advertisement Nos últimos anos, as relações entre Moçambique e a Alemanha têm-se fortalecido em diferentes áreas, reflectindo uma parceria de longa data assente no diálogo político, na cooperação para o desenvolvimento, no intercâmbio cultural e no crescimento das relações económicas. A Alemanha, enquanto um dos parceiros estratégicos do País na União Europeia (UE), tem desempenhado um papel relevante em iniciativas que vão desde o apoio à boa governação e à educação, até à promoção de energias renováveis ​​e da formação profissional. Neste mês de Outubro, as duas nações comemoram 40 anos de cooperação formal, e neste período já foram implementados projectos num valor de 1,8 mil milhões de euros (133,5 mil milhões de meticais) em Moçambique. Para compreender melhor o estado actual e as perspectivas desta cooperação bilateral, em entrevista, Inga Tessendorf, chefe adjunta da Embaixada da Alemanha em Moçambique, partilhou com o Diário Económico a sua visão sobre os avanços, desafios e oportunidades que marcam a relação entre os dois países. Qual é o cenário geral da presença da Alemanha em Moçambique hoje e como avalia a cooperação? A Alemanha trabalha com Moçambique desde a sua independência, isto em 1975, e no próximo ano vamos celebrar 50 anos de relações diplomáticas formais, um marco que sublinha a profundidade e a continuidade da nossa parceria, que é muito estreita. Consideramos Moçambique um parceiro fiável e possuímos relações políticas, económicas e culturais, havendo, actualmente, muitos moçambicanos que vivem e estudam na Alemanha. Estamos presentes no País através da Embaixada que representa o Governo alemão, bem como por meio das organizações da cooperação como a Agência Alemã de Cooperação Internacional (GIZ) e Banco Alemão de Desenvolvimento (KfW). Inga Tessendorf, chefe adjunta da Embaixada da Alemanha em Moçambique Temos também o Centro Cultural Moçambicano-Alemão (CCMA), no qual são oferecidas aulas de alemão e realizados eventos culturais, e temos o Serviço Alemão de Intercâmbio Académico (DAAD) na Universidade Pedagógica (UP), que é responsável pelas relações académicas, oferecendo bolsas de estudo para pós-graduação e doutoramento. Contamos com uma Câmara de Comércio e Indústria (AHK, sigla em alemão), que está baseada na África do Sul, mas que conta com um representante instalado no País, conectado com as empresas alemãs que já operam no mercado moçambicano. Existem ainda associações empresariais que trabalham não só no intuito de desenvolver as actividades económicas bilaterais, mas também para atrair novas empresas e investimentos em Moçambique. Há, igualmente, a Germany Trade & Invest (GTAI), uma agência de promoção económica internacional que ajuda empresas internacionais a se estabelecerem na Alemanha, e que oferece consultoria gratuita e suporte a projectos. A Alemanha é um dos maiores investidores europeus em África. Como vê o potencial de Moçambique para atrair mais investimento alemão? África possui um grande potencial e Moçambique tem muito a oferecer, principalmente nas áreas das energias renováveis ​​e hidroeléctrica, no sector da agricultura e da indústria extractiva, no desenvolvimento da infra-estrutura e digitalização. Contudo, os investimentos das empresas alemãs ainda não estão ao nível desta oferta. Actualmente, temos uma parceria com a Câmara de Minas de Moçambique (CMM) que ajuda na avaliação do potencial do País e na identificação de negócios, sendo que também temos participações e investimentos directos alemães na extracção de minerais sólidos bem como na partilha de tecnologias e treinos para o sector. De um modo geral, as nossas empresas estão mais ligadas ao sector logístico e na engenharia, pelo facto de Moçambique possuir um mercado interessante para a venda de turbinas, tecnologias para o sector mineiro, portuário, energético, de infra-estrutura e construção civil. A presença de produtos Made in Germany também se observa no sector da agricultura e silvicultura. Percebemos também uma crescente aproximação na oferta de soluções para a economia azul. A presença alemã no País simboliza uma parceria baseada na confiança, diálogo político e na promoção do desenvolvimento sustentável Há algumas companhias alemãs com participação no mercado de Moçambique há muitos anos, focadas na digitalização, que oferecem, entre outros serviços, tecnologias e soluções para a produção de documentos de identidade e matrículas de autocarros. No presente ano, estivemos representados na 60.