advertisemen tÀ medida que África aprofunda a sua integração continental através da Zona de Comércio Livre Continental Africana (ZCLCA), os corredores de transporte e os portos do continente estão a emergir como as artérias de uma nova realidade económica. Do Corredor do Lobito, em Angola, ao porto de Lamu, no Quénia, e ao Corredor Central da Tanzânia, está em curso uma revolução silenciosa na logística e nas infra-estruturas — uma revolução que poderá determinar a eficácia com que África comercializa consigo mesma e com o resto do mundo. Do isolamento à interligação Durante décadas, as economias africanas funcionaram como ilhas fragmentadas, mais facilmente ligadas aos mercados globais do que aos seus vizinhos. Apenas 15% do comércio total de África é intracontinental, em comparação com quase 60% na Europa. Este desequilíbrio é, em grande parte, resultado de lacunas nas infra-estruturas: os países sem litoral dependem de rotas longas e dispendiosas para chegar aos portos, enquanto as ligações ferroviárias e rodoviárias limitadas restringem a integração regional. A transformação em curso dos corredores, tais como o Corredor do Lobito (Angola-República Democrática do Congo-Zâmbia), o Corredor de Desenvolvimento de Maputo (Moçambique-África do Sul) e o Corredor LAPSSET (Quénia-Etiópia-Sudão do Sul), sinaliza uma grande mudança política. Estas redes de transporte multimodal foram concebidas não só para transportar mercadorias mais rapidamente, mas também para criar cadeias de valor transfronteiriças, clusters industriais e zonas industriais que ancoram as economias africanas nas cadeias de abastecimento globais. Portos como multiplicadores económicos Os portos africanos são mais do que portas de entrada para o comércio — são catalisadores de crescimento. De acordo com o Banco Africano de Desenvolvimento (BAD), 90% do comércio africano passa pelos portos marítimos, mas as ineficiências, o congestionamento e o envelhecimento das infra-estruturas somam 35 mil milhões de dólares em perdas anuais. A reforma da gestão portuária tornou-se, portanto, uma prioridade nacional em todo o continente. Expansões recentes — do Porto de Lekki Deep Sea, em Lagos, a Walvis Bay, na Namíbia, passando pela reforma digital de Durban e Berbera, na Somalilândia — ilustram a mudança no panorama. Os Governos estão a adoptar parcerias público-privadas (PPP) e modelos de concessão para modernizar terminais, melhorar a eficiência alfandegária e integrar portos em corredores logísticos regionais. Ao alinhar os portos com os corredores continentais, África está efectivamente a construir a base física da ZCLCA. Por exemplo, o Corredor Lobito de Angola, apoiado pelos Estados Unidos da América (EUA) e pelo Global Gateway da União Europeia (UE), está pronto para ligar os cinturões de cobre da Zâmbia e da RDC ao Oceano Atlântico — reduzindo os tempos de exportação de semanas para dias e remodelando a geografia comercial da África Central. A dimensão financeira e política O financiamento de infra-estruturas continua a ser um dos desafios mais persistentes de África. A União Africana (UA) estima que o continente necessita de 130 a 170 mil milhões de dólares anualmente para colmatar o seu défice de infra-estruturas, com um défice de financiamento de 68 a 108 mil milhões de dólares. Instituições multilaterais, bancos de desenvolvimento e fundos soberanos estão cada vez mais a estabelecer parcerias com Governos africanos para reduzir o risco dos investimentos. A Africa Finance Corporation (AFC), o Afreximbank e a Africa50 tornaram-se actores fundamentais no desenvolvimento de corredores. A sua abordagem combina o financiamento de instalações a longo prazo com a participação de bancos comerciais, ajudando a criar um pipeline de projectos financiáveis. Países como Moçambique e o Quénia estão a introduzir obrigações de plataforma para mobilizar capital interno, enquanto novos fundos soberanos de infra-estruturas estão a garantir a continuidade dos projectos para além dos ciclos eleitorais. No entanto, a consistência das políticas e a governança continuam a ser cruciais. Ambientes regulatórios fracos e atrasos burocráticos muitas vezes inflacionam os custos e afastam os investidores. Um quadro jurídico harmonizado para PPP, mecanismos de coordenação regional e sistemas de aquisição transparentes serão essenciais para atrair e reter investimentos privados de longo prazo. Sustentabilidade e integração digital Os corredores de transporte de última geração de África também devem ser sustentáveis e digitais. Infra-estruturas climaticamente inteligentes — desde ferrovias de baixa emissão até centros logísticos movidos a energia solar — estão a ganhar impulso, apoiadas por iniciativas de financiamento verde. O Corredor do Lobito, por exemplo, incorporou salvaguardas ambientais e requisitos de conteúdo local, garantindo que as comunidades ao longo do percurso sejam directamente beneficiadas. A digitalização também está a remodelar o panorama comercial de África. Portos inteligentes alimentados por Inteligência Artificial, sistemas alfandegários blockchain e rastreamento de carga em tempo real estão a ser adoptados de Durban a Djibouti. Estas tecnologias prometem aumentar a transparência, reduzir atrasos e diminuir os custos comerciais — tudo essencial para a competitividade na era da ZCLCA. Os corredores e portos de África são mais do que projectos; são a espinha dorsal de um novo paradigma de crescimento. Se bem geridos, podem transformar as fronteiras de barreiras em pontes, ligando produtores, fabricantes e consumidores africanos de formas que eram inimagináveis há apenas uma década. À medida que as economias africanas passam da extracção para a transformação, a conectividade determinará a competitividade. O futuro do continente pode muito bem depender da capacidade destas artérias comerciais — físicas e digitais — de sustentar o fluxo de oportunidades para as gerações vindouras.
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