Os Estados Unidos da América estão em negociações para criar um fundo de 312 mil milhões de meticais (5 mil milhões de dólares) destinado ao financiamento de projectos no sector da mineração, numa iniciativa com potencial de impacto directo em Moçambique, onde já foram canalizados investimentos significativos para a produção de grafite, um mineral estratégico na transição energética global. De acordo com informações avançadas pela agência Bloomberg, o fundo está a ser estruturado como uma parceria entre a US International Development Finance Corporation (DFC) e a firma norte-americana Orion Resource Partners, especializada em investimentos no sector mineiro. As conversações ainda decorrem e não há garantias de que o acordo venha a concretizar-se, mas fontes próximas indicam que se trata da mais ambiciosa aposta dos EUA em financiamento directo para garantir o acesso a minerais críticos. A DFC tem estado activa no financiamento de projectos de mineração em países africanos e, em particular, aprovou um empréstimo de 9,36 mil milhões de meticais (150 milhões de dólares) à Syrah Resources, empresa que opera uma mina de grafite em Balama, na província de Cabo Delgado, em Moçambique. A produção da Syrah abastece a cadeia de fornecimento da fabricante norte-americana de veículos eléctricos Tesla, reforçando o papel estratégico do País no fornecimento de matérias-primas para baterias. Além de Moçambique, os Estados Unidos têm demonstrado interesse em fortalecer a sua presença em países como a República Democrática do Congo, a Ucrânia e a Gronelândia, numa tentativa de contrariar a crescente influência da China no controlo das cadeias globais de abastecimento de minerais como o cobre, o cobalto e as terras raras. A China detém actualmente grande parte da capacidade de refinação desses minerais, ao mesmo tempo que continua a adquirir activos mineiros em mercados internacionais. Além de Moçambique, os Estados Unidos procuram reforçar a sua presença noutros países africanos no sector mineiro. A possível criação do fundo surge num momento em que se antevê uma escassez prolongada de metais estratégicos, devido à falta de novos investimentos, à queda na qualidade dos jazigos e à morosidade dos processos de licenciamento. O fundo, que poderá ser capitalizado em partes iguais pela DFC e pela Orion, atingindo gradualmente os 312 mil milhões de meticais (5 mil milhões de dólares), terá um modelo semelhante ao já estabelecido entre a Orion e o fundo soberano de Abu Dhabi, no valor de 74,8 mil milhões de meticais (1,2 mil milhões de dólares). Durante a presidência de Joe Biden, a DFC já tinha aprovado mais de 34,3 mil milhões de meticais (550 milhões de dólares) para o corredor logístico do Lobito, essencial para o escoamento de minerais do centro de África até à costa atlântica, em Angola. Em paralelo, o Departamento de Defesa norte-americano voltou a lançar concursos para constituir reservas estratégicas de cobalto, pela primeira vez desde o fim da Guerra Fria. Também investiu 24,9 mil milhões de meticais (400 milhões de dólares) na MP Materials, produtora norte-americana de terras raras. O interesse norte-americano na mina de Balama insere-se num movimento mais amplo de redução da dependência de fornecedores dominados por interesses chineses, ao mesmo tempo que se promovem cadeias de fornecimento diversificadas e resilientes. De acordo com a Bloomberg, a Orion está também em negociações para adquirir activos de cobre e cobalto na República Democrática do Congo, reforçando o seu posicionamento como actor-chave no mercado de minerais críticos. A DFC, criada no final do primeiro mandato de Donald Trump, deverá ganhar ainda mais protagonismo numa eventual reconfiguração da política económica externa dos EUA, estando prevista uma reautorização do seu mandato que poderá duplicar ou triplicar a sua capacidade de investimento. A nomeação de Ben Black, filho do co-fundador da Apollo Global Management, para liderar a DFC, está ainda pendente de aprovação no Senado.

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