O terceiro painel da 3.ª Conferência sobre Biodiversidade Marinha, realizado esta quinta-feira, 4 de Setembro, na cidade da Beira, centrou-se no tema “Adopção de novos comportamentos sustentáveis para a conservação da biodiversidade costeira e marinha”. O debate foi marcado por denúncias da falta de literacia oceânica nas escolas, pela defesa de modelos de co-gestão participativa da pesca e pela apresentação de mecanismos inovadores de financiamento comunitário que ligam conservação e rendimento económico. Augusto Nhampossa, representante da Associação NATURA Moçambique, abriu o painel sublinhando a vulnerabilidade da costa nacional, onde vive cerca de 60% da população do País. O orador denunciou a ausência de conteúdos pedagógicos adaptados às realidades locais e a falta de contacto directo das crianças com os ecossistemas que as rodeiam. “Há escolas situadas junto de mangais e recifes de coral onde nunca se organizou uma visita de campo para que os alunos conheçam a fauna e a flora marinha. Como podemos esperar que as futuras gerações defendam aquilo que nunca tiveram oportunidade de conhecer?”, questionou. O ambientalista defendeu que a literacia oceânica deve começar cedo e fora das salas de aulas, com excursões, actividades de observação, uso de novas tecnologias e concursos escolares. Recordou ainda iniciativas da NATURA que envolvem clubes ambientais, olimpíadas académicas e acções de literacia oceânica na Ilha da Inhaca e na Ponta do Ouro. Débora Catena, consultora da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), interveio virtualmente em nome do Programa EAF-Nansen, que desde há 50 anos promove a abordagem ecossistémica na gestão das pescarias africanas. A especialista destacou três lições principais: a necessidade de ligar a sustentabilidade à vida quotidiana das comunidades, a importância da participação local na tomada de decisões e o fornecimento de ferramentas práticas para a mudança. “Quando os pescadores percebem que redes ou métodos destrutivos não apenas afectam a biodiversidade, mas reduzem também o seu rendimento futuro, estão mais dispostos a alterar comportamentos”, afirmou. Débora Catena sublinhou ainda que medidas impostas de fora raramente funcionam, sendo essencial envolver as comunidades na identificação dos problemas e na construção das soluções. Referiu o caso de Moçambique, onde pescadores foram integrados na revisão dos planos de gestão das pescarias, o que aumentou a legitimidade das regras e a sua aceitação. A oradora destacou também projectos educativos em que crianças, através de teatro e jogos interactivos, influenciaram directamente as suas famílias a adoptar práticas de conservação. Há escolas situadas junto de mangais e recifes de coral onde nunca se organizou uma visita de campo para que os alunos conheçam a fauna e a flora marinha. Como podemos esperar que as futuras gerações defendam aquilo que nunca tiveram oportunidade de conhecer? Por sua vez, Sharon Matos, da Associação Moçambicana de Reciclagem (AMOR), apresentou a iniciativa “Moedas Azuis”, um fundo que mobiliza recursos do sector privado e de grandes organizações para financiar comunidades costeiras na recolha de resíduos sólidos, sobretudo plásticos, que constituem uma das maiores ameaças aos ecossistemas marinhos. “Pagamos às comunidades por cada quilograma de lixo recolhido. Assim, não só retiramos toneladas de resíduos das praias e mangais, como oferecemos uma alternativa económica viável, reduzindo a dependência da exploração predatória dos recursos naturais”, explicou. Para a oradora, a chave está em mostrar que a preservação pode gerar rendimento e dignidade, criando condições para uma verdadeira mudança de comportamento. O painel contou igualmente com intervenções de Basílio José, da Associação Meio Ambiente e Resposta Climática (AMARC Beira), que salientou os desafios locais relacionados com a erosão costeira e os impactos das alterações climáticas, e do presidente do Conselho Municipal da Beira, Albano Carige, que reafirmou o compromisso do município em apoiar projectos de educação ambiental e conservação, reconhecendo a “vulnerabilidade particular da cidade face ao avanço do mar e a fenómenos climáticos extremos.” Texto: Nário Sixpene
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