes e beneficiários”, o que dificulta a avaliação do impacto real do Global Gateway. Por isso, defende a criação de um observatório independente com participação africana, que permita monitorizar compromissos e avaliar impactos. “Tal iniciativa permite distinguir entre promessas políticas, investimentos efectivos e financiamentos condicionados, promovendo maior responsabilização e alinhamento com os objectivos de desenvolvimento sustentável, evitando mais um projecto neocolonial de mero extractivismo acelerado”, sugere. O envolvimento dos EUA também é questionado, já que “os anunciados empréstimos americanos seguem condições de mercado, e grande parte dos investimentos efectivos provêm de empresas privadas”, nota o CEDESA. O texto expõe fragilidades do projecto levantando questões sobre transparência, coordenação e rastreabilidade dos compromissos europeus e norte-americanos, sublinhando que “a China continua a ser um actor dominante na mineração africana, pelo que dificilmente o Corredor do Lobito poderá ser um sucesso sem a participação e colaboração chinesas” Para o académico fica claro que “o valor estratégico dos minerais africanos é mobilizado para justificar investimentos que também beneficiam indústrias ocidentais”, apontando a retórica de “parcerias equitativas” que contrasta com a realidade de cadeias de valor dominadas por centros de refinação fora do continente africano. No texto, o CEDESA menciona igualmente um projecto energético de grande escala liderado pela norte-americana Hydro-Link, subsidiária da Symbion Power, e financiado por entidades norte-americanas, para construir uma linha de transmissão eléctrica que parte de centrais angolanas rumo à região mineira de Kolwezi, na República Democrática do Congo. Rui Verde salienta que este projecto, que canaliza energia angolana para alimentar a mineração congolesa, “reforça o papel de Angola como plataforma de exportação de recursos energéticos e minerais” e “inscreve-se numa lógica de política externa americana que mobiliza aliados empresariais próximos de Donald Trump.” Também relevante neste projecto é a participação do grupo israelita Mitrelli, com forte implantação em Angola, “o que permite antecipar uma aliança entre o poder económico angolano — e político, uma vez que ambos estão ligados — e os interesses financeiros de possíveis aliados de Trump”, conclui. Fonte: Lusa
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