ª edição da Feira Internacional de Maputo (FACIM) com um Pavilhão Oficial da Alemanha (German Pavilion), no qual contámos com 14 empresas expositoras, representando com excelência uma pequena parte do sector privado alemão já activo no País. Na FACIM, apresentámos um programa muito rico, que detalhava as oportunidades tanto de Moçambique como da Alemanha. Foi uma experiência interessante onde pudemos conhecer o País, os seus desafios, fragilidades e oportunidades. No mesmo âmbito, duas empresas alemãs foram premiadas com o primeiro e segundo lugares como as melhores expositoras internacionais. Nos últimos anos, qual é o valor do investimento alemão em Moçambique? A Alemanha é um dos maiores parceiros bilaterais na cooperação para o desenvolvimento, tal como nos domínios da ajuda humanitária e da estabilidade. Ao longo destes 40 anos, foram executados projectos avaliados em cerca de 1,8 mil milhões de euros (133,5 mil milhões de meticais). De momento, o valor dos projectos em implementação é de quase 850 milhões de euros (63 mil milhões de meticais). Nas últimas negociações governamentais que decorreram em Junho de 2024, mais 90 milhões de euros (6,6 mil milhões de meticais) de novos compromissos foram assumidos. Nesta semana, lançámos, em conjunto com o Governo moçambicano, o novo programa de linhas de crédito agrícola, denominado “Rural Financing Facility – FINOVA”, que conta com o financiamento do KfW em cooperação com o Banco de Moçambique e a Agência de Desenvolvimento do Vale de Zambeze. A Alemanha tem desempenhado um papel fundamental na modernização da agricultura para reforçar a segurança alimentar Quais são os principais desafios que as empresas alemãs encontram ao investir no País? Apesar de ter um mercado vasto e interessante, ainda persistem alguns desafios que retraem o investimento. Trata-se de factores estruturais relacionados com o clima de investimento e também desafios de infra-estrutruras que podem elevar os custos e restrições ao acesso de produtos ao mercado, o que mina o ambiente de negócios. Algumas companhias de nacionalidade alemã não estão dispostas a correr um risco muito elevado, precisam de garantias sustentáveis. Devido ao ambiente de investimento mais favorável, a África do Sul conta com mais empresas alemãs do que Moçambique. Qual é a posição da Alemanha sobre as crises mundiais e o conflito em Cabo Delgado? O Governo alemão está muito preocupado com várias crises políticas mundiais e, ao mesmo tempo, também, vemos a importância de trabalharmos com os parceiros globais e internacionais para a valorização de toda a cooperação que fizemos nos últimos anos. No âmbito da concepção da nossa política externa, o novo Executivo alemão põe mais ênfase na definição e persecução dos nossos interesses. Para nós, é fundamental que as nossas relações económicas criem valor acrescentado mútuo e tragam vantagens tanto aos nossos países parceiros como à Alemanha. Estamos também interessados ​​no alcance da estabilidade no continente africano, sobretudo no País, que desde 2017 sofre com os ataques terroristas na província de Cabo Delgado, na região norte. Neste sentido, procuramos dar uma resposta integrada, que está mais centrada no desenvolvimento e na estabilização, e prestamos apoio aos refugiados, contando com um financiamento de mais de 100 milhões de euros (7,4 mil milhões de meticais) para 2025. Também fornecemos ajuda médica e alimentos por intermédio do projecto do Nexus Norte. O Nexus Norte é financiado pelo Ministério Alemão de Cooperação Económica e do Desenvolvimento (BMZ) e implementado pela GIZ em parceria com a Agência das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR). A iniciativa tem como meta melhorar as condições de vida dos deslocados, refugiados e membros dos centros de acolhimento, especialmente mulheres e jovens, em comunidades seleccionadas no Norte. De forma bilateral, não temos um programa particular centrado na segurança, mas, em conjunto, apoiamos a Missão de Assistência Militar da União Europeia em Moçambique (EUMAM-MOZ) e contribuímos com a provisão de equipamento militar através da European Peace Facility que é um fundo de 17 mil milhões de euros (1261 mil milhões de meticais) criado pela UE para apoiar acções militares e de defesa, incluindo missões e operações militares, bem como assistência às forças armadas de países parceiros. Alemanha tem sido um dos principais parceiros no financiamento de projectos de energias renováveis, com foco na solar, eólica e hídrica Como é que a Alemanha apoia Moçambique na transição energética e no combate às mudanças climáticas? A transição energética e as mudanças climáticas são temas importantes para nós, sendo que detemos um portefólio que aborda estes assuntos. Estabelecemos uma nova parceria para o clima e para o desenvolvimento, o que também inclui Moçambique por se tratar de um parceiro directo. Na FACIM, realizámos eventos focados na questão da sustentabilidade climática, onde invocámos a necessidade de se estabelecer maior contacto com o sector privado. A Alemanha é o terceiro maior parceiro bilateral de Moçambique na área da energia; temos projectos em implementação avaliados em 275 milhões de euros (20,3 mil milhões de meticais) para impulsionar a estratégia de transição energética. Que recomendações deixa com vista a acelerar o desenvolvimento de Moçambique nos próximos anos? No mundo, verifica-se a escassez de fundos em todos os sentidos. O que podemos pedir como Governo alemão é a priorização e foco, sobretudo em países em vias de desenvolvimento como Moçambique. Vamos ter de procurar mais sinergias, pesquisar por mais áreas de investimento privado, criar relações fortes com o sector privado e estreitar os laços económicos, mas sem esquecer a amizade e a cooperação. Desta forma, é possível gerar maior visibilidade e transmitir as competências e oportunidades do mercado moçambicano. Texto: Cleusia Chirindza ● Fotos: Mariano Silvaa dvertisement

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